quinta-feira, 19 de julho de 2012

Entre outros quases e talvezes


Eu disse. Ela não disse. Eu disse novamente, novamente ela nada disse.

- Pare de falar por um minuto, estou tentando me concentrar, posso?
- Eu só queria um minuto.
- Vivemos juntos, não basta?
- Então foi isso que você quis dizer com aquele sim?
- Por favor, eu só quero um minuto, tem como?
- Eu também!
- O que você quer?
- Um minuto.
- Já não chega dormir, jantar, acordar junto, passar todo final de semana junto?
- Bem, os domingos na casa da tua mãe não contam.
- Por quê?
- Deixa pra lá.
- Não vou deixar pra lá, por quê?
- Deixa pra lá.
- Não vai falar?
- Já passou o minuto que te pedi.
- Por que os domingos na casa da mãe não contam?
- Deixa pra lá.
- E os domingos na casa da tua mãe, contam?
- Gosto quando os domingos são lá.
- Mas não gosta quando são com a minha mãe?
- Deixa pra lá.
- Deixa pra lá nada!
- Como foi seu dia?
- Não mude de assunto!
- Não gosto de falar da sua mãe.
- Por quê?
- Ela faz muitas perguntas, acho que você puxou a ela nesse ponto.
- Tem horas que você me emputece, sabia?
- Tem horas que me pergunto se o Até que a morte os separe estará condenado a estar sempre dividido entre perguntas e silêncios.

Não sei ao certo como a idéia de felicidade começou ao seu lado; não sei sequer se um dia essa foi uma idéia honesta, ou uma daquelas que já nasce velha, quase esquecida entre quases, talvezes e aqueles Eu não quero ficar longe de você. Não posso negar, gostava muito quando as palavras se desencontravam quando aquele sorriso discreto, quase tímido, vinha ao pensamento justamente naquele momento em que a moça da panificadora me perguntava O que mais pro senhor? Surgindo de repente, indo e vindo num pertencimento de mim que me desagradava quando, no meio de uma conversa qualquer, dizia seu nome; do que você me chamou? Desculpa, estava com o pensamento longe, dizia.

Sinceramente, esse xadrez verborrágico hoje me incomoda; a distância de tudo que antes me fazia distante em meio a tanto não saber o que pensar escurece minha vista. Cuidado com o glaucoma, já mediu a pressão dos olhos? Pergunta minha mãe sempre que passo por lá depois do trabalho; mal sabe ela que a vista escurece por vários outros motivos além das manchas na retina e outras coisas diagnosticáveis e tratáveis pela medicina. Não há exame que identifique os males provocados por disfunções sentimentais; talvez seja hereditário, não sei, mas pelo tanto que meus pais reclamam um do outro, mesmo depois de tantos outubros, distúrbios sentimentais fazem parte do histórico familiar. Contudo, eu queria poder dizer que não é culpa minha, que nem tudo sobrevive ao tempo e às outras pessoas, todas aquelas outras pessoas que reproduzem diariamente os pátios das escolas primárias, pessoas insalubres de cuja vida se extrai um chorume orgulhosamente chamado de experiência. Eu queria dizer muitas coisas, mas há sempre tantas pessoas, tantos pátios de escolas primárias, tantas respostas, tantas certezas, que o próximo minuto sempre está preenchido por perguntas ou silêncios.

domingo, 8 de julho de 2012

O Lado oposto do Caminho Intransigente


Nos meus eus me desconheço
De quando em quando, quando
Não sou. Não sou, talvez quisesse
Ser, mas não sou, e como ser
Diante de tanto não, de tanto
Tanto, de tanta coisa coisificada?

É difícil ser qualquer coisa
Qualquer coisa que seja
Qualquer coisa que fosse
Descomplicada e sorridente
Que se reconhece entre coisas
E pessoas sorridentes e descomplicadas
O sorriso dado é gratuito, mas custa caro

Tenho indagado a cada minuto
Os vários por quês de cada por quê,
Eles sempre dão a mesma resposta:
Tic tac, tic tac, tic tac, tic tac
Melancólicos tics e tacs repetitivos
Um depois do outro, inconcretos
E disciplinados, nunca mudando
De ordem na minha desordem vaga.