Ela não tinha me visto. Não tinha como ter me visto ali, parado do outro lado da rua. Por isso, quando virou os olhos para mim, e me viu observando as marcas do tempo que passou, ficou estática. Havia tempo que não nos encontrávamos, mesmo que por acaso. A última vez foi quando numa dessas caminhadas noturnas à procura de um bar qualquer para tomar uma ou duas doses antes de caminhar de novo e dormir, a vi saindo de um lugar não muito familiar. Ela não costumava ir àquele tipo de ambiente. Como há pouco, ela não me viu parado do outro lado da rua. Entrou no carro com dois homens e uma mulher. Entendi o que se passava. Era um carro barato, de vidros escuros. Talvez tenha me visto ao partir, mas seu ânimo, seu sorriso etéreo e aquela falseada do salto ao andar por calçadas irregulares, comuns às mulheres que tentam disfarçar os efeitos da bebida, não me iludiram. Não creio que tenha me visto. Se me viu, fingiu-me desconhecido. Não posso dizer que não me importei. Voltei para casa sóbrio, deitei-me sóbrio, como há muito tempo não fazia. Perdi o sono, não sei se por causa do álcool que me faltou, ou se por causa da idéia, aquela maldita idéia fixa, aquela que matou Brás Cubas.
Nunca fui dos mais ciumentos. Aprendi a ser com o tempo e com pessoas como ela. Por isso, quando a vi, fiquei parado. Pensei nos inúmeros passos cambaleantes, nos tantos sorrisos embriagados e sem sentido, nos inúmeros carros baratos de vidros escuros em que havia entrado. Esses carros, passos e sorrisos a haviam feito perder o brilho nos cabelos. É certo que os produtos químicos e os tratamentos para alisamento também tinham sua parcela de culpa. Estava de cabelos lisos. Desde aquela época tinha uma espécie de pavor do próprio aspecto, dos cabelos ondulados, das raízes negras que lhe acompanhavam no nariz, nos olhos e naquele andar compassado, pisado duro, na sua maneira de esbravejar quando eu chegava meio tonto em casa "Foi só uma cerveja depois do trabalho", não adiantava, nunca adiantou. Não há produtos, tratamentos ou pílulas contra o tempo passado na amargura. Não sou daqueles que se importa muito com isso; aceitei o tempo que passou como o gado que aceita o ferro quente no seu lombo, deixando-se marcado na pele, mostrando-se propriedade daquele que lhe dá diariamente um bocado de pasto. O tempo é meu pastor, ele me alimenta e me marca com seu ferro quente. Não me envergonho com suas marcas estampadas no meu rosto, no meu corpo, no meu coração, nem mesmo nessas palavras, pois é o tempo que me traz o verbo e o pensamento.
Há mulheres que marcam a vida de um homem. Sei que, de alguma forma, marquei também a vida dela. Caso contrário, ela não teria ficado parada me olhando, me esperando atravessar a rua, talvez, como ela fez na morte do meu pai. Éramos muito ligados, ela sabia disso. Por isso foi ao seu velório. Não sei quem lhe contou, creio que uma das minhas irmãs. Mesmo depois de pararmos de nos falar, elas continuavam se falando. Falavam sobre mim, sei que falavam. Todas as vezes que nos víamos, minhas irmãs falavam sobre ela. Há entre as mulheres um tipo raro de conexão capaz de fazer o homem sofrer à distância. Sofri naquele dia. Ele foi um dos poucos amigos que tive na vida. Ela me abraçou. Fingiu um choro seco, creio que para me confortar. Permaneceu durante 35 minutos, me beijou a testa e partiu. Não esteve no enterro no dia seguinte. Aquele beijo ainda arde na lembrança, não sei se pela falsidade do choro, ou se pela saudade que me falseia. Ela não gostava do meu pai, detestava aquele jeito fanfarrão, de fala alta e um tanto bronco. Não queria que eu me desse aos vícios e aos jogos como ele. Ficava louca quando sentia no meu hálito o menor vestígio de álcool. Afastei-me de alguns amigos, mudei minhas rotinas, meus hábitos, abandonei manias e virtudes para lhe agradar. Mulheres. Nada basta. Você não liga mais para mim! Você não se importa com o que eu sinto! Você vai ver, vai ficar sozinho igual ao teu pai! Você não muda mesmo! E por aí vai, até que não vai mais, Chega! Para mim chega! Estou cansada disso tudo!
Eu já estava cansado, o cansaço daquela vida já havia me consumido. Sua profecia acabou se concretizando: os amigos que abandonei por causa dela também me abandonaram. Provavelmente por causa de alguma esposa neurótica que via em mim uma má influência. Mulheres. Elas são assim mesmo. Ela acertou, exceto pelo tipo de jogo a que me entrego. O que para meu pai eram cartas, para mim são palavras. Um ônibus passou, mas depois de passar, ela não desapareceu, como nos filmes. Eu não estava delirando. Não tinha bebido naquele dia. Era cedo, embora nunca seja cedo demais para uma boa dose de gin. Continuamos nos olhando. Ela virou o rosto como quem procura no vazio uma razão para esquecer o presente. Eu era o presente e ela tentou me esquecer no vazio. Fiquei parado. Ela seguiu andando. Passos firmes. Sozinha. Não sorriu. Não entrou em nenhum carro barato de vidros escuros.
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