sábado, 27 de dezembro de 2008

Transformações



Você me dá segurança, disse ela. Eu nada disse, apenas fiquei ali, sentado no seu colo como de costume. Eu me sinto tão segura quando você está aqui comigo. Repetiu como se esperasse que eu complementasse com algo que lhe desse certeza de que eu já sabia disso, e a fizesse sentir a segurança que ela diz sentir ao meu lado. Não sei ao certo o que ela queria dizer com isso, por isso não disse nada, na verdade não precisava dizer nada.

Sempre pensei que ela só dissesse esse tipo de coisa para que eu me sentisse bem e lhe desse o carinho de que ela sente falta. Não sou muito presente, confesso; mesmo quando estou por perto, estou distante. Não sei onde estou a maior parte do tempo, não tenho tempo nem lugar exato. Queira acreditar ou não, sou daqueles homens que têm o que precisa, ou quase tudo: um carro, que, para dizer a verdade, não é nada demais, mas me leva para onde eu quero a maioria das vezes; dinheiro, não muito, mas o suficiente para sobreviver sem chorar as mágoas para estranhos ou amigos que nunca podem ajudar. Sou de poucos amigos, embora saiba que eles nunca podem ajudar, na maioria das vezes porque não querem, e sempre me procurarão quando precisarem de ajuda, mas gosto deles mesmo assim, acredito que por motivos muito maiores do que eles podem imaginar; não posso dizer que algo me falta, ao menos dentre as coisas que eu possa lhe dizer; mas mesmo não me faltando as coisas que para muitos faltam, persiste-me uma ausência de algo ou alguém desconhecido, uma vontade de não sei o quê, um sonho esquecido que eu queria muito poder lembrar, acho que era coisa boa, mas não consigo. Quando ela me disse aquilo, contudo, sabia que estava no seu colo, gosto de passar um tempo ali, dando a proteção que ela diz que dou. Não sei o que ela quis dizer com isso. Não entendo por que as grandes mulheres são sempre misteriosas. Não tenho dúvidas de que ela é grande, soube isso desde o primeiro momento em que a vi, foi há muito, muito tempo. A maioria das mulheres tem uma maneira comum de ser complicada, uma mania de sofisticação que acelera o tempo de uma maneira que uma semana ao seu lado parece absorver anos de sua vida. Foi assim com todas as mulheres que conheci, exceto ela. Sua maneira de se debruçar sobre o tricô durante as novelas não é nem um pouco agradável, irritante, para ser sincero, mas é o jeito dela, sei que não vou mudar nada, não há nada que eu possa, nem que eu queira fazer para mudá-la. Isso faz parte do mistério das grandes mulheres, as outras, as sofisticadamente complicadas, são tão mutáveis quanto uma larva de borboleta. A diferença entre as mulheres sofisticadas e a larva de borboleta, no entanto, é a naturalidade com que a larva se transforma, nasceu para a transformação, isso faz parte de sua natureza e só se transforma uma vez na vida. As mulheres não, se transformam o tempo todo; para conquistar, para dançar, para acasalar, casar, modificam-se de acordo com o período do ano, aniversários, natal, datas comemorativas e ciclo menstrual.

Por isso fiquei calado quando ela me disse você me dá segurança. Não sei por que, mas meu silêncio a incomoda. De fato, todas as mulheres que conheci reclamavam do meu silêncio. Às vezes eu queria ser uma mosquinha para entrar no seu pensamento e saber em que você tanto pensa, dizia ela. Tadinha, não sabe que as moscas, por menores que sejam, não entram no pensamento, mas não faz mal. O pensamento não é apenas a fonte de toda a vida, por vezes é um refúgio. Não há esconderijo melhor que o interior de si mesmo, um refúgio um tanto arriscado, o perigo de se perder e não encontrar a saída está sempre presente. Já perdi as contas de quantas vezes fiquei preso dentro de mim, fosse procurando a vida, fosse me escondendo, tanto que não sei mais se a distância cotidiana de tudo e de todos em que vivo é por opção ou falta dela, pois nem sempre a saída que encontro me leva à superfície, pelo contrário, sem me dar conta me vejo ainda mais fundo no labirinto onde tentei me esconder do mundo e acabei por me esconder de mim mesmo. É sempre assim, foi assim que cheguei aqui. Eu quero um bebê seu, disse-me ela com uma criança ao colo. É sempre assim, quando aparece um bebezinho pela casa sempre ouço esse tipo de coisa. Você só me desanima assim, nem tenho mais esperança de um dia ter no colo um nenenzinho seu.

