quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Do Pecado e dos Prazeres

Pai, 
Tende piedade das mulheres apaixonadas
Porque as mulheres apaixonadas tem um querer
Um querer bem, um querer bem
um querer assim, apaixonado
Que quer que por elas se apaixonem
E casem
E sofram
E que comprem uma cozinha nova
Porque querem
Pai
Dá-me a esperança de que uma cozinha nova
Não seja o temeroso fim, pois sei que o fim
É coisa de quem começa, mas pai, te confesso
Essa cozinha não presta e esse fim nunca chega,
Acho que isso é um sinal de que comecei a ser
Adulto.
Adulto? O que isso quer dizer? Felicidade? Não sei.
Me ensina pai, ainda sou a mesma criança
Mesmo sendo adulto e fazendo tantas crianças
Que precisam de mães, que querem cozinhas,
Mesmo não cabendo tanto filho nesse mundo,
Mas sempre mais um neto no teu coração
Pai
Peço que escute minha oração
Embora saiba que seja de tantos filhos
Fruto de um nunca furto de tantos prazeres
Prazer não maior do que tenho ao saber
Que no fruto do meu pecado há um sorriso.
Enorme. Simplesmente porque um dia
Um homem e uma mulher pecaram
E se deliciaram com o pecado múltiplo,
Comum.
Contínuo.
Itinerante.
Vociverado em clamores que  um dia
Inevitavelmente
Inquietamente
Choradamente
Insistirão em dizer adeus.
Mas, Pai,
Tende piedade das mulheres que insistem
Das mulheres que nos querem e das mulheres
Que queremos. Tende piedade das mulheres
Que nos querem, e que insistem em nos querer.
Tende piedade porque mal sabem elas.
Mal elas sabem pai, que mal somos o que querem
Que não somos
Que não querem.
Tende piedade das mulheres que não sabem
E que nos querem, Pai, por não saber.
Não sabem o que somos
Não sabem o que queremos
Não sabem sequer o que querem.
Saudades das mulheres que não sabem o que querem, Pai,
Me deram tanto prazer.
E só as que não sabem são capazes,
Pois há tanta mulher sabendo tudo o que quer
Que já não quero saber o que quem quer o quê,
Tanto que chego a sentir diariamente saudades
Daquela mulher que sentia saudades
De uma maneira melancólica
Saudavelmente triste
Tão saudavelmente triste
Que chega a me dar saudade da tua saudade.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Descoisificação

Nos meus eus me desconheço
De quando em quando, quando
Não sou. Não sou, talvez quisesse
Ser, mas não sou, e como ser
Diante de tanto não, de tanto
Tanto, de tanta coisa coisificada?

É difícil ser qualquer coisa
Qualquer coisa que seja
Qualquer coisa que fosse
Descomplicada e sorridente
Que se reconhece entre coisas
E pessoas sorridentes e descomplicadas
O sorriso dado é gratuito, mas custa caro

Tenho indagado a cada minuto
Os vários por quês de cada por quê,
Eles sempre dão a mesma resposta:
Tic tac, tic tac, tic tac, tic tac
Melancólicos tics e tacs repetitivos
Um depois do outro, inconcretos
E disciplinados, nunca mudando
De ordem na minha desordem vaga.



segunda-feira, 3 de março de 2014

Coisa de Casa

Estou com vontade de escrever um poema
O maior e melhor poema do mundo,
Mas sou negro, gordo e fornicador.
Ninguém respeita um negro, gordo, fornicador,
 A menos que tenha 19 centímetros de pau,
Ou um centímetro a mais, ou dois. Mesmo assim
Ainda quero escrever um poema pulsante,
Cheio de veias, cheio de aquilo tudo que não pode ser
Porque não pode.
Mamãe não deixa
Mamãe não compra
Mamãe não quer



sexta-feira, 27 de setembro de 2013


Esperará no virá um dia a ser
pelo que não houve, sem saber
Que tudo que não houve foi,
por ser, por saber, por querer
que o que fosse, fosse
E se fosse, fosse, fosse fosse
No ter, no haver, no querer
No libertas que será tamem,
Num amém antes do almoço,
Fosse, eu, um velho moço,
Fosse eu também esse bom moço
Diria eu: “Quisera eu viver nesse
Alvoroço”. E se soubesses
Ah, soubesses tu que me roubara
A alma, antes mesmo de que pudesse
A poesia fazer parte do teu nunca,
Quisera eu que pudesses ser comigo
Antes. E se não posso ser contigo
Esse teu anterior a mim
Peço que não possas envelhecer,
Que não consigas, nunca, envelhecer,
Pois o tempo que tenho mora
Na ternura desse tempo que tenho dela.

terça-feira, 16 de abril de 2013

De vez em quando


Não perco nada
Não ganho nada
Apenas vivo
Num quase nada
Tão de repente
Que de repente
Um sonho tenho
Nem sempre bom
Às vezes triste
Que me transtorna
Ou me apaixona
Por ser de nada
Muito obrigado
Quisera sempre
Num por favor
Sonhar um dia
Um vez em quando
De quando em quando
Em que não fosse
O mesmo sempre
Esquecimento
De uma lembrança
Tão prazerosa
Pecaminosa
Que sempre diz
Ao meu ouvido
É proibido
Desimpedido
Seria tão
Tão de repente
Que outrora o sempre
Seria sempre
Um dia lindo


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Se quiser sentir



Se quiser e sentir
E somente se quiser falar comigo, e sentir isso,
Olhe para o céu. Talvez verá estrelas, talvez
Verá o fundo azul do dia, talvez o branco
Ou o cinza escuro das nuvens, prestes a chover.
Se vir esse cinza quase precipitante, sim, sinta
Sinta o que um dia, talvez, tenha sentido
Se um dia sentiu, se me sentiu por perto, pois
Não sei se estarei no céu, como também
Não sei, sinceramente, se estarei no inferno.
Não pense em Jesus ou no Diabo,
Mas pense nas nuvens, pois sei que não há,
Nem nunca houve nada que me pudesse
Me fazer mais presente do que uma boa chuva
Incandescente, dessas que perjuriam
Papai do céu, daquelas que mesmo
Quem vive na seca fala mal, por que é má;
Sim, para eles é má, assim como fui mau
Para alguns, bom para alguns, insípido
Para alguns. Inodoro, para alguns
Invisível para outros tantos alguns, mas fui,
E fico feliz por ter sido, simplesmente porque fui.
Insípido, inodoro ou invisível, fui, como a chuva
Para muitos, que, para mim, nunca foi inodora.
Por essas e outras, te peço que me pense
Como a chuva, que só não é inodora para quem sente,
Só não é invisível para quem vê,
Só não é insípida para quem sabe o gosto da chuva.
E se você não sabe o gosto que a chuva tem,
Se um dia sentir, quando sentir, saiba,
Estarei lá, estive lá, e também fui isso que você sente.