Para Val,She’s a Saturday Night SpecialThe Runnaways
Era tanto nada
demais e tanto nada, que já me acostumava com a ideia de não ser nada demais
quando ela chegava mais tarde do trabalho. Não sei quantas vezes já fiz isso
pelo simples desejo de não voltar para casa. Primeiro era trabalho. Depois eram
conversas com colegas que tinham, de fato, coisas a fazer depois do
horário. De repente, me peguei jogando paciência no computador depois de ter
batido o ponto, lendo notícias sobre pseudo famosos, mercado da bola e até
mesmo política. Foi assim que em 2024 fiquei sabendo do Maurinho do Itaiacoca
como candidato a vereador. A bem da verdade, até hoje não sei quem é esse cara,
não sei que cara que tem; é o tipo de pessoa que passa desconhecida por mim na
rua, sem sequer ser percebida. Entretanto, Maurinho recebeu meu voto.
Em eleições
municipais todo mundo conhece alguém que é candidato. Eu não conhecia Maurinho,
contudo não faltavam convites para churrascos e cervejadas bancadas por algum
conhecido, ou conhecido de algum conhecido pedindo voto. Churrasco, entenda-se,
pão com linguiça e cerveja vagabunda. Na real, a maioria não passa de uns caras
quebrados tentando encampar na política para se dar bem em alguma coisa e tirar uma grana por fora;
discurso nenhum, nem aqueles em que já estava de cara cheia, me fez acreditar que
qualquer um deles estivesse realmente interessado em participar da vida
comunitária, de devotar sua vida e seu tempo à causa pública, tampouco
preocupado com a população de qualquer um dos bairros por onde tenha passado
distribuindo panfletos e abraços. O que esses candidatos representavam era claramente
retratado no dia seguinte quando eu acordava ao lado dela, com uma puta dor de
cabeça de tanto encher a cara com cerveja barata, e azia por causa daquela linguiça
que nem cachorro come se não estiver bêbado. Não posso negar que era uma
estratégia para ficar na minha cabeça no dia seguinte, seja na dor, no hálito
ou na ressaca moral que sobrevém à bebedeira, seja no arroto ácido que me queimava
a garganta de hora em hora. Os tempos de eleição eram sempre os que eu tinha
mais justificativa para chegar mais tarde em casa. Maurinho, contudo, nunca me
pagou uma cerveja para ganhar meu voto. Já eram quase sete da noite e eu vagava
por algum portal que dizia qualquer coisa como Conheça o seu candidato. Nem os
que se diziam meus amigos cheguei a conhecer de verdade. Deparei-me, então, com
Maurinho do Itaiacoca e ao lado do nome uma foto em preto e branco em que mal
se podia reconhecer aquele vivente, mas seu nome carregava uma identidade, uma
marca, uma noção de pertencimento que me fez acreditar que, de alguma forma, o
pessoal do Itaiacoca estaria representado. Não que faça diferença para você,
mas Itaiacoca é meio que um vilarejo longe pra caralho, na área rural, fora do
alcance da civilização de Ponta Grossa, se é que se pode chamar aquilo de civilização.
É obvio que não faz diferença para você, e provavelmente você sequer sabia que
existia um lugar chamado Ponta Grossa, que tem uma zona rural cheia de
chácaras, e paisagens corriqueiras por onde ciclistas se amontoam aos finais de
semana, mais ou menos como se fosse a praia do fim do mundo. Um pouco depois de
tudo isso, vem Itaiacoca, e de lá vem o Maurinho, a quem, de tanto repetir o
nome, estou quase ficando íntimo. E não seria estranho, caso eu tivesse o
hábito de pedalar, e parasse na porteira de sua chácara, chamando-o de Oi,
vizinho, e lhe pedisse água; por certo ele me serviria de bom grado, também me
chamando de vizinho, como se alguém fosse vizinho de alguém lá tão distante;
assim, eu beberia de sua água e de sua palavra hospitaleira, nos despedíssemos e,
saindo dali, eu não saberia que se tratava do Maurinho, nem ele que eu fui uma
das dezesseis pessoas que votaram nele aquele ano.
Semana passada
contudo, precisei ficar até mais tarde; mandei mensagem avisando, mas cheguei
em casa me explicando que Valmor teve que ir para Santa Catarina cuidar da mãe
adoentada e que ficou para mim a função de fechar o faturamento da empresa
aquele mês. Ah, tá bom, trouxe o leite? Eu não tinha esquecido o leite. Eu
sequer sabia que era para trazer o leite. Chequei minhas mensagens e não havia
mensagem de resposta ao meu aviso de que chegaria mais tarde, tampouco uma
pedindo leite ou qualquer outra coisa que fosse. Havia semanas que não trocávamos
mensagens, e quando isso acontecia era sobre qualquer coisa como levar o leite,
pão, margarina e um pouco de queijo. Basicamente, nosso relacionamento se
resumia a itens encontrados em uma padaria no caminho de casa. Esqueci, mas já
trago, eu disse. Ela sabe que eu sei que ela sempre toma café com leite de
manhã, só de manhã, no resto do dia ela toma café puro e sem açúcar. Eu não
perguntei o motivo dela mesma não ter comprado a porra do leite. Só desci as
escadas e fui à padaria.
Depois de tanta
bebedeira, a manhã seguinte me marcou como a primeira ressaca de leite. Uma
ressaca moral, avassaladora, acompanhada de um arroto ainda mais ácido
queimando a garganta. Eu não esqueci o leite, eu deixei o tempo passar de um
jeito lacerante, que me fez deixar de levar o café com leite para ela na cama,
depois que já não era mais na cama, de misturar o café e o leite na pia da
cozinha, perante a cafeteira. Depois eu esqueci o leite e, com ele, esqueci
toda uma história que não me fazia ficar até mais tarde no trabalho e conhecer
gente como o Maurinho. Essa ressaca me durou por dias, e não sei se me posso
dizer totalmente curado. A reabilitação é um processo lento. Primeiro, você
precisa se desintoxicar. É foda ficar longe desse nada que te deixa suspenso na
própria vida e na vida alheia, tornando-se quase um objeto decorativo ao outro,
a quem sequer se lembra de não ter pedido algo que nem deveria ser pedido. Posso
dizer com sinceridade que estou na abstinência desse nada, e que fugir de sua
dependência é causticante.
No começo foi
difícil. Não eram gestos necessariamente naturais os de abrir a geladeira e
balançar a caixinha para ver se precisava comprar outra. Às vezes, quando chegava
antes dela, abria a geladeira e só então me dava conta de que tinha acabado e,
mais uma vez, eu tinha esquecido. Numa dessas vezes, eu descia as escadas apressadamente
e, passando por ela sem a perceber, fui perguntado Vai aonde? a que respondi automaticamente
Esqueci o leite. Ela sorriu sem entender. Acho que já fazia muito tempo que não
a via sorrir assim, sem entender direito o motivo, mas saber que fosse o motivo
que fosse, era por causa dela, afinal, eu nem tomo leite. Ainda não voltei a levar
o café na cama para ela, mas já não preciso lembrar de coisas como o leite, nem
de mandar mensagem quando ela demora a chegar; por vezes, antes disso ela me
manda antes mesmo que eu me preocupe, me manda foto do engarrafamento e diz
estar cheia desse trânsito de Curitiba. Eu duvido que ela já tenha passado por Itaiacoca,
muito menos que quisesse morar lá, onde não tem trânsito algum, mas não é do engarrafamento
que ela está reclamando. Acho até que nem é reclamação. De pouco em pouco,
nossa história está saindo da padaria.