Por maiores que sejam as mulheres, são mulheres, o instinto é imperdoável e incessante. Seu silêncio deitada ao meu lado era terminal, meu silêncio ao escutar eu quero um bebê seu foi por demais lacerante, e ela está cansada dos meus deletérios ensimesmados. Queria que ela soubesse que não é ela, não tem nada a ver com ela, não tem nada a ver com ninguém, simplesmente não tem nada a ver. É o nada, só o nada, mas ninguém entende o nada, apenas os bebês são importantes, só eles fazem a casa sorrir. Um bebê correndo pela casa, puxando a sua calça e gritando Papai, papai, chorando à espera do seu colo porque cortou o joelho correndo atrás do cachorro, mas eu nem tenho cachorro! Não gosto de cachorros, nada contra os bichinhos, acho animaizinhos muito fofos e inteligentes, mas deixar um cão ou qualquer outro bicho em casa, limitado aos limites que eu lhe der, é mais do que crueldade, mais do que sadismo, é divino, e se tem algo com que eu em nada me pareço é Deus. Ela continua deitada, cochilou no meu braço enquanto assistíamos Guerra e Paz. Adoro Tolstoi, o filme também é muito bom, ela não sabe, mas sou louco pela Audrey Hepburn, tenho uma foto dela no meu quarto, uma foto maravilhosa, seu rosto brando, seu olhar adocicado com aroma de terra molhada quando começa a chuva faz novelos de pensamentos se desenrolarem pelas minhas fantasias mais inocentes. Você é meu bebê, ela diz. Não entendo como um bebê pode proteger alguém, mas tudo bem, não discuto, já cansei de discutir, odeio discussões.

Ela dorme, calma e roucamente dorme, emite sons estranhos, os sons do tempo que passou, daquela criança que queria ver correndo pela casa, puxando a barra da minha calça, zanzando pelas pernas de todos, assoprando velas cumulativas a cada ano que se junta ao ano passado. Um bebezinho que a fizesse acordar de noite, que lhe desse assunto para conversar com as amigas, para falar enloladinho po que mama vai fazê papá pá agadá nenê, levando meu nome adiante. O instinto fala alto, mas ainda não o ouvi, tento, mas ainda não ouço. Talvez o que ela queira é um novo bebê para lhe proteger, um bebê que não seja tão distante quanto eu, um bebê ao seu lado, não somente no seu coração. No fundo, isso é o que todas as mulheres querem, mesmo as sofisticadas: um bebê para lhes proteger. Quem sabe quando eu encontrar a saída do meu labirinto.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Homem de Palavra



O homem é a palavra
A palavra própria, propriamente
Imprópria, alheia
A que é lembrada por ter sido
A que diz quando pensa
A que pensa quando dizem
A que pensa que dizem
A que escreve
E escreve à lápis

Se disso difere
É qualquer coisa
Entre a humanidade
E a existência.
É o que não é lembrado
É o que não foi
É o que não diz,
Apenas pensa
Apenas pensa e escreve
Escreve à caneta

Você tinha razão, meu caro
É impossível ser feliz sozinho
Mas é impossível amar acompanhado
Detesto não saber usar o lápis
Bem que tento
Mas a existência me tenta.
Às vezes, ter razão é detestável.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

XVI


Amo-te, minha amante desonesta
Seguro deste amor que te venero
Esqueço o esquecimento e persevero
Por ser a pouca vida que me resta

Se em vão nenhum amor é descoberto
Vivê-lo é mal preciso ao bem da vida
É dom, é dor, é sal sobre a ferida
É hóstia amarga se ausente o seu afeto

Mas bem melhor viver em vã ventura
A descobrir-se à noite descoberto
Por faltar calor, amor e aventura

Amar é dedicar-se à dura lida
De sonhar sem medo da amargura
Do sol raiar ao som da despedida

terça-feira, 21 de outubro de 2008

XVIII

Domingo é dia de ir para a chácara
Onde sou par de alguma coisa
Em um lugar mais arejado
Quero aproveitar, pois o resto é tanto resto
Que mal sei se sou alguém ou algo
Enquanto isso, uma vítima de incesto
Chora o irmão que se perdeu
Quando perdeu sua virgindade
Sou eu uma dessas pessoas
Apenas me vestindo diferente?
Apenas vivo diferente
Sou indiferente às pessoas como eu.
Não, este não é um poema de amor
Minha mãe não sabe que estou aqui
Não aconteço
Mas sei tudo que acontece
E acho isso o máximo.
Só há psicoterapia para coisas irrelevantes
Para o resto, só o mesmo método
Só o mesmo semblante desentendido
Não há problema além do meu
Além de mim, eu sou o problema desistido
Sem solução por não haver
Solução para a relevância
Eu queria que houvesse menas coisas
Mas não existe menas
Só as coisas são importantes.

