sábado, 7 de março de 2026

Sobre como o esquecimento me faz lembrar (dela)


Para Val,
She’s a Saturday Night Special
The Runnaways


Era tanto nada demais e tanto nada, que já me acostumava com a ideia de não ser nada demais quando ela chegava mais tarde do trabalho. Não sei quantas vezes já fiz isso pelo simples desejo de não voltar para casa. Primeiro era trabalho. Depois eram conversas com colegas que tinham, de fato, coisas a fazer depois do horário. De repente, me peguei jogando paciência no computador depois de ter batido o ponto, lendo notícias sobre pseudo famosos, mercado da bola e até mesmo política. Foi assim que em 2024 fiquei sabendo do Maurinho do Itaiacoca como candidato a vereador. A bem da verdade, até hoje não sei quem é esse cara, não sei que cara que tem; é o tipo de pessoa que passa desconhecida por mim na rua, sem sequer ser percebida. Entretanto, Maurinho recebeu meu voto.

Em eleições municipais todo mundo conhece alguém que é candidato. Eu não conhecia Maurinho, contudo não faltavam convites para churrascos e cervejadas bancadas por algum conhecido, ou conhecido de algum conhecido pedindo voto. Churrasco, entenda-se, pão com linguiça e cerveja vagabunda. Na real, a maioria não passa de uns caras quebrados tentando encampar na política para se dar bem em alguma coisa e tirar uma grana por fora; discurso nenhum, nem aqueles em que já estava de cara cheia, me fez acreditar que qualquer um deles estivesse realmente interessado em participar da vida comunitária, de devotar sua vida e seu tempo à causa pública, tampouco preocupado com a população de qualquer um dos bairros por onde tenha passado distribuindo panfletos e abraços. O que esses candidatos representavam era claramente retratado no dia seguinte quando eu acordava ao lado dela, com uma puta dor de cabeça de tanto encher a cara com cerveja barata, e azia por causa daquela linguiça que nem cachorro come se não estiver bêbado. Não posso negar que era uma estratégia para ficar na minha cabeça no dia seguinte, seja na dor, no hálito ou na ressaca moral que sobrevém à bebedeira, seja no arroto ácido que me queimava a garganta de hora em hora. Os tempos de eleição eram sempre os que eu tinha mais justificativa para chegar mais tarde em casa. Maurinho, contudo, nunca me pagou uma cerveja para ganhar meu voto. Já eram quase sete da noite e eu vagava por algum portal que dizia qualquer coisa como Conheça o seu candidato. Nem os que se diziam meus amigos cheguei a conhecer de verdade. Deparei-me, então, com Maurinho do Itaiacoca e ao lado do nome uma foto em preto e branco em que mal se podia reconhecer aquele vivente, mas seu nome carregava uma identidade, uma marca, uma noção de pertencimento que me fez acreditar que, de alguma forma, o pessoal do Itaiacoca estaria representado. Não que faça diferença para você, mas Itaiacoca é meio que um vilarejo longe pra caralho, na área rural, fora do alcance da civilização de Ponta Grossa, se é que se pode chamar aquilo de civilização. É obvio que não faz diferença para você, e provavelmente você sequer sabia que existia um lugar chamado Ponta Grossa, que tem uma zona rural cheia de chácaras, e paisagens corriqueiras por onde ciclistas se amontoam aos finais de semana, mais ou menos como se fosse a praia do fim do mundo. Um pouco depois de tudo isso, vem Itaiacoca, e de lá vem o Maurinho, a quem, de tanto repetir o nome, estou quase ficando íntimo. E não seria estranho, caso eu tivesse o hábito de pedalar, e parasse na porteira de sua chácara, chamando-o de Oi, vizinho, e lhe pedisse água; por certo ele me serviria de bom grado, também me chamando de vizinho, como se alguém fosse vizinho de alguém lá tão distante; assim, eu beberia de sua água e de sua palavra hospitaleira, nos despedíssemos e, saindo dali, eu não saberia que se tratava do Maurinho, nem ele que eu fui uma das dezesseis pessoas que votaram nele aquele ano.

