sábado, 21 de maio de 2011

Vida Selvagem

Tentei, por algum tempo, levar uma vida saudável; Saudável, entenda-se aquele típico dia-a-dia inscrito em algum Manual Prático do Homem Moderno, em revistas de negócios cujas entrevistas com homens bem sucedidos sempre trazem uma fórmula para ser bom pai, bom marido, bom vizinho, bom amante e por aí vai. Tentei com Elena por dois longos anos. Caminhadas no parque aos domingos pela manhã. Milho aos pombos. Pipoca aos macacos, afinal a vida saudável era para mim, não para os outros animais. Trilhas intermináveis em florestas em que eu nunca havia estado. Acampamentos em montanhas. Verde, muito verde. Pássaros cantando o dia todo. Animais silvestres. O vento entre as árvores sussurrando palavras lúgubres de tempos passados, de tantos outros caminhantes por ali passados. Ar puro. Lugares interessantes. Paisagens interessantes. Paisagens. Paisagens. Paisagens. Não entendia direito como essas coisas funcionavam. Ainda não entendo. Andar durante horas e horas para, enfim, ver uma paisagem. Não sei se isso é senso aventureiro ou é um tipo de idéia que persiste em nossa civilização: estar em locais nunca antes desbravados, mares nunca d’antes navegados. Inocentemente descobrir novas terras, novas coisas, povos selvagens, espécimes desconhecidos, animais exóticos, como se nunca ninguém os tivesse visto, como se nunca ninguém houvesse pisado naquele lugar. Mania desse povo de se achar europeu. Pelo menos descobri porque Elena tinha pernas tão torneadas. Belas pernas. Bundinha firme como se tivesse vinte anos. Delícia. Lugares interessantes. Paisagens interessantes. O sexo na floresta era algo definitivamente quente. Apesar dos moquitos detonando minha bunda o tempo todo, das formigas nas minhas calças e cuecas e do medo de que uma cobra me picasse, era muito quente, mesmo quando chovia. Às vezes ficávamos na barraca. Quietinhos para ninguém ouvir, mas ninguém ligava. Seus amigos eram um bando de maconheiros. Conversávamos ao redor da fogueira ao final do dia, e sempre tinha um filho da puta que enrolava um baseado e passava de mão em mão. Se me oferecer essa merda faço você engolir isso aceso! Já fiz muito disso. Detesto essa gente: Maconha não faz mal. Devia ser legalizada. Sim, na puta que te pariu.
Mas não foi isso que me fez largar a Elena. Gostava dela. Belas pernas. Toda em cima. Delicada. Cuidava de mim. Segundo os manuais, os maconheiros faziam parte de Um grupo de seções necessárias para que o relacionamento saudável do casal seja mantido. Homens e mulheres são diferentes por natureza, e mesmo que você esteja em um relacionamento homossexual, seu parceiro te completa, é a outra metade, mas lembre: ele não é você! Por isso, caro leitor, entenda que ceder é necessário para a manutenção da sua vida conjugal em um patamar estável, sem dificuldades maiores que a vida a dois já é capaz de proporcionar. Não dá para aturar esse tipo conselho. Minha vida com ela estava me matando. Jornais de domingo são um saco, cheios dessas balelas escritas por viadinhos infelizes e solteironas carentes. Não fosse por pequenos detalhes como Mesmo que você esteja em um relacionamento homossexual, as seções Viva Melhor, Viver Bem, Qualité e tantas outras carregadas dessas estórias seriam cartilhas católicas para o bom comportamento matrimonial. Não éramos casados legalmente, muito menos na Igreja. Eu cedi enquanto pude, mas não aguentei as explicações sobre o que eu queria dizer nos meus poemas e como ela se sentiu ofendida com aquele conto, se viu na personagem. Você não precisa parar de fumar, apenas fume menos, eu ouvia. Você não precisa parar de falar, apenas fale menos, pensava. É mais fácil largar um vício do que fazer uma mulher falar menos. Eu podia suportar isso, afinal, alguma razão deve haver para eu não ter nascido surdo. O verdadeiro problema era a floresta. Era legal andar no mato, transar no mato, cagar no mato. Insultar maconheiros durante seu contato amplificado com a natureza. Aquilo não era para mim. A minha floresta é cinza e poluída. A minha natureza é urbana com sirenes de Polícia e ambulâncias rompendo o silêncio imaginário de madrugada Curitibana. Estampidos. Buzinas. Marido e mulher quebrando o pau no apartamento da frente. Móveis sendo quebrados. Crianças chorando. Ônibus lotado. Terminais lotados. Minha vida selvagem era uma luta contra o caos cotidiano. Uma busca pelo silêncio onde ele era mais raro, por isso precioso. Antes de mudar para a casa dela, meu acampamento era no terceiro andar de um edifício antigo no subúrbio. Eu tinha o que eu precisava. Não faltavam animais silvestres na minha floresta. Eu era um bom vizinho, só não queria ser incomodado. Respeitava os répteis no estacionamento, os porcos no supermercado e os primatas nos elevadores. Uma vez ofereci pipoca, mas Minha mãe me falou para não aceitar nada de estranhos. Eu conhecia aquela menina desde que nasceu, agora eu era estranho. Talvez sempre tenha sido. Tentei não ser, ou pelo menos não parecer estranho de acordo com os manuais.
Foram dois anos com Elena. Adorava dormir abraçado as suas pernas. Sabia que seria difícil. Treinei antes de morarmos juntos. Ia à igreja aos domingos para me sentir um pouco mais religioso; homem sério; homem de família; homem de responsabilidades. Assim estava escrito, assim deveria ser. Fomos algumas vezes juntos depois. Porra, u ma cho ra dei ra do ca ra lho. Que gente é essa que chora ao invés de rezar? Parecia mais a remorso, arrependimento, que qualquer tipo de meditação ou devoção a um ser superior. Demonstrações dominicais de egoísmo santificado. Não adiantava trocar de igreja ou de bandeira. Só mudava o cheiro. Nas igrejas dos chiques os padres e pastores dos ricos queimavam incenso para os fiéis não perceberem a própria podridão. Pelo menos nas igrejas do subúrbio os sofrimentos pelos quais choravam eram mais honestos, se é que há honestidade ao chorar pelo sofrimento quando nada se faz para resolvê-lo, senão esperar a intervenção divina. Pelo menos Elena não era dessas. Foi bom voltar para minha barraca no terceiro andar da floresta cinza, sonorizada e poluída. Às vezes sinto falta da Elena. Carinhosa. Pernas adoráveis. Paciente. Tinha o tamanho certo para meu desejo. E o que falar do café que ela fazia? Ah, que café! Sinto mesmo falta daquele café.

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