Pai,
Tende piedade das mulheres apaixonadas
Porque as mulheres apaixonadas tem um querer
Um querer bem, um querer bem
um querer assim, apaixonado
Que quer que por elas se apaixonem
E casem
E sofram
E que comprem uma cozinha nova
Porque querem
Pai
Dá-me a esperança de que uma cozinha nova
Não seja o temeroso fim, pois sei que o fim
É coisa de quem começa, mas pai, te confesso
Essa cozinha não presta e esse fim nunca chega,
Acho que isso é um sinal de que comecei a ser
Adulto.
Adulto? O que isso quer dizer? Felicidade? Não sei.
Me ensina pai, ainda sou a mesma criança
Mesmo sendo adulto e fazendo tantas crianças
Que precisam de mães, que querem cozinhas,
Mesmo não cabendo tanto filho nesse mundo,
Mas sempre mais um neto no teu coração
Pai
Peço que escute minha oração
Embora saiba que seja de tantos filhos
Fruto de um nunca furto de tantos prazeres
Prazer não maior do que tenho ao saber
Que no fruto do meu pecado há um sorriso.
Enorme. Simplesmente porque um dia
Um homem e uma mulher pecaram
E se deliciaram com o pecado múltiplo,
Comum.
Contínuo.
Itinerante.
Vociverado em clamores que
um dia
Inevitavelmente
Inquietamente
Choradamente
Insistirão em dizer adeus.
Mas, Pai,
Tende piedade das mulheres que insistem
Das mulheres que nos querem e das mulheres
Que queremos. Tende piedade das mulheres
Que nos querem, e que insistem em nos querer.
Tende piedade porque mal sabem elas.
Mal elas sabem pai, que mal somos o que querem
Que não somos
Que não querem.
Tende piedade das mulheres que não sabem
E que nos querem, Pai, por não saber.
Não sabem o que somos
Não sabem o que queremos
Não sabem sequer o que querem.
Saudades das mulheres que não sabem o que querem, Pai,
Me deram tanto prazer.
E só as que não sabem são capazes,
Pois há tanta mulher sabendo tudo o que quer
Que já não quero saber o que quem quer o quê,
Tanto que chego a sentir diariamente saudades
Daquela mulher que sentia saudades
De uma maneira melancólica
Saudavelmente triste
Tão saudavelmente triste
Que chega a me dar saudade da tua saudade.
