O céu amanhece acinzentado como os céus do outono que era, não havia cores além dos diversos tons de cinza que pendiam pelo horizonte. O caminho diário até o trabalho nunca lhe pareceu tão longo, tão silencioso e solitário. Vou falar com ele. Nessa idade não se pensa em casamento ou coisa assim, dizia para si mesma com todas as certezas que só a idéia da maturidade pode trazer, Vou falar com ele, repetia. O chão se ilumina, o sorriso de Thomas acelera a pulsação, Vou falar! o medo aumenta, Ouse, Elizabeth, ouse. Mais alto, mais alto, ouse... ouse... já não há mais tempo, ele se aproxima, as palavras se perdem entre os olhares, Ouse! já pode ver em detalhes as marcas de uma recente puberdade. Um sorriso floresce no semblante do aluno. Mãos suadas, pernas suadas, respiração ofegante. Ele é meu aluno, meu aluno, meu aluno. Perto demais. Os passos diminuem, quase param. Os olhares travam uma batalha no ar; quase se tocam; chegam a se tocar, chegam a sentir o perfume que mais tarde se cristalizaria na memória de ambos. Sente muito. Sente medo. Você sabe como é a língua do povo. Os passos voltam a se acelerar. O coração, daquele ritmo frenético, quase pára. As palavras que deveriam ser ditas chegam atrasadas. Ninguém olha para trás. Todos os sentimentos atravessam a noite daquela Quinta-feira como pesadelo insone do qual não se pode fugir por estar acordado. Sexta feira, outra semana.
Sábado, Domingo, Segunda, Terça, Quarta, Quinta-feira, ainda outono, um pouco mais frio, mas era outono. Seguia a professora pelo corredor sem noção do que faria quando entrasse na sala e olhasse nos olhos de Thomas. Perderia o chão, choraria. As portas não hermetizavam o silêncio das salas, que para ela estavam vazias, mas pareciam-lhe assombradas, entoando entre os vãos numa voz escura: ouse, ouse, ouse. Os olhares já não eram de reprovação. Ela queria, sabia que queria, mas o medo continuava aprisionando seu desejo. 20, 21, ouvia o eco dos seus passos gritando: - Dor... dor... cada vez mais distante. Dor... dor... uma caminhada eterna. Sentia-se doente, o ventre gelado, o coração pulsando na ponta dos dedos. Por debaixo daquele decote surdo, a palidez tatuava seu corpo. Sala 23. Seus olhos percorreram todos os bancos. Teve medo de perguntar, mas na chamada, ao nome de Thomas, simplesmente traçou um F.
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