terça-feira, 3 de março de 2026

Apesar do Pesar de Amar a Si

 

Apesar de tanto apesar a pesar
E pesar tanto esse tanto pesar
De se viver e morrer e lutar,
Viver é lutar, amar e sonhar.
 
E se te desdisserem, esteja certo
Que tal amargo o coração deserto
Desertado foi de um amor discreto
E agora já fechado, outrora aberto
 
E a esse fechamento não há outra cura:
Querer-se se ver salvo da amargura
E amar a si mesmo em forma pura.
 
E assim, de tanto o pesar, o sofrer,
No amor de si, em si se perecer
Viver será mais que sobreviver.

  

Ponta Grossa, 3 de março de 2026.

domingo, 1 de março de 2026

Rudimentos de um sobrevivente

 

"Que venham as Valquirias, cavalgando pelos céus da minha coragem, trazendo a certeza de que a batalha não foi em vão."— Hugo Kem.

 

Sigo com quem segue rudemente

O rudimento básico da vida ao ser vivente.

Rudimentar nos gestos, hábitos e lida,

Às vezes sofrida ao ser sobrevivente.

Nunca amargurado, embora, às vezes,

Amargamente vivo o que há por ser vivido

Sofro o que há por ser sofrido

Jamais como dor inexistente,

Pois sofrimento é também vida latente.

Meu sofrimento não me torna indiferente

Às belezas vívidas vividas, vistas, lidas, ouvidas.

A indiferença impede que se viva uma vida comovente.

Da lágrima do riso, ao sorriso irônico,

Tudo é parte de algo

que faz parte de um tudo

Eternamente.

Delirante, emocionante,

Vociferadamente afônico,

Contrariando os próprios horrores

Sigo assim: descaradamente.

Sobrevivência #1

 

Em dias como hoje, me sinto um pouco mais louco que o de costume. Não que a loucura me pareça estranha, tampouco um benefício, ou algo de que se possa ter orgulho. Pelo contrário, vejo simplesmente como parte de mim, algo que me compõe e me completa, essa volta a mais ou a menos em qualquer parafuso que encaixe o real e o imaginário diz mais sobre mim do que eu geralmente digo; talvez porque o silêncio faça parte desse traço; talvez porque a compreensão é um dom angustiante que me foi dado em mão única, perecendo quando falo, se perdendo ao ser ouvido, fazendo com que eu me perca entre a fala e o pensamento, entre o dito e o entendido, entre a voz e a solitude, às vezes inóspita que acompanha o vácuo vernacular.

Nem por isso ignoro os tratamentos. Os cuidados terapêuticos encerram diariamente um processo de redescobrimento. Carente de uma terapia própria que se dedique a esse estigma de se saber e se aceitar em sua loucura, me faço errar entre sessões semanais de autoflagelação assistida e doses repetitivas que iniciam e terminam todos os dias me lembrando da necessidade química de controlar as vozes que contenho em minha mente, que assassino em minha boca. Não ouço vozes aleatoriamente, apenas as de pessoas reais, exceto eu. Embora real, ouvir minhas próprias vozes implica em certa dor, nem sempre minha. É como a espada embainhada; não importa o quão afiada e mortal ela possa ser, depois que passa pela vagina de sua bainha não fere, não corta, não causa mal a ninguém. Por vezes, é até decorativa. E, assim, por certo, serve o tratamento para esse tipo de loucura daqueles que se sabem e se aceitam e, por que não, a ela se dedicam. Calando o corte, contendo a morte, contando a sorte em dias sem vozes, sem lágrimas, nem goles. Sofrer assim é não saber sofrer.

Não que eu sinta muita falta da embriaguez. Ela sim, desembainhava o sofrimento. Usá-la sem moderação foi um aprendizado. Aprendi a sofrer e a fazer sofrer desnecessariamente. Doer em dor alheia também dói a quem sabe sentir. Sente-se dor, sente-se amor, sente-se um pouco de tudo que não dá prazer até se ficar entorpecido. Nessas horas a lucidez consome a própria razão e, mesmo sem razão, parece lógico um trago, um gole, um afago, sempre com o mesmo pressentimento do arrependimento a ser sentido, mas não haveria motivo para se sentir arrependido sem se saber culpado. Eis a trágica sanidade da loucura verossímil. Tudo parece certo à medida em que acontece. Tudo é obviamente necessário, exceto os excessos, esses são automáticos como o projétil depois do disparo.

Olhando assim, é difícil me sentir sobrevivente ao invés de um mero vivente. Sobreviver é viver, sobretudo, sobre tudo, não importando o que sobrevenha. Ser vivente não é viver a vida, é deixa-la corrente, em marcha constantemente consequente, estável, lisa, macia ao toque de quem sente. Um ser vivente não vivencia, nem se experiencia, não sei sequer se sente, ou se é aquele membro dormente que lá está, simplesmente; você vê, você toca, mas de nada serve, a não ser viver compulsoriamente. O sobrevivente, por sua vez, é inimigo dessa compulsoriedade. Incomoda-o o ser vivente. O mal que lhe faz é como vodca à sobriedade daquele que se esforça em manter-se são. Para ele, essa é a verdadeira insanidade: calar-se; assassinar-se sem se deixar morrer; não se render, ainda que a rendição lhe traga prazeres e conforto. Não, não é saudade da embriaguez, mas do desconforto que a vida embebida em vida própria ocasiona. Sim, esse tipo de loucura é, por natureza, desconfortável, pois exige dedicação, auto controle, uma disciplina tântrica que assemelha essa loucura a uma arte marcial. Também por isso, enlouquecer é uma arte, embora nem todo artista seja louco, nem todos os loucos, artistas. A loucura é o buraco negro da arte. Gerações se passam e pouco dela se descobre, mas se sabe que esse buraco massivo e gigantesco está lá, distante e inexplicável, denso, tão denso que nem mesmo a luz dele se escapa. Talvez essa seja a razão de todo poeta ter em si um quê de sombrio, um hálito taciturno que tateia a noite com certa intimidade, a solidão com grande liberdade, e própria vida própria com respeito e severidade.

