Ouse Elizabeth, ouse! Era o som que ecoava em sua cabeça sempre adornada por cachos singelos, tão singelos quanto a existência de uma professora que há pouco tempo lecionava em escolas secundárias. Ouse, ouse! Era o que ouvia nos olhares daquele jovem que lhe ocupava o pensamento. Ouse, ouse! Dizia-lhe o travesseiro inquieto nas tentativas de se entregar ao sono, sempre inúteis aos enamorados. Ouse! O dia todo, nos degraus das escadas, no som rouco do fechar das portas do ônibus às suas costas. Ouse! Ao calar dos instintos que lhe ousavam o sentimento ressecando-lhe a boca, umedecendo-lhe os olhos e o vão das pernas, enrijecendo-lhe os seios sob a lembrança contida entre os cobertores a gelarem-lhe o ventre. Ouse! Nos instantes em frente ao espelho antes de deixar sua casa para se conter pelos corredores universitários. Vestia-se sempre discretamente, como que com o propósito de conter em si um sentimento que lhe transbordava, que lhe tomava e consumia, que revelava na meticulosidade dos seus cachos castanhos, ordenados um a um, o intuito de deixar-se descobrir ousada, para desdizer a serenidade de sua pele clara de expressões sempre abrandadas pelo pudor letárgico de quem um dia, de repente, se descobre apaixonada. Ouse! Com o sucesso dos que ousaram. Ouse! Era o que sentia. Ouse Elizabeth! Era o que calava.
E só quem cala sabe o quanto alto fala cada olhar perdido, cada mágoa depositada no silêncio dos desesperados, postos a gritar calados pelo desejo que lhes sobra na coragem que lhes falta. Ela gritava, gritava ao se calar ante aos olhares de Thomas, gritava sufocada pela toalha umedecida após o banho em que a água deslizante pelo corpo reproduzia o calor daqueles olhares em sentido contrário subindo pelas pernas, desviando sutilmente as curvas dos quadris, espremendo a cintura e pouco a pouco seguindo o caminho da coluna para, por fim, desaguar sua quentura no rubor de um sorriso intimidado pelos corredores do dia passado, em encontros sem muito acaso, nas perguntas ao final da aula, na biblioteca, na cafeteria, em tantos lugares em que ele estava propositalmente para ser notado, como se soubesse que depois estaria em suas lembranças, no sorriso distraído e fora de hora de quem se surpreende sonhando acordado. O que começara nas aulas de Quinta-feira com um aluno por demais dedicado para ser somente um bom aluno, se arrastava agora semana adentro, semana após semana nos lugares em que não era esperado. Sua presença fazia falta em outros turnos, procurava-o na sala antes mesmo de dizer o “Bom dia”, cada vez mais formal quando Thomas não estava. Procurava mesmo sabendo que não estaria, pois não era Quinta-feira. E foi esperando que ele lá estivesse, lá onde sabia não estar, que Elizabeth descobriu Thomas morando em suas horas, em seus pensamentos mais itinerantes, no aroma do café do intervalo, no mais raso silêncio em que Elizabeth calava na timidez de quem se apaixona sem querer, sem saber se apaixonar.
Elizabeth já não sabia mais que as paixões são assim mesmo, inesperadas, pois, com o tempo, as outras funções do coração são esquecidas pela falta de uso. Esquecia-se de que a beleza mora também no acaso, e por acaso nos damos conta do inesperado. Esse é o mal de não saber se apaixonar: esperar o momento certo, a pessoa certa e então aplicar determinada fórmula para que tudo ocorra conforme o planejado; mas a vida tem vida própria, não segue receituários nem tem exatidão para o nascer dos frutos. São sussurros espontâneos dizendo dengos sem mistérios ao ouvido, caminhos desviados de seu trajeto diário para três ou quatro minutos de intimidade limitada pelo tráfego de conhecidos que talvez nem passem, mas talvez nos vejam, não podem nos ver, se nos descobrem! Sabe como é a língua do povo! Não saber se apaixonar é não saber que a vida escreve seu roteiro, é se perder no próprio sonho pelo medo de sonhar. Certo era que Elizabeth sonhava, sonhava acordada, os olhos ao nada, os risos solitários e o brilho de seus cachos poentes revelavam os devaneios, mas o que é o sonho para o sonhador, senão um jeito de viver a própria realidade? Ainda que fossem sonhos, não eram menos concretos que as diárias sanidades ensimesmadas da sala de aula, que vagarosamente se tornavam objetos imóveis lhe flagrando em instantes silenciosos, observando cada passo, cada suspiro, indiciando e condenando seus sentimentos à clausura de um mundo provinciano cheio de medos e regras ilegíveis. A universidade é uma cidade pequena em que a mesquinharia torna tudo coletivo. Não existe vida própria, coisa própria, é um mundo comunista em que não há propriedade sequer para os sentimentos. Assim, a indiscrição alheia decifrava as sobrancelhas franzidas, o vagar dos suspiros e mesmo a lentidão dos passos ao passar por Thomas, traduzindo cada gesto para uma língua comumente secreta a todas as bocas e corredores, e cada uma tinha sua própria versão para as sugestões de realidade. Para Elizabeth, a pouca realidade que sobrava eram os goles amargos na cafeteria, mas nem mesmo o café era apenas seu, dividia-o com todos os olhos e sussurros que mascaradamente diziam seu nome e viviam sua vida em tantos fatos diferentes que nem mesmo ela sabia ter vivido.
