quinta-feira, 1 de março de 2012

Sobre como começar uma separação involuntária

Quero te buscar naquela quarta feira, depois do trabalho, em que você, cansada, não quer ir a lugar nenhum, senão para a cama. Não se preocupe em se desculpar pelo atraso, depois da terceira vez te esperando na chuva, carrego sempre uma toalha para limpar o vidro embaçado do carro. Até coloquei uma bateria nova para poder escutar música enquanto você não chega, porque não queria empurrar o carro de novo; e quando chegar, te levo imediatamente para casa, vou fazer aquele chá de erva-doce, ou de malva, ou de frutas vermelhas que você adora. Não pensarei em sexo; por mais que eu te deseje tanto quanto nos primeiros dias, não pensarei em sexo. Sei que você vai dizer alguma coisa como “Desculpa, amor, estou destruída hoje” e vou dizer qualquer coisa como “tudo bem”, que sei que te vai pesar na consciência, principalmente porque, na verdade, vou ficar na sincera vontade de dizer “Deita no meu ombro, quero te fazer cafuné até você dormir, e talvez eu nem durma antes das duas da manhã, porque adoro te fazer cafuné até o sono me derrubar subitamente”, mas vou acabar ficando no “tudo bem” e te pesar involuntariamente na consciência; não que eu queira que você acorde pensando nos sintomas de infelicidade que tua ausência me trás, mas sei que você vai acordar pensando nisso. Acordarei odiando meu silêncio daquele ontem, mas não será por mal, é que a dúvida do não dizer sempre me incomoda, então não digo. Talvez você pense que eu só vá querer agradar, o que pioraria as coisas; nem sempre a sinceridade ajuda, o problema é que nunca sei quando falar uma verdade necessária ou quando calar palavras desnecessárias. Por isso, quando chega o sábado, faço aquele peixe com manjericão que não sei se você gosta mesmo, ou se na primeira vez que fiz você disse que adorou como que reconhecendo meu esforço; mas faço pensando na possibilidade de que você goste mesmo. Aprenderia outros pratos, se soubesse, mas não sei ao certo teu prato favorito. E de tanto tentar agradar, aquele “acho que ele tem outra” chegará a tua cabeça como um pensamento cancerígeno, porque todo mundo sabe que agrado demais é desconfiável, e “faz umas duas semanas que ele não me dá um beijo de verdade”. Nunca sei quando dar aquele beijo sem interromper o teu cansaço, mesmo que isso te fizesse querer esquecer o cansaço; e tentarei dar explicações sobre coisas que não fiz, e, sem querer, te farei chorar durante o banho sem saber que eu realmente tentei fazer o chá que te agrada, e o prato de que você gosta, simplesmente na tentativa de te fazer feliz.

Ponta Roça, 1 de março de 2012.
(PMG)

2 comentários:

Anônimo disse...

Profundo... !

Anônimo disse...

Não tenha medo