quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Escrevo como quem morre.
Pouco a pouco,
Palavra após palavra,
Morro no silêncio
Em que balbucio mentalmente
Os versos que me consomem.
Morro de grão em grão
Na areia que escorre
E registro o tempo para
Que ele não sofra o passar.
Morro diariamente
Para que todos sigam
Vivendo temporariamente,
Como em um rascunho rabiscado,
Engavetado, incompleto,
À espera daquele verso tardio.
As vezes anos esperando.
Às vezes não chega
E se deixa esquecido,
Mas não morto
Pois, um dia, abre-se
A gaveta e o papel lá,
Borrado do café daquela noite,
Ou do vinho, fiel amigo,
Ou com as lágrimas.
Essas não tardam.
Então, descobre-se um pouco
Mais morto pelo que passou
Ao viver aquela vida novemente.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Entre Leões e Tartarugas
A vida é aquela tarde deitado na grama observando nuvens. Uma imensa tela azul em que subitamente reconhecemos um leão branco, gigantesco, abrindo ferozmente a sua boca. De repente, o leão se transforma numa pacata tartaruga, que com o soprar do vento vira hipopótamo, depois cachorro, depois serpente.
A vida é aquele exato momento em que tudo se transforma com o tempo. Ela é aquela lágrima que para virar sorriso só precisa de um pouco de vento. A vida é a lembrança daquele tempo, pois, não, se esqueça, não se pode agarrar as nuvens.
A vida é aquela tarde observando nuvens que de repente anoitece. Sim, todas as tardes anoitecem. No fundo, no fundo, sabemos que aquelas nuvens não eram serpentes, nem leões, nem tartarugas. A vida é essa coisa disforme que parece tudo que nossos sonhos deixam parecer. E se o que parece não parece bom, deixe o sonho acontecer, deixe que o vento sopre antes que anoiteça.
Porto Príncipe, 20 de setembro de 2011
sábado, 13 de agosto de 2011
Amanhecendo
De volta ao velho exercício. Escrever, escrever, escrever até chegar onde quero. Queria escrever uma história sobre ela, mas sequer sei seu nome. Ela apareceu pela primeira vez há uns três ou quatro anos. Eu estava num relacionamento com uma mulher que até hoje me custa caro. Amigos me dizem Putz, cara, pisou na bola, hein! Aquela era para casar, como se casar fosse um objetivo de vida necessário a todos os homens. Não penso nisso, o que não quer dizer que nunca me casarei, mas simplesmente não penso. Se acontecer, aconteceu, como tudo que acontece na vida. Meus próprios contos acontecem. Estou lá, a fumar um cigarro, tomar minha vodca ou meu gin, e acontece: a idéia. Depois é só deixar que ela aconteça quando se está sóbrio. Saliento a sobriedade, pois já perdi um sem número de histórias e poemas porque não conseguia lembrar o que tinha pensado. Se não me casei com essa que era para casar, foi por causa da sobriedade, e dessa que sequer sei o nome. Para dizer a verdade, lhe dei um nome, e menti para minha ex que ela era morena. Não sei por que, mas toda morena morrem de ciúmes de qualquer loira, por mais sem graça que seja. As loiras pertencem mesmo ao inconsciente humano, principalmente feminino. Se ela soubesse da minha queda pelas ruivas, nossa vida em comum teria acabado muito antes das reclamações pelos olhares dedicados à beleza alheia, embora a dela fosse a mais perfeita que já tenha visto em uma mulher. Ela nunca entendeu, nunca acreditou, talvez pelas loiras atormentando seu inconsciente de mulher morena. E foi numa dessas que a derradeira queda aconteceu, assim como todas as outras coisas que acontecem. Chris aconteceu. Loira. Linda. Desconhecida. Fomos apresentados três vezes no mesmo dia, inclusive meu chefe, então um cobrador de ônibus bonachão, ex-radialista, que nas horas vagas banca uma de espírita. Eu e a moreninha andávamos de mãos dadas, como manda o protocolo, quando ela passou. Olhei. Abriu-se o cadafalso. Esse olhar me custou caro, quase cem a garrafa, e foram muitas. Pelo menos não tinha o gasto semanal que o protocolo manda quando se está num relacionamento sério e de boas intenções. A moreninha me custava bem mais que isso por semana. É certo que me embriagava também, mas não me entendia como o vinho, a vodca e o gin me entendem.
