terça-feira, 31 de maio de 2011

Tratamento




Não se trata de loucura
De verdades ou mentiras
Não se trata de quando
Não se trata de onde
Não se trata de doença
Ou de uma cura desnecessária
Ainda que necessária
Não se trata de cura
Não se trata de “Por que a vida tem que ser assim?”
Nem de “Por que eu?”
Não foi “Porque não tinha que ser”
De “quando for da vontade Dele”
Não se trata disso
Não se trata daquilo
Não se trata
Simplesmente não se trata.
De inúmeras coisas se trata
Trata-se do que é essencial
De pessoas essenciais
E de toda a essência
Trata-se de construir o verbo
Inventar a vida
E destruir tudo o que não há
Trata-se de haver
De viver porque é assim que tem que ser
Porque não tem hora marcada para isso
Porque se depende de tudo isso
Independentemente
Inconscientemente
Instantaneamente
Insonemente
Trata-se
Trate-se
Trate-me


Curitiba, 25 de maio de 2009

Ela fez aniversário escondida entre coisas que escrevi há muito tempo. E de repente ela me chama naquele aroma quente que me delicia o paladar imaginário, me enche os olhos de uma saudade cristalizada e as mãos de um fervor ensurdecido. Port au Prince. 30 de maio de 2011.

sábado, 21 de maio de 2011

Vida Selvagem

Tentei, por algum tempo, levar uma vida saudável; Saudável, entenda-se aquele típico dia-a-dia inscrito em algum Manual Prático do Homem Moderno, em revistas de negócios cujas entrevistas com homens bem sucedidos sempre trazem uma fórmula para ser bom pai, bom marido, bom vizinho, bom amante e por aí vai. Tentei com Elena por dois longos anos. Caminhadas no parque aos domingos pela manhã. Milho aos pombos. Pipoca aos macacos, afinal a vida saudável era para mim, não para os outros animais. Trilhas intermináveis em florestas em que eu nunca havia estado. Acampamentos em montanhas. Verde, muito verde. Pássaros cantando o dia todo. Animais silvestres. O vento entre as árvores sussurrando palavras lúgubres de tempos passados, de tantos outros caminhantes por ali passados. Ar puro. Lugares interessantes. Paisagens interessantes. Paisagens. Paisagens. Paisagens. Não entendia direito como essas coisas funcionavam. Ainda não entendo. Andar durante horas e horas para, enfim, ver uma paisagem. Não sei se isso é senso aventureiro ou é um tipo de idéia que persiste em nossa civilização: estar em locais nunca antes desbravados, mares nunca d’antes navegados. Inocentemente descobrir novas terras, novas coisas, povos selvagens, espécimes desconhecidos, animais exóticos, como se nunca ninguém os tivesse visto, como se nunca ninguém houvesse pisado naquele lugar. Mania desse povo de se achar europeu. Pelo menos descobri porque Elena tinha pernas tão torneadas. Belas pernas. Bundinha firme como se tivesse vinte anos. Delícia. Lugares interessantes. Paisagens interessantes. O sexo na floresta era algo definitivamente quente. Apesar dos moquitos detonando minha bunda o tempo todo, das formigas nas minhas calças e cuecas e do medo de que uma cobra me picasse, era muito quente, mesmo quando chovia. Às vezes ficávamos na barraca. Quietinhos para ninguém ouvir, mas ninguém ligava. Seus amigos eram um bando de maconheiros. Conversávamos ao redor da fogueira ao final do dia, e sempre tinha um filho da puta que enrolava um baseado e passava de mão em mão. Se me oferecer essa merda faço você engolir isso aceso! Já fiz muito disso. Detesto essa gente: Maconha não faz mal. Devia ser legalizada. Sim, na puta que te pariu.
Mas não foi isso que me fez largar a Elena. Gostava dela. Belas pernas. Toda em cima. Delicada. Cuidava de mim. Segundo os manuais, os maconheiros faziam parte de Um grupo de seções necessárias para que o relacionamento saudável do casal seja mantido. Homens e mulheres são diferentes por natureza, e mesmo que você esteja em um relacionamento homossexual, seu parceiro te completa, é a outra metade, mas lembre: ele não é você! Por isso, caro leitor, entenda que ceder é necessário para a manutenção da sua vida conjugal em um patamar estável, sem dificuldades maiores que a vida a dois já é capaz de proporcionar. Não dá