segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O Presente e o Passageiro

Você passa por mim, mas não os vestígios de sua passagem
É um perfume que me convida a seguir seus passos
Andar por seus caminhos, acompanhar suas andanças.
É um sorriso discreto dado em pensamento
E recebido com certa timidez também pelo meu.
Deixa no ar uma lembrança de algo não vivido,
Histórias não contadas porque você passou.
Do algum lugar de onde você veio desconheço
Mesmo a existência, mas sei que existe
Afinal, não era assombração ou figura qualquer
Criada pela imaginação dos solitários.
Você não esmaeceu, apenas passou. E assim tenho certeza
Que era real, como o sentimento instantâneo
Realizado, finito e concreto, passado quando você passou.

XIII


Se vivo como escrevo
É porque escrevo a vida
Pois é ela em si seu próprio ato
Tudo mais que haja por ser dito
É decorrente desse ato primeiro.
Amor, desamor, paixão, desencanto
Coisas da vida
Alegria, distância, tristeza, regresso
Coisas da vida
Presente, passado, caos, eternidade
Coisas da vida

Canto o que vive solitário
Sem compaixão ou simpatia
Conto a gente que vive engentilhada
Sem piedade ou arrependimento
Verso o homem que trabalha duramente
E também se seu salário é caridade
Escrevo o sereno dos que guardam carros
De quem amanhece e anoitece pela rua.
A rua em seu universo sem tempo
Com suas putas viçosas – mulheres da vida
Meninos em correria – “que vai ser hoje dotô”
Os carros que passam de janelas fechadas
Os carros que param de janelas abertas
Das modernidades do mundo antigo
Às velharias do mundo moderno
Há quem me diga escritor da pobreza
A esses, repito e contraponho
São coisas da vida

E se essa vida me apresenta alguma dama
Prontamente ela já vive em meu poema
Transpira sua candura pelos versos
Em que é traduzida alva e bela
Delicada, toca piano e é poliglota
À noite, respira meu fervor suado
E ama, e odeia, ri e chora com sinceridade
Dela sinto saudade se me esquece em minha escrita
Conto também as graças dos abençoados.
Ausente de sentimento, a fé dos infelizes
E a infelicidade dos desgraçados
Reservo-me também ao brilho do ouro
Deus, Diabo, Buda, terrorismo
E tudo mais que caiba na vida

Mas, sobretudo, escrevo a beleza
A beleza das coisas da vida
Com beleza as coisas feias, as coisas podres
As coisas más, as coisas duras da vida
E tão completamente que o amargo
Fica doce quando faço com beleza
Pois ela é tudo que de belo que existe
Mesmo que a vida não seja assim tão bela
Que o fim seja certo e cause espanto
Mas o fim é coisa de quem começa
E morrer é coisa da vida.

sábado, 2 de agosto de 2008

Velho Poeta Procura


Mesmo que ela não venha, estarei aqui esperando. Esperarei enquanto as horas forem horas, e mesmo quando as horas forem dias, saberei que um dia ela vai chegar. Deixarei minha marca por todas as esquinas em que eu passar para o caso dela errar o caminho sempre saber como me encontrar. E sempre pedirei mesa para dois, pode ser que ela queira beber, pode ser que esteja com fome, pode ser que não queira nada além da minha companhia. E se no fim da noite ela não aparecer, saberei que ela esteve sozinha e se não foi ao meu encontro foi por causa da irmã que quis pintar o cabelo, ou o cachorro que precisava de um banho, ou mesmo aquele filme que ela tanto gosta passando de novo na televisão. Mas amanhã ela virá, sei que ela vira, senão depois de amanha, sei que um dia ela virá. Talvez ainda chegue atrasada. Mais cinco minutos! Não, não, dessa vez eu não perdôo. Digo mesmo sabendo que perdoarei, que não a deixarei esperando, mesmo que por ela espere a vida toda. E depois dos anos passarem, quando a idade me alcançar, anunciarei em todos os jornais:
Velho poeta de cabelos brancos e coração enrubescido procura aquela jovem senhora de outrora para viver por toda a vida. As interessadas sigam aos bares da noite, encontrarão senão sozinho um homem de olhar sereno e palavras mansas, que há de vos amar pelo que resta de todas as vossas vidas.