Eu
disse. Ela não disse. Eu disse novamente, novamente ela nada disse.
- Pare de
falar por um minuto, estou tentando me concentrar, posso?
- Eu só
queria um minuto.
- Vivemos
juntos, não basta?
- Então foi
isso que você quis dizer com aquele sim?
- Por favor,
eu só quero um minuto, tem como?
- Eu também!
- O que você
quer?
- Um minuto.
- Já não
chega dormir, jantar, acordar junto, passar todo final de semana junto?
- Bem, os
domingos na casa da tua mãe não contam.
- Por quê?
- Deixa pra
lá.
- Não vou
deixar pra lá, por quê?
- Deixa pra
lá.
- Não vai
falar?
- Já passou o
minuto que te pedi.
- Por que os
domingos na casa da mãe não contam?
- Deixa pra
lá.
- E os
domingos na casa da tua mãe, contam?
- Gosto
quando os domingos são lá.
- Mas não
gosta quando são com a minha mãe?
- Deixa pra
lá.
- Deixa pra
lá nada!
- Como foi
seu dia?
- Não mude de
assunto!
- Não gosto
de falar da sua mãe.
- Por quê?
- Ela faz
muitas perguntas, acho que você puxou a ela nesse ponto.
- Tem horas
que você me emputece, sabia?
- Tem horas
que me pergunto se o Até que a morte os separe estará condenado a estar sempre dividido entre perguntas
e silêncios.
Não
sei ao certo como a idéia de felicidade começou ao seu lado; não sei sequer se
um dia essa foi uma idéia honesta, ou uma daquelas que já nasce velha, quase
esquecida entre quases, talvezes e aqueles Eu não quero ficar longe de você. Não
posso negar, gostava muito quando as palavras se desencontravam quando aquele
sorriso discreto, quase tímido, vinha ao pensamento justamente naquele momento
em que a moça da panificadora me perguntava O que mais pro senhor? Surgindo de
repente, indo e vindo num pertencimento de mim que me desagradava quando, no
meio de uma conversa qualquer, dizia seu nome; do que você me chamou? Desculpa,
estava com o pensamento longe, dizia.
Sinceramente,
esse xadrez verborrágico hoje me incomoda; a distância de tudo que antes me
fazia distante em meio a tanto não saber o que pensar escurece minha vista.
Cuidado com o glaucoma, já mediu a pressão dos olhos? Pergunta minha mãe sempre
que passo por lá depois do trabalho; mal sabe ela que a vista escurece por
vários outros motivos além das manchas na retina e outras coisas
diagnosticáveis e tratáveis pela medicina. Não há exame que identifique os males provocados
por disfunções sentimentais; talvez seja hereditário, não sei, mas pelo tanto
que meus pais reclamam um do outro, mesmo depois de tantos outubros, distúrbios
sentimentais fazem parte do histórico familiar. Contudo, eu queria poder dizer
que não é culpa minha, que nem tudo sobrevive ao tempo e às outras pessoas, todas
aquelas outras pessoas que reproduzem diariamente os pátios das escolas primárias, pessoas
insalubres de cuja vida se extrai um chorume orgulhosamente chamado de
experiência. Eu queria dizer muitas coisas, mas há sempre tantas pessoas, tantos pátios de escolas primárias, tantas respostas, tantas certezas, que o próximo minuto sempre está preenchido
por perguntas ou silêncios.