Chris foi um nome que lhe dei por nunca ter sabido o verdadeiro. Achei melhor que Natália, seu primeiro nome fictício. Seus nomes foram dados baseados em mulheres reais e imaginárias a ela antecedentes, loiras, por certo. Reais demais para comporem minha ficção, que se abandona ensimesmada nos braços maciços dessa fumaça morena que me preenche a solidão; uma fumaça pequena, impassível à realidade construída com pequenos pedaços de sonhos sonhados continuadamente, como numa novela televisiva, mas sem final. Suas aparições episódicas não são diárias, não seguem um programa, pegam o espectador desprevenido, por isso são tão devastadoras. Sempre estive certo de que a masturbação é o auge da experiência ficcional humana, mas os sonhos que o tempo trouxe me fazem acreditar que a verdadeira ficção está na vida diária, nas negações que nos permitimos, nas ruivas ruivas pelas quais somos obcecados.
domingo, 7 de agosto de 2011
A mentira daqueles que não usam sinos para anunciar os seus pecados
Existe uma devoção enigmática
No perdão. Uma complexidade um tanto
Rara e incondizente em quem pratica
Hierarquizando pecadores e santos
Não menos rara é a devoção dos pecadores
Que, à certeza do perdão, repetidamente
Pecam. Pecam purificados por louvores
E pregam a prece pecaminosa: mentem
Mentem ao púlpito, ao povo, a si mesmos
Mentem. E, no auge da mentira, novamente
Mentem, santificam-se, até curam enfermos
Assim, em ritos pagãos, curandeiramente
Pecam pelos pecadores que nos tornamos
Ao ouvi-los quando mentem, mentem, mentem.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Sobre como as madrugadas caribenhas...
Era você ali presente naquele cheiro de areia salgada que se prolongava pelos caminhos diários. Um aroma que me palpitava as pálpebras num surto frenético de sobriedade que me tragava a cada suspiro, lembrando-me de um eu inexistente, distante de mim, desconhecido de mim, irreconhecível pelo ser que um dia foi; envelhecido pelo tempo passado, pelas histórias passadas, por tudo que não se passa, pelo que passou. O mal da saudade não é corroer o ser que sente, mas fazê-lo sobreviver quando os demais sentimentos não têm sentido.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Tratamento
Não se trata de loucura
De verdades ou mentiras
Não se trata de quando
Não se trata de onde
Não se trata de doença
Ou de uma cura desnecessária
Ainda que necessária
Não se trata de cura
Não se trata de “Por que a vida tem que ser assim?”
Nem de “Por que eu?”
Não foi “Porque não tinha que ser”
De “quando for da vontade Dele”
Não se trata disso
Não se trata daquilo
Não se trata
Simplesmente não se trata.
De inúmeras coisas se trata
Trata-se do que é essencial
De pessoas essenciais
E de toda a essência
Trata-se de construir o verbo
Inventar a vida
E destruir tudo o que não há
Trata-se de haver
De viver porque é assim que tem que ser
Porque não tem hora marcada para isso
Porque se depende de tudo isso
Independentemente
Inconscientemente
Instantaneamente
Insonemente
Trata-se
Trate-se
Trate-me
Curitiba, 25 de maio de 2009
Ela fez aniversário escondida entre coisas que escrevi há muito tempo. E de repente ela me chama naquele aroma quente que me delicia o paladar imaginário, me enche os olhos de uma saudade cristalizada e as mãos de um fervor ensurdecido. Port au Prince. 30 de maio de 2011.