Semana passada contudo, precisei ficar até mais tarde; mandei mensagem avisando, mas cheguei em casa me explicando que Valmor teve que ir para Santa Catarina cuidar da mãe adoentada e que ficou para mim a função de fechar o faturamento da empresa aquele mês. Ah, tá bom, trouxe o leite? Eu não tinha esquecido o leite. Eu sequer sabia que era para trazer o leite. Chequei minhas mensagens e não havia mensagem de resposta ao meu aviso de que chegaria mais tarde, tampouco uma pedindo leite ou qualquer outra coisa que fosse. Havia semanas que não trocávamos mensagens, e quando isso acontecia era sobre qualquer coisa como levar o leite, pão, margarina e um pouco de queijo. Basicamente, nosso relacionamento se resumia a itens encontrados em uma padaria no caminho de casa. Esqueci, mas já trago, eu disse. Ela sabe que eu sei que ela sempre toma café com leite de manhã, só de manhã, no resto do dia ela toma café puro e sem açúcar. Eu não perguntei o motivo dela mesma não ter comprado a porra do leite. Só desci as escadas e fui à padaria.

Depois de tanta bebedeira, a manhã seguinte me marcou como a primeira ressaca de leite. Uma ressaca moral, avassaladora, acompanhada de um arroto ainda mais ácido queimando a garganta. Eu não esqueci o leite, eu deixei o tempo passar de um jeito lacerante, que me fez deixar de levar o café com leite para ela na cama, depois que já não era mais na cama, de misturar o café e o leite na pia da cozinha, perante a cafeteira. Depois eu esqueci o leite e, com ele, esqueci toda uma história que não me fazia ficar até mais tarde no trabalho e conhecer gente como o Maurinho. Essa ressaca me durou por dias, e não sei se me posso dizer totalmente curado. A reabilitação é um processo lento. Primeiro, você precisa se desintoxicar. É foda ficar longe desse nada que te deixa suspenso na própria vida e na vida alheia, tornando-se quase um objeto decorativo ao outro, a quem sequer se lembra de não ter pedido algo que nem deveria ser pedido. Posso dizer com sinceridade que estou na abstinência desse nada, e que fugir de sua dependência é causticante.

No começo foi difícil. Não eram gestos necessariamente naturais os de abrir a geladeira e balançar a caixinha para ver se precisava comprar outra. Às vezes, quando chegava antes dela, abria a geladeira e só então me dava conta de que tinha acabado e, mais uma vez, eu tinha esquecido. Numa dessas vezes, eu descia as escadas apressadamente e, passando por ela sem a perceber, fui perguntado Vai aonde? a que respondi automaticamente Esqueci o leite. Ela sorriu sem entender. Acho que já fazia muito tempo que não a via sorrir assim, sem entender direito o motivo, mas saber que fosse o motivo que fosse, era por causa dela, afinal, eu nem tomo leite. Ainda não voltei a levar o café na cama para ela, mas já não preciso lembrar de coisas como o leite, nem de mandar mensagem quando ela demora a chegar; por vezes, antes disso ela me manda antes mesmo que eu me preocupe, me manda foto do engarrafamento e diz estar cheia desse trânsito de Curitiba. Eu duvido que ela já tenha passado por Itaiacoca, muito menos que quisesse morar lá, onde não tem trânsito algum, mas não é do engarrafamento que ela está reclamando. Acho até que nem é reclamação. De pouco em pouco, nossa história está saindo da padaria.

 

 

Curitiba,7 de março de 2026

terça-feira, 3 de março de 2026

Apesar do Pesar de Amar a Si

 

Apesar de tanto apesar a pesar
E pesar tanto esse tanto pesar
De se viver e morrer e lutar,
Viver é lutar, amar e sonhar.
 
E se te desdisserem, esteja certo
Que tal amargo o coração deserto
Desertado foi de um amor discreto
E agora já fechado, outrora aberto
 
E a esse fechamento não há outra cura:
Querer-se se ver salvo da amargura
E amar a si mesmo em forma pura.
 
E assim, de tanto o pesar, o sofrer,
No amor de si, em si se perecer
Viver será mais que sobreviver.

  

Ponta Grossa, 3 de março de 2026.

domingo, 1 de março de 2026

Rudimentos de um sobrevivente

 

"Que venham as Valquirias, cavalgando pelos céus da minha coragem, trazendo a certeza de que a batalha não foi em vão."— Hugo Kem.

 

Sigo com quem segue rudemente

O rudimento básico da vida ao ser vivente.

Rudimentar nos gestos, hábitos e lida,

Às vezes sofrida ao ser sobrevivente.

Nunca amargurado, embora, às vezes,

Amargamente vivo o que há por ser vivido

Sofro o que há por ser sofrido

Jamais como dor inexistente,

Pois sofrimento é também vida latente.

Meu sofrimento não me torna indiferente

Às belezas vívidas vividas, vistas, lidas, ouvidas.

A indiferença impede que se viva uma vida comovente.

Da lágrima do riso, ao sorriso irônico,

Tudo é parte de algo

que faz parte de um tudo

Eternamente.

