sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Janela do Desassossego


ou

Memórias acerca de uma bruxa mestiça, esquecida de mim, que dormiu comigo em East End, Salem e outros cantos da Nova Inglaterra, mas desapareceu antes que eu acordasse.

ou

Acho que estou enlouquecendo, se é que já não é tarde para achar qualquer coisa relativa à loucura.

ou

Madrugada desgraçada

Da janela, o desassossego.

É noite, e a neblina embranquece

O horizonte, por onde vagam idéias vagas

Dolorosamente demoradas.

A brisa noturna arrasta a bruma,

Assim como a idéia de ti

Sopra de mim todas as palavras.

Então, o silêncio; o trêmulo silêncio

Ateu de outra vida, em que as lágrimas

Secavam ao vento, e a monotonia

Era uma amiga triste e esquecida,

Praticante de uma bruxaria católica

Uma secreta bruxaria católica

Melancólica e aflita, desconhecida

Do meu cotidiano fantástico, mas presente,

Sempre alheia ao nada mais

Porque é o que é, vive o que é

Não importando o que se possa ser

Ou ter senão o que se tem e o que se é.

E assim, não digo. Permaneço inaudível

A mim mesmo e a qualquer um que não me ouça

Não existo em barulhos, nem em gemidos

Nem em sussurros, como um verso desistido,

Incompleto pela dor gerada ao ser escrito

Ou pela preguiça da dor de escrevê-lo.

E deixo-me no presente imóvel

Dos gêmeos Esquecimento e Lembrança.

E, calado, permaneço deixando-me

Soprar as palavras o vento noturno,

Saliente e promíscuo e insalubre,

E, de quando em quando, incessante

E impaciente e melindroso e mau,

Com a maldade de todo ser melindroso

E impaciente e, por isso, insalubre.

A névoa antecedeu a chuva

(que cai, como sempre)

Trazendo consigo o lamento da noite

Diante dessa coexistência impossível.

Há, contudo, um poste,

(sempre há um poste)

E sobre ele, uma lâmpada.

Certa alegria chega a ser sentida

Em meio a minha existência inaudível.

Essa luz revela testemunhas decadentemente

Temporárias do silêncio que se resulta

Em palco para minha multidão de gotículas.

Ponta Grossa, 22 de fevereiro de 2012


Um comentário:

Anônimo disse...

Give your heart and soul to me and life will always be la vie en rose
(L. Armstrong)