sábado, 21 de maio de 2011
Vida Selvagem
Mas não foi isso que me fez largar a Elena. Gostava dela. Belas pernas. Toda em cima. Delicada. Cuidava de mim. Segundo os manuais, os maconheiros faziam parte de Um grupo de seções necessárias para que o relacionamento saudável do casal seja mantido. Homens e mulheres são diferentes por natureza, e mesmo que você esteja em um relacionamento homossexual, seu parceiro te completa, é a outra metade, mas lembre: ele não é você! Por isso, caro leitor, entenda que ceder é necessário para a manutenção da sua vida conjugal em um patamar estável, sem dificuldades maiores que a vida a dois já é capaz de proporcionar. Não dá para aturar esse tipo conselho. Minha vida com ela estava me matando. Jornais de domingo são um saco, cheios dessas balelas escritas por viadinhos infelizes e solteironas carentes. Não fosse por pequenos detalhes como Mesmo que você esteja em um relacionamento homossexual, as seções Viva Melhor, Viver Bem, Qualité e tantas outras carregadas dessas estórias seriam cartilhas católicas para o bom comportamento matrimonial. Não éramos casados legalmente, muito menos na Igreja. Eu cedi enquanto pude, mas não aguentei as explicações sobre o que eu queria dizer nos meus poemas e como ela se sentiu ofendida com aquele conto, se viu na personagem. Você não precisa parar de fumar, apenas fume menos, eu ouvia. Você não precisa parar de falar, apenas fale menos, pensava. É mais fácil largar um vício do que fazer uma mulher falar menos. Eu podia suportar isso, afinal, alguma razão deve haver para eu não ter nascido surdo. O verdadeiro problema era a floresta. Era legal andar no mato, transar no mato, cagar no mato. Insultar maconheiros durante seu contato amplificado com a natureza. Aquilo não era para mim. A minha floresta é cinza e poluída. A minha natureza é urbana com sirenes de Polícia e ambulâncias rompendo o silêncio imaginário de madrugada Curitibana. Estampidos. Buzinas. Marido e mulher quebrando o pau no apartamento da frente. Móveis sendo quebrados. Crianças chorando. Ônibus lotado. Terminais lotados. Minha vida selvagem era uma luta contra o caos cotidiano. Uma busca pelo silêncio onde ele era mais raro, por isso precioso. Antes de mudar para a casa dela, meu acampamento era no terceiro andar de um edifício antigo no subúrbio. Eu tinha o que eu precisava. Não faltavam animais silvestres na minha floresta. Eu era um bom vizinho, só não queria ser incomodado. Respeitava os répteis no estacionamento, os porcos no supermercado e os primatas nos elevadores. Uma vez ofereci pipoca, mas Minha mãe me falou para não aceitar nada de estranhos. Eu conhecia aquela menina desde que nasceu, agora eu era estranho. Talvez sempre tenha sido. Tentei não ser, ou pelo menos não parecer estranho de acordo com os manuais.
Foram dois anos com Elena. Adorava dormir abraçado as suas pernas. Sabia que seria difícil. Treinei antes de morarmos juntos. Ia à igreja aos domingos para me sentir um pouco mais religioso; homem sério; homem de família; homem de responsabilidades. Assim estava escrito, assim deveria ser. Fomos algumas vezes juntos depois. Porra, u ma cho ra dei ra do ca ra lho. Que gente é essa que chora ao invés de rezar? Parecia mais a remorso, arrependimento, que qualquer tipo de meditação ou devoção a um ser superior. Demonstrações dominicais de egoísmo santificado. Não adiantava trocar de igreja ou de bandeira. Só mudava o cheiro. Nas igrejas dos chiques os padres e pastores dos ricos queimavam incenso para os fiéis não perceberem a própria podridão. Pelo menos nas igrejas do subúrbio os sofrimentos pelos quais choravam eram mais honestos, se é que há honestidade ao chorar pelo sofrimento quando nada se faz para resolvê-lo, senão esperar a intervenção divina. Pelo menos Elena não era dessas. Foi bom voltar para minha barraca no terceiro andar da floresta cinza, sonorizada e poluída. Às vezes sinto falta da Elena. Carinhosa. Pernas adoráveis. Paciente. Tinha o tamanho certo para meu desejo. E o que falar do café que ela fazia? Ah, que café! Sinto mesmo falta daquele café.
