sábado, 8 de outubro de 2011

Flashback

    

Ela não tinha me visto. Não tinha como ter me visto ali, parado do outro lado da rua. Por isso, quando virou os olhos para mim, e me viu observando as marcas do tempo que passou, ficou estática. Havia tempo que não nos encontrávamos, mesmo que por acaso. A última vez foi quando numa dessas caminhadas noturnas à procura de um bar qualquer para tomar uma ou duas doses antes de caminhar de novo e dormir, a vi saindo de um lugar não muito familiar. Ela não costumava ir àquele tipo de ambiente. Como há pouco, ela não me viu parado do outro lado da rua. Entrou no carro com dois homens e uma mulher. Entendi o que se passava. Era um carro barato, de vidros escuros. Talvez tenha me visto ao partir, mas seu ânimo, seu sorriso etéreo e aquela falseada do salto ao andar por calçadas irregulares, comuns às mulheres que tentam disfarçar os efeitos da bebida, não me iludiram. Não creio que tenha me visto. Se me viu, fingiu-me desconhecido. Não posso dizer que não me importei. Voltei para casa sóbrio, deitei-me sóbrio, como há muito tempo não fazia. Perdi o sono, não sei se por causa do álcool que me faltou, ou se por causa da idéia, aquela maldita idéia fixa, aquela que matou Brás Cubas.

 

     Nunca fui dos mais ciumentos. Aprendi a ser com o tempo e com pessoas como ela. Por isso, quando a vi, fiquei parado. Pensei nos inúmeros passos cambaleantes, nos tantos sorrisos embriagados e sem sentido, nos inúmeros carros baratos de vidros escuros em que havia entrado. Esses carros, passos e sorrisos a haviam feito perder o brilho nos cabelos. É certo que os produtos químicos e os tratamentos para alisamento também tinham sua parcela de culpa. Estava de cabelos lisos. Desde aquela época tinha uma espécie de pavor do próprio aspecto, dos cabelos ondulados, das raízes negras que lhe acompanhavam no nariz, nos olhos e naquele andar compassado, pisado duro, na sua maneira de esbravejar quando eu chegava meio tonto em casa "Foi só uma cerveja depois do trabalho", não adiantava, nunca adiantou. Não há produtos, tratamentos ou pílulas contra o tempo passado na amargura. Não sou daqueles que se importa muito com isso; aceitei o tempo que passou como o gado que aceita o ferro quente no seu lombo, deixando-se marcado na pele, mostrando-se propriedade daquele que lhe dá diariamente um bocado de pasto. O tempo é meu pastor, ele me alimenta e me marca com seu ferro quente. Não me envergonho com suas marcas estampadas no meu rosto, no meu corpo, no meu coração, nem mesmo nessas palavras, pois é o tempo que me traz o verbo e o pensamento.

    

     Há mulheres que marcam a vida de um homem. Sei que, de alguma forma, marquei também a vida dela. Caso contrário, ela não teria ficado parada me olhando, me esperando atravessar a rua, talvez, como ela fez na morte do meu pai. Éramos muito ligados, ela sabia disso. Por isso foi ao seu velório. Não sei quem lhe contou, creio que uma das minhas irmãs. Mesmo depois de pararmos de nos falar, elas continuavam se falando. Falavam sobre mim, sei que falavam. Todas as vezes que nos víamos, minhas irmãs falavam sobre ela. Há entre as mulheres um tipo raro de conexão capaz de fazer o homem sofrer à distância. Sofri naquele dia. Ele foi um dos poucos amigos que tive na vida. Ela me abraçou. Fingiu um choro seco, creio que para me confortar. Permaneceu durante 35 minutos, me beijou a testa e partiu. Não esteve no enterro no dia seguinte. Aquele beijo ainda arde na lembrança, não sei se pela falsidade do choro, ou se pela saudade que me falseia. Ela não gostava do meu pai, detestava aquele jeito fanfarrão, de fala alta e um tanto bronco. Não queria que eu me desse aos vícios e aos jogos como ele. Ficava louca quando sentia no meu hálito o menor vestígio de álcool. Afastei-me de alguns amigos, mudei minhas rotinas, meus hábitos, abandonei manias e virtudes para lhe agradar. Mulheres. Nada basta. Você não liga mais para mim! Você não se importa com o que eu sinto! Você vai ver, vai ficar sozinho igual ao teu pai! Você não muda mesmo! E por aí vai, até que não vai mais, Chega! Para mim chega! Estou cansada disso tudo!

