domingo, 20 de dezembro de 2009

Desaconchego

Pego-me às estrelas a depositar
memórias, leito de todas as histórias
Que vivi à solidão da lua, do mar,
Do passo na rua que desce sem motivo.

Não sei se é dor ou saudade, ou dor da saudade,
Saudade que sinto do amor que te causei
Pois saudade é dor que se dói pela metade,
Dói à lua, ao mar, dói à rua em que passei.

Amar é um não saber sentir sem ter sentido.
Doída, doente, diariamente invade
A solidão da rua que desce ilusória

Pela madrugada ausente de abrigo
Um chorar amargo, vazio de tempo, arde
Na dor que na lembrança dói sem ter sentido

P.S.: You will never walk alone, but I will.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Hidrografismo

Não sei o motivo, mas tenho uma leve
atração pelas canetas hidrográficas.
Amo minhas canetas hidrográficas
de escrita leve, levianas
atraem os motivos da vida
para o papel desmotivado.

Pálido, como morto se sem palavra.

Playground


Suspiras e tua dúvida me alcança
No alto do edifício que ao céu arranha.
Moves-te em mim, ébria em tua façanha
De não estar estando em minha vizinhança.

Caminhas pela escada, brincas na balança.
Percebes os meus olhos, se desfaz em manha
Que no calor da tarde te invade e te assanha,
E vejo-te sorrindo entre as crianças

A invariável dor que de ti se evade
É nas entranhas, só, a mesma dor que sinto
Enquanto o carrossel te gira sem vontade.

A janela contempla o que me é extinto
A outras janelas és, de fato, mocidade
A chuva cai, e foges num ato de instinto.


P.S.: "Não sei se é dor, saudade, ou dor da saudade
saudade que sinto do amor que te causei"

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

XV



Sonhemos, e vivamos esse sonho severamente
Sonhemos, porque o dia não tarda
E a luz é sombra para o pensamento.
Vivamos enquanto o sol não se levanta
E ele nunca se cansa de nascer.
Sejamos, simplesmente, como nunca
Pois o nunca é o poço onde se afogam
Realidades melancólicas e tristes.
Sonhemos. Não, não me acordes,
Não me queiras de olhos abertos para o suplício matutino
Pois todas as vezes que me acordam é um sonho
Que amanhasse sem ser lembrado.
Deixa-me que viva entre as estrelas
Onde sempre caberá um firmamento
Seja, e simplesmente sejamos,
Não um, mas um milhão de vezes nós mesmos
Assim, completamente seremos.
E quando alguém, um dia, quiser nos acordar
Desses nossos sonhos que vivemos
Montaremos em nosso caracol selvagem
A cortar com a bravura do vento
Os inúmeros nanômetros imaginários do horizonte
E iremos, iremos além
Além do que se chama horizonte
Muito depois de muitos horizontes
Que nunca cessarão. E quando lá alcançarmos
Lá onde o horizonte se cansa de ser horizonte
Para ser abrigo, onde o infinito encontra
O caminho do fim, onde o dia se desaba em noite
E a noite é feita para a paixão
Lá, muito depois do infinito horizonte
Seremos simplesmente nós, não mais alguém
Seremos um milhão de vezes nós mesmos
De um jeito que nunca nos conhecemos
E enfim, desbravaremos a beleza
De todos os seres que não fomos
E sonharemos, viveremos infinitamente
Mais infinitamente que o horizonte infinito
E lá, depois de além de onde todos os horizontes
Se encontram, finalmente seremos

sábado, 21 de novembro de 2009

Locomotiva


Logo cedo
Sai da cama
Lava o rosto
Lava roupa
E põe a roupa
No varal
E põe a roupa
E tira a roupa
Limpa a casa
Arruma a casa
E passa a roupa
E passa passa
Passa o tempo
Passa passa
Na cozinha
Pra fazer
A comidinha
O fogão ta carregado
De panela que não cansa
De ferver e ferve e ferve
É o feijão quase queimando
O arroz ficou no ponto
Macarrão ficou grudando
Minha nossa, minha nossa
Minha-nossa, minha-nossa
Manhê!
Serve o almoço
Arruma o filho
Manda o filho
P’ra escola
E senta junto
P’ra fazer
Lição de casa
Casa, casa
Papai chega
Papai come
Papai dorme
Papai some
Filho cresce
Filho esquece
Filho casa
Logo tem a própria casa
E ta vindo um netinho
Neto nasce
Vovó chora
Logo chama
Vovozinha
Vovó cuida
Vovó beija
Abraça e brinca
E o nenenzinho
Logo cresce
Logo esquece
Ninguém nota essa velhinha
Ai, mãezinha, a vovozinha
Ta chorando encolhidinha
Chora em seco a mulher forte
Forte, forte, forte, forte
Manhê!