 

Curitiba, 17 de outubro de 2025.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Do Pecado e dos Prazeres

Pai, 
Tende piedade das mulheres apaixonadas
Porque as mulheres apaixonadas tem um querer
Um querer bem, um querer bem
um querer assim, apaixonado
Que quer que por elas se apaixonem
E casem
E sofram
E que comprem uma cozinha nova
Porque querem
Pai
Dá-me a esperança de que uma cozinha nova
Não seja o temeroso fim, pois sei que o fim
É coisa de quem começa, mas pai, te confesso
Essa cozinha não presta e esse fim nunca chega,
Acho que isso é um sinal de que comecei a ser
Adulto.
Adulto? O que isso quer dizer? Felicidade? Não sei.
Me ensina pai, ainda sou a mesma criança
Mesmo sendo adulto e fazendo tantas crianças
Que precisam de mães, que querem cozinhas,
Mesmo não cabendo tanto filho nesse mundo,
Mas sempre mais um neto no teu coração
Pai
Peço que escute minha oração
Embora saiba que seja de tantos filhos
Fruto de um nunca furto de tantos prazeres
Prazer não maior do que tenho ao saber
Que no fruto do meu pecado há um sorriso.
Enorme. Simplesmente porque um dia
Um homem e uma mulher pecaram
E se deliciaram com o pecado múltiplo,
Comum.
Contínuo.
Itinerante.
Vociverado em clamores que  um dia
Inevitavelmente
Inquietamente
Choradamente
Insistirão em dizer adeus.
Mas, Pai,
Tende piedade das mulheres que insistem
Das mulheres que nos querem e das mulheres
Que queremos. Tende piedade das mulheres
Que nos querem, e que insistem em nos querer.
Tende piedade porque mal sabem elas.
Mal elas sabem pai, que mal somos o que querem
Que não somos
Que não querem.
Tende piedade das mulheres que não sabem
E que nos querem, Pai, por não saber.
Não sabem o que somos
Não sabem o que queremos
Não sabem sequer o que querem.
Saudades das mulheres que não sabem o que querem, Pai,
Me deram tanto prazer.
E só as que não sabem são capazes,
Pois há tanta mulher sabendo tudo o que quer
Que já não quero saber o que quem quer o quê,
Tanto que chego a sentir diariamente saudades
Daquela mulher que sentia saudades
De uma maneira melancólica
Saudavelmente triste
Tão saudavelmente triste
Que chega a me dar saudade da tua saudade.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Descoisificação

Nos meus eus me desconheço
De quando em quando, quando
Não sou. Não sou, talvez quisesse
Ser, mas não sou, e como ser
Diante de tanto não, de tanto
Tanto, de tanta coisa coisificada?

É difícil ser qualquer coisa
Qualquer coisa que seja
Qualquer coisa que fosse
Descomplicada e sorridente
Que se reconhece entre coisas
E pessoas sorridentes e descomplicadas
O sorriso dado é gratuito, mas custa caro

Tenho indagado a cada minuto
Os vários por quês de cada por quê,
Eles sempre dão a mesma resposta:
Tic tac, tic tac, tic tac, tic tac
Melancólicos tics e tacs repetitivos
Um depois do outro, inconcretos
E disciplinados, nunca mudando
De ordem na minha desordem vaga.



segunda-feira, 3 de março de 2014

Coisa de Casa

Estou com vontade de escrever um poema
O maior e melhor poema do mundo,
Mas sou negro, gordo e fornicador.
Ninguém respeita um negro, gordo, fornicador,
 A menos que tenha 19 centímetros de pau,
Ou um centímetro a mais, ou dois. Mesmo assim
Ainda quero escrever um poema pulsante,
Cheio de veias, cheio de aquilo tudo que não pode ser
Porque não pode.
Mamãe não deixa
Mamãe não compra
Mamãe não quer



sexta-feira, 27 de setembro de 2013


Esperará no virá um dia a ser
pelo que não houve, sem saber
Que tudo que não houve foi,
por ser, por saber, por querer
que o que fosse, fosse
E se fosse, fosse, fosse fosse
No ter, no haver, no querer
No libertas que será tamem,
Num amém antes do almoço,
Fosse, eu, um velho moço,
Fosse eu também esse bom moço
Diria eu: “Quisera eu viver nesse
Alvoroço”. E se soubesses
Ah, soubesses tu que me roubara
A alma, antes mesmo de que pudesse
A poesia fazer parte do teu nunca,
Quisera eu que pudesses ser comigo
Antes. E se não posso ser contigo
Esse teu anterior a mim
Peço que não possas envelhecer,
Que não consigas, nunca, envelhecer,
Pois o tempo que tenho mora
Na ternura desse tempo que tenho dela.