Não via a hora de chegar em casa, tomar seu banho e se deitar à cama, pois só no escuro a consciência se acabava, apenas no escuro a consciência a deixava se apagar dos tormentos cotidianos para viver os sonhos que a transportavam dia após dia até que esse dia fosse quinta-feira. Mas os efeitos das vidas que vivia se arrastavam pelos lençóis e se espremiam contra os travesseiros em gritos inaudíveis e lágrimas que antecipavam seu sono. Não sabemos ao certo porque Elizabeth chorava. Talvez fosse tristeza, talvez fosse remorso, talvez um daqueles momentos em que a solidão, o tempo e os abandonos da vida cobram o devido preço que toda escolha acarreta. Por mais que possamos perambular por suas idéias, tal mineiro vacilante pelas minas em busca de ouro, o coração de uma mulher mantém segredos inaudíveis mesmo ao próprio pensamento. Vasculhá-los importa no risco proeminente de sermos soterrados pela ganância, pois existe o ouro criado para o homem e o ouro criado para continuar na terra. O choro de Elizabeth nascera de um sentimento feito para ser apenas dela. Esse relicário de sentimentos imprecisos a silenciava, pois falar só é analgésico para as dores daqueles que não sabem sentir, que sentem como falam, pois sentem da boca para fora. Nesses momentos a Educação é um ofício circense em que o palhaço não se dá ao direito da tristeza, por mais que a mais amarga das dores o corroa. As salas, os corredores, o departamento, em tudo se sentia o lacerante aroma de pipoca gordurosa, os alunos eram a platéia atenta à espera da próxima risada, os colegas de trabalho, meros palhaços sem graça que nunca se cansavam de lançar seus gracejos repetitivos, os mesmos desde a primeira apresentação.
E de tanto viver coletivamente, as suas várias vidas vividas entre bocas que nada lhe diziam e corredores que a lugar nenhum a conduziam acabavam por contaminar seus sonhos e pensamentos. O sentimento comunitário de Elizabeth tomava mais e mais espaço nos seus silêncios interrogativos, seus cachos acobreados se esmaeciam, deixando as preocupações provincianas agirem com seu mítico efeito de transformar tudo em pedra. Tão logo os sentimentos de Elizabeth se endureciam, a idade parecia pesar sobre sua pele, enrugando o que era liso, alisando o que era encaracolado, embranquecendo o rubor de seu coração, petrificando sua ternura e anoitecendo seus cabelos cor-de-fim-de-tarde. Não há nada como o mundo para envelhecer, suas preocupações envelheciam a alma, e era das dores dos mundos em que vivia que sofria por não saber o que viver. O tempo passava, o tempo não se cansa de passar, assim são os anos que apenas chegam, um após o outro se empilhando em frente ao espelho, fazendo com que o furor das paixões, o impulso da entrega, a força impetuosa dos desejos não seja igual a quando se tem dezoito anos. Na sua idade, o resto da vida já não é tanto tempo quanto antigamente, e antigamente já é bastante tempo. Não que seja velha, seu corpo maduro conserva formas pueris bastante atraentes, uma beleza além dos seios rijos, da pele lisa e da fala delicada. Definitivamente não é velha, mas isso não impede que assim se sinta. Perto de Thomas se sente culpada, Ele é mais novo, tem tanto pela frente, tantas aventuras que seriam abreviadas por estar ao meu lado. Um dia reclamará, sentirá falta desse tempo que não teve, das histórias de adolescente. Já estarei velha, ainda mais velha, vai querer recuperar aquele tempo e me deixará em casa sozinha. Não vai querer ter filhos, não agora, talvez quando tiver seus trinta, trinta e cinco, é assim que se pensa hoje em dia. Já estarei velha, velha demais, talvez já não possa ter filhos, serei uma velha sem família, sem filhos sem ninguém, somente um gato me restará, um gato e a televisão. Não quero ser uma velha noveleira. Terei de suportar suas molecagens de adulto, as aventuras, as bebedeiras com os amigos e as mulheres que teria quando mais jovem se não estivesse comigo. Elizabeth parecia pensativa naquele intervalo. Não falava, não ria das piadas triviais e inodoras dos professores do departamento. Seus cachos castanhos a rodeavam de interrogações. Seus olhos à janela acompanhavam o movimento das nuvens. Se fumasse, acenderia um cigarro para acompanhar o café amargo, como é costume dos que muito pensam, mas Elizabeth não fuma, só pensa. Os professores saem, é hora da aula, mas não a aula de Thomas, era quarta-feira.