para aturar esse tipo conselho. Minha vida com ela estava me matando. Jornais de domingo são um saco, cheios dessas balelas escritas por viadinhos infelizes e solteironas carentes. Não fosse por pequenos detalhes como Mesmo que você esteja em um relacionamento homossexual, as seções Viva Melhor, Viver Bem, Qualité e tantas outras carregadas dessas estórias seriam cartilhas católicas para o bom comportamento matrimonial. Não éramos casados legalmente, muito menos na Igreja. Eu cedi enquanto pude, mas não aguentei as explicações sobre o que eu queria dizer nos meus poemas e como ela se sentiu ofendida com aquele conto, se viu na personagem. Você não precisa parar de fumar, apenas fume menos, eu ouvia. Você não precisa parar de falar, apenas fale menos, pensava. É mais fácil largar um vício do que fazer uma mulher falar menos. Eu podia suportar isso, afinal, alguma razão deve haver para eu não ter nascido surdo. O verdadeiro problema era a floresta. Era legal andar no mato, transar no mato, cagar no mato. Insultar maconheiros durante seu contato amplificado com a natureza. Aquilo não era para mim. A minha floresta é cinza e poluída. A minha natureza é urbana com sirenes de Polícia e ambulâncias rompendo o silêncio imaginário de madrugada Curitibana. Estampidos. Buzinas. Marido e mulher quebrando o pau no apartamento da frente. Móveis sendo quebrados. Crianças chorando. Ônibus lotado. Terminais lotados. Minha vida selvagem era uma luta contra o caos cotidiano. Uma busca pelo silêncio onde ele era mais raro, por isso precioso. Antes de mudar para a casa dela, meu acampamento era no terceiro andar de um edifício antigo no subúrbio. Eu tinha o que eu precisava. Não faltavam animais silvestres na minha floresta. Eu era um bom vizinho, só não queria ser incomodado. Respeitava os répteis no estacionamento, os porcos no supermercado e os primatas nos elevadores. Uma vez ofereci pipoca, mas Minha mãe me falou para não aceitar nada de estranhos. Eu conhecia aquela menina desde que nasceu, agora eu era estranho. Talvez sempre tenha sido. Tentei não ser, ou pelo menos não parecer estranho de acordo com os manuais.
Foram dois anos com Elena. Adorava dormir abraçado as suas pernas. Sabia que seria difícil. Treinei antes de morarmos juntos. Ia à igreja aos domingos para me sentir um pouco mais religioso; homem sério; homem de família; homem de responsabilidades. Assim estava escrito, assim deveria ser. Fomos algumas vezes juntos depois. Porra, u ma cho ra dei ra do ca ra lho. Que gente é essa que chora ao invés de rezar? Parecia mais a remorso, arrependimento, que qualquer tipo de meditação ou devoção a um ser superior. Demonstrações dominicais de egoísmo santificado. Não adiantava trocar de igreja ou de bandeira. Só mudava o cheiro. Nas igrejas dos chiques os padres e pastores dos ricos queimavam incenso para os fiéis não perceberem a própria podridão. Pelo menos nas igrejas do subúrbio os sofrimentos pelos quais choravam eram mais honestos, se é que há honestidade ao chorar pelo sofrimento quando nada se faz para resolvê-lo, senão esperar a intervenção divina. Pelo menos Elena não era dessas. Foi bom voltar para minha barraca no terceiro andar da floresta cinza, sonorizada e poluída. Às vezes sinto falta da Elena. Carinhosa. Pernas adoráveis. Paciente. Tinha o tamanho certo para meu desejo. E o que falar do café que ela fazia? Ah, que café! Sinto mesmo falta daquele café.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Pandora

E de repente acordamos com severos sintomas alcoólicos. A luz açoitando os olhos, a cabeça pesada, os pulmões constrangidos, a língua enrugada castigando o céu da boca. Mas não foi álcool, não dessa vez. Parecia real, mais real que essa sequência insonte de dia-tarde-noite, dia-tarde-noite, dia-tarde-noite, dia-tarde-noite que as pobras almas gorurosas insistem em chamar de realidade. Precisava de um trago todas as noites antes de dormir. Longe de ser um vício, ou remédio para uma mente viciada em solidão, era um analgésico para as atormentações da vida real.


