Não sou
Não sou
Não sou
Não sou há muito tempo
E quando tento, me perco
Entre revistas pornográficas
E comprimidos para dormir.
Se não me encontro é porque
Não há nada além desse
Contínuo preâmbulo exaustivo
Que acontece entre a vida
E o não ser, quando todo
Suicídio me parece tedioso
E a salvação um sonho intangível.
Não sou
Não sou
Não sou
Não sou
Não tenho tentado ser.
Dia após dia, não tenho sido
E é tão fácil não ser
Que sequer me percebo
Nesse meu haver sem ser.
Folheio dicionários à procura
De uma palavra que signifique
Sem saber que não há língua
Que suporte toda a existência
Necessária para ser humano
Sem ser patético ou incoerente.
Não há língua que traduza o silêncio
Insalubre dos que tentam ser
Ao mesmo tempo em que existem.
Resta, assim, o verso calado
Que há entre duas palavras
Resta o não dito, o pensado
A resposta a ser dada, mas era tarde
Resta tudo o que não tenho sido
Nessas horas em que tento não ser.
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