P.S.: Para não dizerem que só sei falar de amor, falemos um pouco mais...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Da Beleza das Mulhers Belas



Que sobreviva a beleza,
Sobretudo, a beleza feminina,
Pois só ela tem um quê de sombrio
Capaz de alimentar a tristeza
Existente no homem e fazê-lo sorrir.
Só o homem sabe o que é se sentir
Triste, amargo, insensível e, de repente,
Transformar a própria realidade
Por estar diante daquela que, em breve,
Se tornará sua eterna namorada
Para quem dedicará mesmo seus versos
Mais cheios de humildade e sem direção
Pois todos os caminhos o levarão a sua amada
Verdadeira, que estará em todos os rostos,
Todas as vozes, todas as tardes, mesmo
Aquelas sem graça no verão chuvoso.
Por isso, anseio que sobreviva a beleza
Sobretudo a beleza das mulheres belas
É só nelas que a verdadeira beleza sobrevive,
Se bem que outras coisas além da beleza
São importantes e, muitas vezes, as mulheres belas
Não as possuem, mas têm o mais importante,
Pois sem beleza não há mais nada,
Não há inteligência, nem sinceridade
Não há honestidade no relacionamento
Nem mesmo a tristeza sem beleza não há
E sempre deve existir contigua a essa beleza
Uma candura, uma doçura de mulher,
Um querer bem, um cuidado pelo ser amado
Um não-sei-se-quero confundido
Com tudo mais que há por se querer.
Paciência, muita paciência e um olhar distante
Como se o mundo fosse acabar no próximo
Suspiro, e a vontade repentina
De ir para casa são essenciais
À existência da beleza das mulheres belas.
Não se pode esquecer, é claro, da delicadeza.
Não falo de angelicalidade,
Mas de delicadeza pura e fina.
De nada vale beleza sem delicadeza
É ela a responsável pela atmosfera
Sublime que deixa a mulher bela
Em câmera lenta e com trilha sonora.



P.S.: Um dia ainda nos conheceremos. Eu sei que você está por aí, em algum lugar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Para quando estivermos livres das angústias que sentimos

Amemos a humanidade
Ainda que ela não nos ame
Ainda que ela não se ame
Ainda que não saiba o que é amor.
Amemos, porém, para que nos encontre
E que esse encontro lhe revele
O amor no seio dos amantes
E assim possamos nos descobrir
No verdadeiro amor que nos pertence
E se tardarmos a nos reconhecer
E se chegarmos a nos desencontrar
E se o tempo nos desencantar
E a distância nos envelhecer
Amemos ainda mais
Amemos um ao outro
Como nunca nos amamos
Amemos a idéia
Amemos a memória
Amemos a peça de roupa
Esquecida no armário
Cujo perfumo se foi
Mas resiste na lembrança
Amemos naquele bilhete antigo
Deixado no meio de um livro
Que por motivos desconhecidos
Fomos chamados à releitura
Amemos no pedido do restaurante
O mesmo daqueles dias
Amemos aqueles dias
Amemos todos os dias
Para que um dia possamos dizer
Que sabemos o que é o amor.

Curitiba, 25 de outubro de 2009
P.S.: "O que eu sofri por causa de amor ninguém sofreu"

sábado, 11 de julho de 2009

A Inexistência


Não fosse o silêncio
O pensamento, a rápida
Parada do coração ante
Uma recordação calada.
Não fosse o tempo, o destino
E os outros muitos nomes de Deus.
Não fosse essa sensível fraqueza
Às paixões e a busca de um amor,
Que dessa vez será eterno.
Não fosse o indelével respeito
Pela palavra escrita
E sua intimidade com a noite.
Não fosse o sentimento imaculado
E impróprio, perene n’alma
Dos que verdadeiramente sentem
Dos que verdadeiramente choram
Dos que verdadeiramente são
E vivem verdadeiramente.
Não fosse o sossego melancólico
No olhar daquelas mulheres
Que um dia nasceram para o amor
E sua beleza nostálgica
E sua carne e seu pudor.
Não fosse um curto fio de esperança
Que liga o nada ao magnífico,
A desolação à plenitude
A vida a uma outra vida
Talvez à morte, talvez a mim
Um fio quase invisível de esperança
Que ainda resta, que sobrevive
Nos olhos espremidos e nos joelhos
Curvados daquele que reza.
Não fosse a poesia e seu encanto
Magnético, sua melodia inaudível
Hipnotizando diariamente seus amantes,
Seus braços invisíveis me apertando
Contra o peito constantemente
Não fosse tudo que é, todos que são.
Não fosse ela.
Não fosse ela.
Não fosse ela.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Na Vizinhança

Vejo as casinhas e me pergunto:
Por quê?
Os telhados em sua rotina enviesada
Protegendo da chuva, da friagem e do sereno,
Os forros alinhados rebatendo o calor
E sustentando as lâmpadas,
As vigas sólidas suportando a família
E me pergunto:
Por quê?

Dentro, silenciosamente, dormem os conviveres,
Freneticamente, os números se multiplicam
Vagarosamente se acordam as mães,
Os pais que se despertam para o despertar
Dos filhos, que logo se irão para o mundo
Para seus próprios telhados
Para seus próprios pilares
Para as mesmas janelas
Que nada questionam, só espiam,
Espiam e protegem do vento e das moscas.
Por quê?