Ela não fala a minha língua. Mesmo que falasse, não entenderia. As mulheres não entendem; por vezes, se obrigam a não entender para que a vida seja mais amena. Não falo de mulheres ignorantes, a ignorância não tem gênero, embora tenha muito mais sexo que a inteligência. Pessoas inteligentes gostam tanto de sexo quanto as ignorantes, mas, para essas, o sexo é a única coisa que lhes dá prazer. Não posso negar, naquela noite tive muito sexo; se trepar fosse esporte, ela seria medalhista. Ela merecia uma medalha, de fato, ainda que não fale a minha língua. Não estávamos competindo. Eu perderia. Que fôlego! Não sou do tipo que vira para o lado e dorme depois de uma boa metida. Tive que me esforçar. Ou virava para o lado e fingia dormir, ou passava a noite inteira tentando, tentando, tentando, tentando, tentando; claro, chega uma hora que a moral já não está tão alta, ainda mais perto dos trinta. Melhor parar que fazer feio, essa é minha política. Vide-se Pelé, parou no auge. O que dizer de nosso hermano? A persistência é o dom mais desgraçadodos fracassados.. não há um só gênio que não tenha persistido, mas eles eram geniais em sua persistência. Não sou gênio, para que insistir? Tenho pouca paciência, pavil curto, e ainda tinha que trabalhar no outro dia.


Forçosamente, virei para o lado e fingi dormir. Também não insisti muito nessa empreitada. Sou preguiçoso demais para lutar contra o sono. Foi arrepiante. Parecia real. Era real. Acho que foi o efeito da conversa. Ela não fala minha língua. Contar dos fantasmas que moram no meu guarda roupa foi demais para mim; estava nu sem a superficialidade que a Língua-Mãe nos permite sem parecermos falsos ou ignorantes, cujo único prazer na vida é o sexo, e talvez um cigarro silencioso durante o pós-operatório. Pensei que ela tinha morrido depois que os outros fantasmas (maiores e mais fortes) tinham invadido meu guarda roupas; ela estava lá, com seu Alô, alongado, desafinado e distante, como se estivesse dormindo, Pois é, eu estava. Desculpa, às vezes ainda me perco no fuso-horário. Foi foda. Esse tipo de contato com o além é sempre muito foda. Minha tia costumava me levar a terreiros de Umbanda para receber passes das entidades Tabagistas; não houve uma só vez que ão ficasse assustado. Porra, minha tia era louca, sem exagero. Uma bomba relógio psicopata de 54 anos com relógio zerado. Só não explodia por causa dos psicotrópicos do terreiro e dos anti depressivos. Devo confessar, a trilha sonora era nervosa; a batucada revelava um sangue mais negro que a melanina 50% que me cobria. Anos depois, num pagode na praia, encontrei uma nega que curtia essa onda Afro, Já paguei o que tinha que pagar. Sabia que são sete anos para terminar os trabalhos? Já paguei, mas quando rola um batuque desse meu pai me chama, às vezes dá uma recaída. Não estranhe se eu falar diferente contigo, quando ele vem, dizem que viro os olhos, falo línguas, minha voz engrossa. Não sei se foi a cerveja ou a fumaça, ou se minha mente é divertidamente poluída mesmo, mas fiquei excitado. A nega era das boas, de cortar quebrante no meio da lua minguante. Meu primeiro tesão cinematográfico foi assistindo O Exorcista. Acho que foi nessa época que meu sadismo floresceu. Aquela menina amarrada na cama, mexendo feito doida, dizendo Me bate, Me Bate, Me Bate, e o padrelouco para estufar a calcinha da possuída virou minha cabeça; e por falar nisso, tava doido para ver a nega girando a cabeça como no filme, mas não rolou. Não foi nada demais. Digo, foi normal, até reclamou dos meus tapas.


Agora já me acostumei às linguas estranhas, não teria mais graça. Meu exílio no estrangeiro autenticou a estranheza humana, em especial a feminina. Papito, Papito, Dá-me tu leche! Hard, daddy, Hard! O problema é que meus fantasmas são silenciosos. Permanecem lá, parados no meu armário. Caem junto com o colete com gola de peles esquecido (ou deixado?) que imaginariamente ainda guarda seu perfume. Se desdobra no par de bilhete de cinema, esquecidos no bolso. Nossa, faz mais de um ano que não lavo essa calça! Visto meus fantasmas na camisa que ela me deu, no boné que ela detestava, no amarelo das unhas que denunciou o cigarro, Você disse que tinha parado! Por isso, aquele Alô alongado me derrubou. Os fantasmas escorregaram do guarda roupas, cabiam agora na mala de viagem; Eu abri a mala. O fuso horário fou uma desculpa para quebrar a mudez recíproca, mas a língua empalideceu antes da próxima sentença. Ficamos mudos como antes. Detesto admitir, mas seu silêncio é minha língua materna.