Delirante, emocionante,

Vociferadamente afônico,

Contrariando os próprios horrores

Sigo assim: descaradamente.

Sobrevivência #1

 

Em dias como hoje, me sinto um pouco mais louco que o de costume. Não que a loucura me pareça estranha, tampouco um benefício, ou algo de que se possa ter orgulho. Pelo contrário, vejo simplesmente como parte de mim, algo que me compõe e me completa, essa volta a mais ou a menos em qualquer parafuso que encaixe o real e o imaginário diz mais sobre mim do que eu geralmente digo; talvez porque o silêncio faça parte desse traço; talvez porque a compreensão é um dom angustiante que me foi dado em mão única, perecendo quando falo, se perdendo ao ser ouvido, fazendo com que eu me perca entre a fala e o pensamento, entre o dito e o entendido, entre a voz e a solitude, às vezes inóspita que acompanha o vácuo vernacular.

Nem por isso ignoro os tratamentos. Os cuidados terapêuticos encerram diariamente um processo de redescobrimento. Carente de uma terapia própria que se dedique a esse estigma de se saber e se aceitar em sua loucura, me faço errar entre sessões semanais de autoflagelação assistida e doses repetitivas que iniciam e terminam todos os dias me lembrando da necessidade química de controlar as vozes que contenho em minha mente, que assassino em minha boca. Não ouço vozes aleatoriamente, apenas as de pessoas reais, exceto eu. Embora real, ouvir minhas próprias vozes implica em certa dor, nem sempre minha. É como a espada embainhada; não importa o quão afiada e mortal ela possa ser, depois que passa pela vagina de sua bainha não fere, não corta, não causa mal a ninguém. Por vezes, é até decorativa. E, assim, por certo, serve o tratamento para esse tipo de loucura daqueles que se sabem e se aceitam e, por que não, a ela se dedicam. Calando o corte, contendo a morte, contando a sorte em dias sem vozes, sem lágrimas, nem goles. Sofrer assim é não saber sofrer.

Não que eu sinta muita falta da embriaguez. Ela sim, desembainhava o sofrimento. Usá-la sem moderação foi um aprendizado. Aprendi a sofrer e a fazer sofrer desnecessariamente. Doer em dor alheia também dói a quem sabe sentir. Sente-se dor, sente-se amor, sente-se um pouco de tudo que não dá prazer até se ficar entorpecido. Nessas horas a lucidez consome a própria razão e, mesmo sem razão, parece lógico um trago, um gole, um afago, sempre com o mesmo pressentimento do arrependimento a ser sentido, mas não haveria motivo para se sentir arrependido sem se saber culpado. Eis a trágica sanidade da loucura verossímil. Tudo parece certo à medida em que acontece. Tudo é obviamente necessário, exceto os excessos, esses são automáticos como o projétil depois do disparo.

Olhando assim, é difícil me sentir sobrevivente ao invés de um mero vivente. Sobreviver é viver, sobretudo, sobre tudo, não importando o que sobrevenha. Ser vivente não é viver a vida, é deixa-la corrente, em marcha constantemente consequente, estável, lisa, macia ao toque de quem sente. Um ser vivente não vivencia, nem se experiencia, não sei sequer se sente, ou se é aquele membro dormente que lá está, simplesmente; você vê, você toca, mas de nada serve, a não ser viver compulsoriamente. O sobrevivente, por sua vez, é inimigo dessa compulsoriedade. Incomoda-o o ser vivente. O mal que lhe faz é como vodca à sobriedade daquele que se esforça em manter-se são. Para ele, essa é a verdadeira insanidade: calar-se; assassinar-se sem se deixar morrer; não se render, ainda que a rendição lhe traga prazeres e conforto. Não, não é saudade da embriaguez, mas do desconforto que a vida embebida em vida própria ocasiona. Sim, esse tipo de loucura é, por natureza, desconfortável, pois exige dedicação, auto controle, uma disciplina tântrica que assemelha essa loucura a uma arte marcial. Também por isso, enlouquecer é uma arte, embora nem todo artista seja louco, nem todos os loucos, artistas. A loucura é o buraco negro da arte. Gerações se passam e pouco dela se descobre, mas se sabe que esse buraco massivo e gigantesco está lá, distante e inexplicável, denso, tão denso que nem mesmo a luz dele se escapa. Talvez essa seja a razão de todo poeta ter em si um quê de sombrio, um hálito taciturno que tateia a noite com certa intimidade, a solidão com grande liberdade, e própria vida própria com respeito e severidade.

 

Curitiba, 17 de outubro de 2025.