Se vivo como escrevo
É porque escrevo a vida
Pois é ela em si seu próprio ato
Tudo mais que haja por ser dito
É decorrente desse ato primeiro.
Amor, desamor, paixão, desencanto
Coisas da vida
Alegria, distância, tristeza, regresso
Coisas da vida
Presente, passado, caos, eternidade
Coisas da vida
Canto o que vive solitário
Sem compaixão ou simpatia
Conto a gente que vive engentilhada
Sem piedade ou arrependimento
Verso o homem que trabalha duramente
E também se seu salário é caridade
Escrevo o sereno dos que guardam carros
De quem amanhece e anoitece pela rua.
A rua em seu universo sem tempo
Com suas putas viçosas – mulheres da vida
Meninos em correria – “que vai ser hoje dotô”
Os carros que passam de janelas fechadas
Os carros que param de janelas abertas
Das modernidades do mundo antigo
Às velharias do mundo moderno
Há quem me diga escritor da pobreza
A esses, repito e contraponho
São coisas da vida
E se essa vida me apresenta alguma dama
Prontamente ela já vive em meu poema
Transpira sua candura pelos versos
Em que é traduzida alva e bela
Delicada, toca piano e é poliglota
À noite, respira meu fervor suado
E ama, e odeia, ri e chora com sinceridade
Dela sinto saudade se me esquece em minha escrita
Conto também as graças dos abençoados.
Ausente de sentimento, a fé dos infelizes
E a infelicidade dos desgraçados
Reservo-me também ao brilho do ouro
Deus, Diabo, Buda, terrorismo
E tudo mais que caiba na vida
Mas, sobretudo, escrevo a beleza
A beleza das coisas da vida
Com beleza as coisas feias, as coisas podres
As coisas más, as coisas duras da vida
E tão completamente que o amargo
Fica doce quando faço com beleza
Pois ela é tudo que de belo que existe
Mesmo que a vida não seja assim tão bela
Que o fim seja certo e cause espanto
Mas o fim é coisa de quem começa
E morrer é coisa da vida.
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