 

     Eu já estava cansado, o cansaço daquela vida já havia me consumido. Sua profecia acabou se concretizando: os amigos que abandonei por causa dela também me abandonaram. Provavelmente por causa de alguma esposa neurótica que via em mim uma má influência. Mulheres. Elas são assim mesmo. Ela acertou, exceto pelo tipo de jogo a que me entrego. O que para meu pai eram cartas, para mim são palavras. Um ônibus passou, mas depois de passar, ela não desapareceu, como nos filmes. Eu não estava delirando. Não tinha bebido naquele dia. Era cedo, embora nunca seja cedo demais para uma boa dose de gin. Continuamos nos olhando. Ela virou o rosto como quem procura no vazio uma razão para esquecer o presente. Eu era o presente e ela tentou me esquecer no vazio. Fiquei parado. Ela seguiu andando. Passos firmes. Sozinha. Não sorriu. Não entrou em nenhum carro barato de vidros escuros.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Vivo como escrevo,
Escrevo como quem morre.
Pouco a pouco,
Palavra após palavra,
Morro no silêncio
Em que balbucio mentalmente
Os versos que me consomem.
Morro de grão em grão
Na areia que escorre
E registro o tempo para
Que ele não sofra o passar.
Morro diariamente
Para que todos sigam
Vivendo temporariamente,
Como em um rascunho rabiscado,
Engavetado, incompleto,
À espera daquele verso tardio.
As vezes anos esperando.
Às vezes não chega
E se deixa esquecido,
Mas não morto
Pois, um dia, abre-se
A gaveta e o papel lá,
Borrado do café daquela noite,
Ou do vinho, fiel amigo,
Ou com as lágrimas.
Essas não tardam.
Então, descobre-se um pouco
Mais morto pelo que passou
Ao viver aquela vida novemente.






terça-feira, 20 de setembro de 2011

Entre Leões e Tartarugas

A vida é aquela tarde deitado na grama observando nuvens. Uma imensa tela azul em que subitamente reconhecemos um leão branco, gigantesco, abrindo ferozmente a sua boca. De repente, o leão se transforma numa pacata tartaruga, que com o soprar do vento vira hipopótamo, depois cachorro, depois serpente.

A vida é aquele exato momento em que tudo se transforma com o tempo. Ela é aquela lágrima que para virar sorriso só precisa de um pouco de vento. A vida é a lembrança daquele tempo, pois, não, se esqueça, não se pode agarrar as nuvens.

A vida é aquela tarde observando nuvens que de repente anoitece. Sim, todas as tardes anoitecem. No fundo, no fundo, sabemos que aquelas nuvens não eram serpentes, nem leões, nem tartarugas. A vida é essa coisa disforme que parece tudo que nossos sonhos deixam parecer. E se o que parece não parece bom, deixe o sonho acontecer, deixe que o vento sopre antes que anoiteça.


Porto Príncipe, 20 de setembro de 2011

sábado, 13 de agosto de 2011

Amanhecendo

 

     De volta ao velho exercício. Escrever, escrever, escrever até chegar onde quero. Queria escrever uma história sobre ela, mas sequer sei seu nome. Ela apareceu pela primeira vez há uns três ou quatro anos. Eu estava num relacionamento com uma mulher que até hoje me custa caro. Amigos me dizem Putz, cara, pisou na bola, hein! Aquela era para casar, como se casar fosse um objetivo de vida necessário a todos os homens. Não penso nisso, o que não quer dizer que nunca me casarei, mas simplesmente não penso. Se acontecer, aconteceu, como tudo que acontece na vida. Meus próprios contos acontecem. Estou lá, a fumar um cigarro, tomar minha vodca ou meu gin, e acontece: a idéia. Depois é só deixar que ela aconteça quando se está sóbrio. Saliento a sobriedade, pois já perdi um sem número de histórias e poemas porque não conseguia lembrar o que tinha pensado. Se não me casei com essa que era para casar, foi por causa da sobriedade, e dessa que sequer sei o nome. Para dizer a verdade, lhe dei um nome, e menti para minha ex que ela era morena. Não sei por que, mas toda morena morrem de ciúmes de qualquer loira, por mais sem graça que seja. As loiras pertencem mesmo ao inconsciente humano, principalmente feminino. Se ela soubesse da minha queda pelas ruivas, nossa vida em comum teria acabado muito antes das reclamações pelos olhares dedicados à beleza alheia, embora a dela fosse a mais perfeita que já tenha visto em uma mulher. Ela nunca entendeu, nunca acreditou, talvez pelas loiras atormentando seu inconsciente de mulher morena. E foi numa dessas que a derradeira queda aconteceu, assim como todas as outras coisas que acontecem. Chris aconteceu. Loira. Linda. Desconhecida. Fomos apresentados três vezes no mesmo dia, inclusive meu chefe, então um cobrador de ônibus bonachão, ex-radialista, que nas horas vagas banca uma de espírita. Eu e a moreninha andávamos de mãos dadas, como manda o protocolo, quando ela passou. Olhei. Abriu-se o cadafalso. Esse olhar me custou caro, quase cem a garrafa, e foram muitas. Pelo menos não tinha o gasto semanal que o protocolo manda quando se está num relacionamento sério e de boas intenções. A moreninha me custava bem mais que isso por semana. É certo que me embriagava também, mas não me entendia como o vinho, a vodca e o gin me entendem.

