Não sou
Não sou
Não sou
Não sou há muito tempo
E quando tento, me perco
Entre revistas pornográficas
E comprimidos para dormir.
Se não me encontro é porque
Não há nada além desse
Contínuo preâmbulo exaustivo
Que acontece entre a vida
E o não ser, quando todo
Suicídio me parece tedioso
E a salvação um sonho intangível.
Não sou
Não sou
Não sou
Não sou
Não tenho tentado ser.
Dia após dia, não tenho sido
E é tão fácil não ser
Que sequer me percebo
Nesse meu haver sem ser.
Folheio dicionários à procura
De uma palavra que signifique
Sem saber que não há língua
Que suporte toda a existência
Necessária para ser humano
Sem ser patético ou incoerente.
Não há língua que traduza o silêncio
Insalubre dos que tentam ser
Ao mesmo tempo em que existem.
Resta, assim, o verso calado
Que há entre duas palavras
Resta o não dito, o pensado
A resposta a ser dada, mas era tarde
Resta tudo o que não tenho sido
Nessas horas em que tento não ser.
terça-feira, 29 de março de 2011
domingo, 27 de março de 2011
Qualquer coisa - Coisa qualquer
Vejo-te na moldura vernacular que a luz reproduz na minha janela. É meu quarto quase balzaquiano dizendo teu nome à luz que te chama entre as persianas. Teu sexo me chama num uivo de vento; Ainda que não saiba o que estás fazendo, talvez dormindo, talvez fazendo qualquer coisa que queria eu estar fazendo contigo a esta hora, mesmo que qualquer coisa fosse dormir, mesmo que qualquer coisa fosse estar, estar pensando no eu que se reproduz nas tuas mãos vazias, dedilhando uma mensagem ao telefone, mesmo que qualquer coisa fosse qualquer coisa a se pensar passadamente, mesmo que qualquer coisa fosse qualquer coisa, que não esquecimento.
sábado, 26 de março de 2011
Antigamente, o portão era trave
A pinha, a bola do meu sucesso
A vassoura facilmente se transformava
No cavalo ágil que me levava
Por entre muitas aventuras
De uma hora para outra, o bandido
Virava xerife, e um grave ferimento
Sempre sarava ao final da brincadeira,
Pois as armas não passavam de pedaços
De pau, que eram espadas e revólveres
Conforme o sabor da imaginação
Hoje, a trave é só uma passagem
A bola é sinal de sujeira
O cavalo limpa a casa
O bandido é bandido
E o xerife vive nos filmes de bang-bang
Os amigos já não se levantam
Se forem atingidos, pois as armas
Não são mais imaginárias

segunda-feira, 7 de março de 2011
Hérnia Social
Que há por ser vivido que já não tenha sido
Entre aspas, parêntesis ou travessão?
Diálogos de ontem, amores de anteontem
Repetições de um passado original
Que resta por dizer que já não tenha sido
Em sussurro, gemido, grito ou palavrão?
Mas só a foto é o fato que eles ouvem
Sorrindo ao fundo da coluna social.
Não se fala de amor ou algo parecido
Mas todos se parecem: risos sem ação
Comida já vencida que ainda comem.
À sombra do brilho de vida marginal
Amanhã serão como pão amanhecido
Ao lixo, pois não dizem, não vivem, não são.
Entre aspas, parêntesis ou travessão?
Diálogos de ontem, amores de anteontem
Repetições de um passado original
Que resta por dizer que já não tenha sido
Em sussurro, gemido, grito ou palavrão?
Mas só a foto é o fato que eles ouvem
Sorrindo ao fundo da coluna social.
Não se fala de amor ou algo parecido
Mas todos se parecem: risos sem ação
Comida já vencida que ainda comem.
À sombra do brilho de vida marginal
Amanhã serão como pão amanhecido
Ao lixo, pois não dizem, não vivem, não são.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Desencontro ao acaso

Desculpa-me pela hora
Sei que é tarde
Embora não saiba a que horas
Lerás essas linhas
Sei que é tarde, muito tarde
(Tarde demais?)
Mas não pude vir mais cedo
Ao teu encontro, estava tudo tão...
Tão congestionado
Tão confuso
Tão distante
Tão tudo
As ruas
As linhas
A vida estava ocupada
As mãos não tinham sentido
Os ônibus estavam lotados
Não havia trens naquela época
O sol superaqueceu o asfalto
Não se podia andar
Correr era impossível
Mas ainda que andasse
Ainda que corresse
Ainda que voasse
Seria tarde
Muito tarde
(Tarde demais?)
Sei que é tarde
Embora não saiba a que horas
Lerás essas linhas
Sei que é tarde, muito tarde
(Tarde demais?)
Mas não pude vir mais cedo
Ao teu encontro, estava tudo tão...
Tão congestionado
Tão confuso
Tão distante
Tão tudo
As ruas
As linhas
A vida estava ocupada
As mãos não tinham sentido
Os ônibus estavam lotados
Não havia trens naquela época
O sol superaqueceu o asfalto
Não se podia andar
Correr era impossível
Mas ainda que andasse
Ainda que corresse
Ainda que voasse
Seria tarde
Muito tarde
(Tarde demais?)
terça-feira, 20 de julho de 2010
XXIII - Sentimentos Sentidos, Sentidos e Sentimentos
Amo-te no aroma achocolatado
Com que decoras o ar que me cerca
Quando estás, e me deixa adormecido
No rastro invisível da tua ausência.
É um vazio de gosto que silencia
O olhar ante ao momento acontecido
E o vapor permanecido peca
Por fingir-se instante inacabado.
E de pensar-te assim, de hora em hora
Me bole um tremor anoitecido
Que me morde, mastiga e não devora.
No ar, a sombra de um riso quebradiço
Chora a brisa a varrer-te sem demora
Nos vapores do teu cheiro maciço
P.S.:Desculpa-me a demora. Sei que demorei, espero que não seja tarde.
Ainda continuo me perguntando se essa é a história, ou se apenas gosto disso. Na dúvida, sigo escrevendo.
domingo, 20 de dezembro de 2009
Desaconchego
Pego-me às estrelas a depositar
memórias, leito de todas as histórias
Que vivi à solidão da lua, do mar,
Do passo na rua que desce sem motivo.
Não sei se é dor ou saudade, ou dor da saudade,
Saudade que sinto do amor que te causei
Pois saudade é dor que se dói pela metade,
Dói à lua, ao mar, dói à rua em que passei.
Amar é um não saber sentir sem ter sentido.
Doída, doente, diariamente invade
A solidão da rua que desce ilusória
Pela madrugada ausente de abrigo
Um chorar amargo, vazio de tempo, arde
Na dor que na lembrança dói sem ter sentido
P.S.: You will never walk alone, but I will.
memórias, leito de todas as histórias
Que vivi à solidão da lua, do mar,
Do passo na rua que desce sem motivo.
Não sei se é dor ou saudade, ou dor da saudade,
Saudade que sinto do amor que te causei
Pois saudade é dor que se dói pela metade,
Dói à lua, ao mar, dói à rua em que passei.
Amar é um não saber sentir sem ter sentido.
Doída, doente, diariamente invade
A solidão da rua que desce ilusória
Pela madrugada ausente de abrigo
Um chorar amargo, vazio de tempo, arde
Na dor que na lembrança dói sem ter sentido
P.S.: You will never walk alone, but I will.
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