Em dias como hoje, me sinto um
pouco mais louco que o de costume. Não que a loucura me pareça estranha,
tampouco um benefício, ou algo de que se possa ter orgulho. Pelo contrário, vejo
simplesmente como parte de mim, algo que me compõe e me completa, essa volta a
mais ou a menos em qualquer parafuso que encaixe o real e o imaginário diz mais
sobre mim do que eu geralmente digo; talvez porque o silêncio faça parte desse
traço; talvez porque a compreensão é um dom angustiante que me foi dado em mão
única, perecendo quando falo, se perdendo ao ser ouvido, fazendo com que eu me
perca entre a fala e o pensamento, entre o dito e o entendido, entre a voz e a
solitude, às vezes inóspita que acompanha o vácuo vernacular.
Nem por isso ignoro os tratamentos.
Os cuidados terapêuticos encerram diariamente um processo de redescobrimento.
Carente de uma terapia própria que se dedique a esse estigma de se saber e se
aceitar em sua loucura, me faço errar entre sessões semanais de autoflagelação
assistida e doses repetitivas que iniciam e terminam todos os dias me lembrando
da necessidade química de controlar as vozes que contenho em minha mente, que
assassino em minha boca. Não ouço vozes aleatoriamente, apenas as de pessoas
reais, exceto eu. Embora real, ouvir minhas próprias vozes implica em certa
dor, nem sempre minha. É como a espada embainhada; não importa o quão afiada e
mortal ela possa ser, depois que passa pela vagina de sua bainha não fere, não
corta, não causa mal a ninguém. Por vezes, é até decorativa. E, assim, por
certo, serve o tratamento para esse tipo de loucura daqueles que se sabem e se
aceitam e, por que não, a ela se dedicam. Calando o corte, contendo a morte,
contando a sorte em dias sem vozes, sem lágrimas, nem goles. Sofrer assim é não
saber sofrer.
Não que eu sinta muita falta da
embriaguez. Ela sim, desembainhava o sofrimento. Usá-la sem moderação foi um
aprendizado. Aprendi a sofrer e a fazer sofrer desnecessariamente. Doer em dor
alheia também dói a quem sabe sentir. Sente-se dor, sente-se amor, sente-se um
pouco de tudo que não dá prazer até se ficar entorpecido. Nessas horas a
lucidez consome a própria razão e, mesmo sem razão, parece lógico um trago, um
gole, um afago, sempre com o mesmo pressentimento do arrependimento a ser
sentido, mas não haveria motivo para se sentir arrependido sem se saber
culpado. Eis a trágica sanidade da loucura verossímil. Tudo parece certo à
medida em que acontece. Tudo é obviamente necessário, exceto os excessos, esses
são automáticos como o projétil depois do disparo.
Olhando assim, é difícil me sentir
sobrevivente ao invés de um mero vivente. Sobreviver é viver, sobretudo, sobre
tudo, não importando o que sobrevenha. Ser vivente não é viver a vida, é
deixa-la corrente, em marcha constantemente consequente, estável, lisa, macia
ao toque de quem sente. Um ser vivente não vivencia, nem se experiencia, não
sei sequer se sente, ou se é aquele membro dormente que lá está, simplesmente;
você vê, você toca, mas de nada serve, a não ser viver compulsoriamente. O
sobrevivente, por sua vez, é inimigo dessa compulsoriedade. Incomoda-o o ser
vivente. O mal que lhe faz é como vodca à sobriedade daquele que se esforça em
manter-se são. Para ele, essa é a verdadeira insanidade: calar-se;
assassinar-se sem se deixar morrer; não se render, ainda que a rendição lhe
traga prazeres e conforto. Não, não é saudade da embriaguez, mas do desconforto
que a vida embebida em vida própria ocasiona. Sim, esse tipo de loucura é, por
natureza, desconfortável, pois exige dedicação, auto controle, uma disciplina tântrica
que assemelha essa loucura a uma arte marcial. Também por isso, enlouquecer é
uma arte, embora nem todo artista seja louco, nem todos os loucos, artistas. A
loucura é o buraco negro da arte. Gerações se passam e pouco dela se descobre,
mas se sabe que esse buraco massivo e gigantesco está lá, distante e
inexplicável, denso, tão denso que nem mesmo a luz dele se escapa. Talvez essa seja
a razão de todo poeta ter em si um quê de sombrio, um hálito taciturno que
tateia a noite com certa intimidade, a solidão com grande liberdade, e própria
vida própria com respeito e severidade.
Curitiba, 17 de outubro de 2025.
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