terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Possibilidades
Ela disse que vai voltar, que sempre voltará. Talvez tenha dito isso só para me agradar, talvez volte mesmo, não sei quando ou como, mas não escondo a vontade que tenho de vê-la retornando com sua lua sempre crescente resplandecendo seu rosto plácido. Temos tempo, todo o tempo do mundo. Não sei, pode ser que esse tempo não haja, que aquele um dia a gente se vê, aquela uma hora a gente se encontra nunca cheguem. Mas que importa? Melhor esperar o retorno de alguém que já esteve presente a aguardar o surgimento de alguém que nem se sabe existir. Sei muito pouco sobre a existência, na verdade não sei se a maioria das coisas em que acredito realmente existe ou existiu: Deus, Shakespeare, O Homem do Saco, mas que importa? Afinal, ninguém sabe qual é a verdadeira realidade, se por acaso você souber, guarde para si tudo que é real, já não quero saber se o sorriso dela é tão bonito quanto me parece, ou se Romeu e Julieta diz tudo aquilo que li, não me importa se Deus criou mesmo o mundo, ou se O Homem do Saco vai me pegar mesmo se eu desobedecer minha mãe, e faz tanto tempo que não a vejo, espero que o Homem do Saco não a tenha levado.
Não lembro quantos anos tinha quando me contaram que Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e a Fada dos Dentes não existiam; a vida era muito mais bela quando acreditava neles, aprontar as meias, o panetone e um copo de leite na véspera de natal, levantar da cama em uma efusividade descontrolada para procurar os ovos escondidos pela casa, jogar o dente de leite por cima do telhado para encontrar uma moeda embaixo do travesseiro no dia seguinte. O tempo não volta! Disse ela. Não espero que aqueles dias voltem, já nem lembro mais quando foram, só lembro que foram muito bons, e que se foram, como tudo que é bom. Acredito que tudo que é bom deve ir, deve-se ter aquele gosto bom na boca, uma vontade de se ter de novo, a esperança do reencontro, um sorriso silencioso quando vem aquela lembrança. Isso, ao contrário do que parece, não é saudosismo, mas certeza de se ter vivido a vida, de se ter aproveitado cada instante, que por ser irrecuperável é eterno, como todo bom sentimento.
Rezo todas as noites, ainda que não tenha certeza da existência de Deus, acredito que Ele esteja me ouvindo; tenho tantas certezas, e o que aprendi com elas foi que toda certeza é um ponto final, um não, uma desilusão. As ilusões são o que de melhor encontramos pela vida, nelas sempre haverá um talvez, um será?, uma esperança de que seja verdade; as dúvidas nunca têm fim, sempre estão dispostas a uma nova resposta, ao pensamento, à perseverança; ter certeza é perder a crença em novas possibilidades, em outras respostas que trarão novas perguntas; talvez ela só quisesse me agradar dizendo que sempre voltará, espero que volte, assim como espero que Ele ouça as minhas preces; não sei se minha mãe gostava de Shakespeare, mesmo assim nunca ousei desobedecê-la, tenho medo de que aconteça comigo o que aconteceu com Romeu. O tempo não volta! É provável, mas não preciso de mais essa certeza.
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2 comentários:
Essa é prá mim... obrigada!
Bj Bj Bj
Te amo...nunca esqueça!!
TE amo sempre!!
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