Ao topo, as antenas; o alimento das novidades
Que vêm do céu, a esperança que nuca dorme.
Do lado de fora, apenas a garagem espera,
É uma longa espera que nunca cessa
Tal como o pensamento, que me pergunta:
Por quê?


Cornélio Procópio, 18 de maio de 2009.

O Perdão

Amor, me perdoa
Perdoa marte tão longe assim

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

XIX

Meu lugar é no espaço de um suspiro
Onde cabem promessas de algum tempo,
De outra vida, cheia de sentidos e sentimentos
Em que cabem inúmeras recordações.
O meu tempo é o vago instante
Entre o soluço e a lágrima,
A palavra e o pensamento,
O grito e a emoção. Não tenho
Quando, nem onde, nem como
O meu mundo mora ao lado,
Onde a grama é sempre mais verde,
O cachorro mais robusto,
O carro mais vermelho e brilhoso.
Sou o intervalo entre o desejo e a inveja
E existo onde o nada toma rumo.
Estou no prazer de voltar para casa
E na inquietação infantil
À espera de seguir viajem.
A satisfação da chegada vem
Ao meu encontro onde me encontro.
A paz, a ira, a dúvida, a descoberta,
Tudo me desperta. Onde me acho, me sento
À noite, descanso, durmo, sonho
Sonhar é meu trabalho,
Que faço com amor e dedicação.
Descanso aos sábados e domingos,
E, principalmente aos domingos,
Gosto de ouvir o cair da chuva,
Cujo aroma consola todas as frustrações
Da vida. Não tenho dia certo
Hora para dormir, apenas para acordar
E quando acordo, não tenho tempo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Possibilidades



Ela disse que vai voltar, que sempre voltará. Talvez tenha dito isso só para me agradar, talvez volte mesmo, não sei quando ou como, mas não escondo a vontade que tenho de vê-la retornando com sua lua sempre crescente resplandecendo seu rosto plácido. Temos tempo, todo o tempo do mundo. Não sei, pode ser que esse tempo não haja, que aquele um dia a gente se vê, aquela uma hora a gente se encontra nunca cheguem. Mas que importa? Melhor esperar o retorno de alguém que já esteve presente a aguardar o surgimento de alguém que nem se sabe existir. Sei muito pouco sobre a existência, na verdade não sei se a maioria das coisas em que acredito realmente existe ou existiu: Deus, Shakespeare, O Homem do Saco, mas que importa? Afinal, ninguém sabe qual é a verdadeira realidade, se por acaso você souber, guarde para si tudo que é real, já não quero saber se o sorriso dela é tão bonito quanto me parece, ou se Romeu e Julieta diz tudo aquilo que li, não me importa se Deus criou mesmo o mundo, ou se O Homem do Saco vai me pegar mesmo se eu desobedecer minha mãe, e faz tanto tempo que não a vejo, espero que o Homem do Saco não a tenha levado.

Não lembro quantos anos tinha quando me contaram que Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e a Fada dos Dentes não existiam; a vida era muito mais bela quando acreditava neles, aprontar as meias, o panetone e um copo de leite na véspera de natal, levantar da cama em uma efusividade descontrolada para procurar os ovos escondidos pela casa, jogar o dente de leite por cima do telhado para encontrar uma moeda embaixo do travesseiro no dia seguinte. O tempo não volta! Disse ela. Não espero que aqueles dias voltem, já nem lembro mais quando foram, só lembro que foram muito bons, e que se foram, como tudo que é bom. Acredito que tudo que é bom deve ir, deve-se ter aquele gosto bom na boca, uma vontade de se ter de novo, a esperança do reencontro, um sorriso silencioso quando vem aquela lembrança. Isso, ao contrário do que parece, não é saudosismo, mas certeza de se ter vivido a vida, de se ter aproveitado cada instante, que por ser irrecuperável é eterno, como todo bom sentimento.

Rezo todas as noites, ainda que não tenha certeza da existência de Deus, acredito que Ele esteja me ouvindo; tenho tantas certezas, e o que aprendi com elas foi que toda certeza é um ponto final, um não, uma desilusão. As ilusões são o que de melhor encontramos pela vida, nelas sempre haverá um talvez, um será?, uma esperança de que seja verdade; as dúvidas nunca têm fim, sempre estão dispostas a uma nova resposta, ao pensamento, à perseverança; ter certeza é perder a crença em novas possibilidades, em outras respostas que trarão novas perguntas; talvez ela só quisesse me agradar dizendo que sempre voltará, espero que volte, assim como espero que Ele ouça as minhas preces; não sei se minha mãe gostava de Shakespeare, mesmo assim nunca ousei desobedecê-la, tenho medo de que aconteça comigo o que aconteceu com Romeu. O tempo não volta! É provável, mas não preciso de mais essa certeza.