Olha-me o homem por detrás do espelho
Olha-me desconhecido, num reflexo do eu
Que vive nele como lembrança à procura
De um passado. Sou estranho à imagem
Sem memória e não sei se sou figura
Ou sou palavra, se sou esse ou sou aquele
Olho sem saber se sou, como fosse ninguém
Não sei, ainda que me hesite a sombra de um pensamento
Uma resposta talvez me encontre quando questiono
Esses muitos ninguém que desconheço:
O que há por se sobrar no olhar do tempo?
Serei eu, serei retrato, serei ninguém
Sem barba, sem bigode, sem palavra?
E descubro que a dúvida me envelheceu a alma
Para que tanta pergunta, meu Deus?
É bem mais fácil aceitar o que me dizem
Diariamente me transformo de maneiras
Facilmente explicáveis pela medicina, psicologia
E outras tantas ciências que de nada servem
Senão para confortar quem não suporta a dúvida
E carece de um porquê para existir humanamente
Ainda assim, sobra a imagem, o eu e o ninguém
Para que tanta resposta, meu Deus?
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