XIV

Olha-me o homem por detrás do espelho
Olha-me desconhecido, num reflexo do eu
Que vive nele como lembrança à procura
De um passado. Sou estranho à imagem
Sem memória e não sei se sou figura
Ou sou palavra, se sou esse ou sou aquele
Olho sem saber se sou, como fosse ninguém
Não sei, ainda que me hesite a sombra de um pensamento
Uma resposta talvez me encontre quando questiono
Esses muitos ninguém que desconheço:
O que há por se sobrar no olhar do tempo?
Serei eu, serei retrato, serei ninguém
Sem barba, sem bigode, sem palavra?
E descubro que a dúvida me envelheceu a alma
Para que tanta pergunta, meu Deus?
É bem mais fácil aceitar o que me dizem
Diariamente me transformo de maneiras
Facilmente explicáveis pela medicina, psicologia
E outras tantas ciências que de nada servem
Senão para confortar quem não suporta a dúvida
E carece de um porquê para existir humanamente
Ainda assim, sobra a imagem, o eu e o ninguém
Para que tanta resposta, meu Deus?

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O Presente e o Passageiro

Você passa por mim, mas não os vestígios de sua passagem
É um perfume que me convida a seguir seus passos
Andar por seus caminhos, acompanhar suas andanças.
É um sorriso discreto dado em pensamento
E recebido com certa timidez também pelo meu.
Deixa no ar uma lembrança de algo não vivido,
Histórias não contadas porque você passou.
Do algum lugar de onde você veio desconheço
Mesmo a existência, mas sei que existe
Afinal, não era assombração ou figura qualquer
Criada pela imaginação dos solitários.
Você não esmaeceu, apenas passou. E assim tenho certeza
Que era real, como o sentimento instantâneo
Realizado, finito e concreto, passado quando você passou.

XIII


Se vivo como escrevo
É porque escrevo a vida
Pois é ela em si seu próprio ato
Tudo mais que haja por ser dito
É decorrente desse ato primeiro.
Amor, desamor, paixão, desencanto
Coisas da vida
Alegria, distância, tristeza, regresso
Coisas da vida
Presente, passado, caos, eternidade
Coisas da vida

Canto o que vive solitário
Sem compaixão ou simpatia
Conto a gente que vive engentilhada
Sem piedade ou arrependimento
Verso o homem que trabalha duramente
E também se seu salário é caridade
Escrevo o sereno dos que guardam carros
De quem amanhece e anoitece pela rua.
A rua em seu universo sem tempo
Com suas putas viçosas – mulheres da vida
Meninos em correria – “que vai ser hoje dotô”
Os carros que passam de janelas fechadas
Os carros que param de janelas abertas
Das modernidades do mundo antigo
Às velharias do mundo moderno
Há quem me diga escritor da pobreza
A esses, repito e contraponho
São coisas da vida

E se essa vida me apresenta alguma dama
Prontamente ela já vive em meu poema
Transpira sua candura pelos versos
Em que é traduzida alva e bela
Delicada, toca piano e é poliglota
À noite, respira meu fervor suado
E ama, e odeia, ri e chora com sinceridade
Dela sinto saudade se me esquece em minha escrita
Conto também as graças dos abençoados.
Ausente de sentimento, a fé dos infelizes
E a infelicidade dos desgraçados
Reservo-me também ao brilho do ouro
Deus, Diabo, Buda, terrorismo
E tudo mais que caiba na vida

Mas, sobretudo, escrevo a beleza
A beleza das coisas da vida
Com beleza as coisas feias, as coisas podres
As coisas más, as coisas duras da vida
E tão completamente que o amargo
Fica doce quando faço com beleza
Pois ela é tudo que de belo que existe
Mesmo que a vida não seja assim tão bela
Que o fim seja certo e cause espanto
Mas o fim é coisa de quem começa
E morrer é coisa da vida.