domingo, 5 de fevereiro de 2012

Diálogos de um Esquizofrênico sobre as Vicissitudes Cotidianas

Escuta
Momento
Esquecimento

Era um terço da metade do mundo, mas ela me expulsava da cama todas as manhãs. Nem o norte, nem o frio dali, o calor de lá, nem mesmo a irresistível vontade de mais cinco minutos (por favor!), dissuadiam sua impaciência diante do meu corpo dolente.

Coluna
Pensamento
Movimento

No trem, lhe apresentei alguns amigos; um morador de rua certamente ficou feliz ao conhecê-la. Ali eu era o meio, o verbo e a forma sem a qual a rotina seria a fome, as palavras e o café forte e sem açucar. O som rouco dos trilhos se confundia com as vozes femininas anunciando as estações passantes. Tantas passaram, que o verão chegou de repente, logo depois do inverno, ignorando a primavera.

Barulho
Agitação
Sinceridade

A cidade agoniza nas buzinas apressadas, nos motores melancólicos e nas ruas embriagadas de solidão urbana. Bebi demais na viagem, não encontro o caminho de casa. Talvez por não saber onde era, talvez por não saber se tinha uma casa. Silêncio, preciso do silêncio e do som dos seus saltos emudecendo o desespero cotidiano dessa urbanidade insípida enquanto as calçadas fluem sob seus pés, num riacho rígido de pedra, cimento e pó.

Delírio
Confusão
Sinceridade

Ela odeia quando transformo as vicissitudes casuais em poesia. Minha vida não deve ser exposta, ela diz. Calma, o inverno virou verão em vinte e quatro horas; por que não deixar que tudo se transforme enquanto rabisco umas palavras? Nem tudo é tão simples assim, doutor! Percebo que a conversa está perigosa quando começa a me chamar de doutor, aí me obrigo a Por que não simplificar as coisas, anjo? Ela adora quando a chamo de meu anjo. Cala a boca e me dá um beijo de uma vez, seu poeta sem vergonha. Ok, minha linda, juro não escrever o que acontecer depois do beijo.





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