     Chris foi um nome que lhe dei por nunca ter sabido o verdadeiro. Achei melhor que Natália, seu primeiro nome fictício. Seus nomes foram dados baseados em mulheres reais e imaginárias a ela antecedentes, loiras, por certo. Reais demais para comporem minha ficção, que se abandona ensimesmada nos braços maciços dessa fumaça morena que me preenche a solidão; uma fumaça pequena, impassível à realidade construída com pequenos pedaços de sonhos sonhados continuadamente, como numa novela televisiva, mas sem final. Suas aparições episódicas não são diárias, não seguem um programa, pegam o espectador desprevenido, por isso são tão devastadoras. Sempre estive certo de que a masturbação é o auge da experiência ficcional humana, mas os sonhos que o tempo trouxe me fazem acreditar que a verdadeira ficção está na vida diária, nas negações que nos permitimos, nas ruivas ruivas pelas quais somos obcecados.

domingo, 7 de agosto de 2011

A mentira daqueles que não usam sinos para anunciar os seus pecados



Existe uma devoção enigmática
No perdão. Uma complexidade um tanto
Rara e incondizente em quem pratica
Hierarquizando pecadores e santos

Não menos rara é a devoção dos pecadores
Que, à certeza do perdão, repetidamente
Pecam. Pecam purificados por louvores
E pregam a prece pecaminosa: mentem

Mentem ao púlpito, ao povo, a si mesmos
Mentem. E, no auge da mentira, novamente
Mentem, santificam-se, até curam enfermos

Assim, em ritos pagãos, curandeiramente
Pecam pelos pecadores que nos tornamos
Ao ouvi-los quando mentem, mentem, mentem.



quarta-feira, 20 de julho de 2011

Sobre como as madrugadas caribenhas...

Sobre como as madrugadas caribenhas podem ser nocivas quando um aroma desencadeia uma cascata de lembranças de uma época amavelmente depositada naqueles sonhos que tentamos sonhar todas as noites.


Era você ali presente naquele cheiro de areia salgada que se prolongava pelos caminhos diários. Um aroma que me palpitava as pálpebras num surto frenético de sobriedade que me tragava a cada suspiro, lembrando-me de um eu inexistente, distante de mim, desconhecido de mim, irreconhecível pelo ser que um dia foi; envelhecido pelo tempo passado, pelas histórias passadas, por tudo que não se passa, pelo que passou. O mal da saudade não é corroer o ser que sente, mas fazê-lo sobreviver quando os demais sentimentos não têm sentido.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Tratamento




Não se trata de loucura
De verdades ou mentiras
Não se trata de quando
Não se trata de onde
Não se trata de doença
Ou de uma cura desnecessária
Ainda que necessária
Não se trata de cura
Não se trata de “Por que a vida tem que ser assim?”
Nem de “Por que eu?”
Não foi “Porque não tinha que ser”
De “quando for da vontade Dele”
Não se trata disso
Não se trata daquilo
Não se trata
Simplesmente não se trata.
De inúmeras coisas se trata
Trata-se do que é essencial
De pessoas essenciais
E de toda a essência
Trata-se de construir o verbo
Inventar a vida
E destruir tudo o que não há
Trata-se de haver
De viver porque é assim que tem que ser
Porque não tem hora marcada para isso
Porque se depende de tudo isso
Independentemente
Inconscientemente
Instantaneamente
Insonemente
Trata-se
Trate-se
Trate-me


Curitiba, 25 de maio de 2009

Ela fez aniversário escondida entre coisas que escrevi há muito tempo. E de repente ela me chama naquele aroma quente que me delicia o paladar imaginário, me enche os olhos de uma saudade cristalizada e as mãos de um fervor ensurdecido. Port au Prince. 30 de maio de 2011.