sábado, 13 de agosto de 2011

Amanhecendo

 

     De volta ao velho exercício. Escrever, escrever, escrever até chegar onde quero. Queria escrever uma história sobre ela, mas sequer sei seu nome. Ela apareceu pela primeira vez há uns três ou quatro anos. Eu estava num relacionamento com uma mulher que até hoje me custa caro. Amigos me dizem Putz, cara, pisou na bola, hein! Aquela era para casar, como se casar fosse um objetivo de vida necessário a todos os homens. Não penso nisso, o que não quer dizer que nunca me casarei, mas simplesmente não penso. Se acontecer, aconteceu, como tudo que acontece na vida. Meus próprios contos acontecem. Estou lá, a fumar um cigarro, tomar minha vodca ou meu gin, e acontece: a idéia. Depois é só deixar que ela aconteça quando se está sóbrio. Saliento a sobriedade, pois já perdi um sem número de histórias e poemas porque não conseguia lembrar o que tinha pensado. Se não me casei com essa que era para casar, foi por causa da sobriedade, e dessa que sequer sei o nome. Para dizer a verdade, lhe dei um nome, e menti para minha ex que ela era morena. Não sei por que, mas toda morena morrem de ciúmes de qualquer loira, por mais sem graça que seja. As loiras pertencem mesmo ao inconsciente humano, principalmente feminino. Se ela soubesse da minha queda pelas ruivas, nossa vida em comum teria acabado muito antes das reclamações pelos olhares dedicados à beleza alheia, embora a dela fosse a mais perfeita que já tenha visto em uma mulher. Ela nunca entendeu, nunca acreditou, talvez pelas loiras atormentando seu inconsciente de mulher morena. E foi numa dessas que a derradeira queda aconteceu, assim como todas as outras coisas que acontecem. Chris aconteceu. Loira. Linda. Desconhecida. Fomos apresentados três vezes no mesmo dia, inclusive meu chefe, então um cobrador de ônibus bonachão, ex-radialista, que nas horas vagas banca uma de espírita. Eu e a moreninha andávamos de mãos dadas, como manda o protocolo, quando ela passou. Olhei. Abriu-se o cadafalso. Esse olhar me custou caro, quase cem a garrafa, e foram muitas. Pelo menos não tinha o gasto semanal que o protocolo manda quando se está num relacionamento sério e de boas intenções. A moreninha me custava bem mais que isso por semana. É certo que me embriagava também, mas não me entendia como o vinho, a vodca e o gin me entendem.

     Chris foi um nome que lhe dei por nunca ter sabido o verdadeiro. Achei melhor que Natália, seu primeiro nome fictício. Seus nomes foram dados baseados em mulheres reais e imaginárias a ela antecedentes, loiras, por certo. Reais demais para comporem minha ficção, que se abandona ensimesmada nos braços maciços dessa fumaça morena que me preenche a solidão; uma fumaça pequena, impassível à realidade construída com pequenos pedaços de sonhos sonhados continuadamente, como numa novela televisiva, mas sem final. Suas aparições episódicas não são diárias, não seguem um programa, pegam o espectador desprevenido, por isso são tão devastadoras. Sempre estive certo de que a masturbação é o auge da experiência ficcional humana, mas os sonhos que o tempo trouxe me fazem acreditar que a verdadeira ficção está na vida diária, nas negações que nos permitimos, nas ruivas ruivas pelas quais somos obcecados.

domingo, 7 de agosto de 2011

A mentira daqueles que não usam sinos para anunciar os seus pecados



Existe uma devoção enigmática
No perdão. Uma complexidade um tanto
Rara e incondizente em quem pratica
Hierarquizando pecadores e santos

Não menos rara é a devoção dos pecadores
Que, à certeza do perdão, repetidamente
Pecam. Pecam purificados por louvores
E pregam a prece pecaminosa: mentem

Mentem ao púlpito, ao povo, a si mesmos
Mentem. E, no auge da mentira, novamente
Mentem, santificam-se, até curam enfermos

Assim, em ritos pagãos, curandeiramente
Pecam pelos pecadores que nos tornamos
Ao ouvi-los quando mentem, mentem, mentem.