quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Ao Modo Alheio

Há uma sombra que não é minha

Na parede que não é minha.

Apesar da sombra, tudo é colorido.

O mundo é sempre colorido

Quando se vive a sombra.

Quando a sombra alheia

Se desenha na parede alheia.

O mundo colorido me é alheio,

Não que me faltem olhos

Não que me faltem cores

Não que me faltem paredes

Sobra-me o alheio

Sobra-me a sombra

Sobra-me tudo mais que não é:

A vida alheia na parede alheia,

A projeção de uma sombra

Que não vive por ser alheia,

Falta-me quando

Falta-me minha

Sobro-me alheio.

O clima na vizinhança é tenso.

Hospitais e albergues fechados.

Adoecer é caro,

Envelhecer é caro,

Morrer é caro.

A comida é cara,

Contudo, a vodca é barata.

Não alimenta, mas me faz

Imaginar paredes

Projetar minha própria sombra

Na parede própria

Sem tantos alheios.

A fumaça investigou meus instintos

E me encontrou devasso entre mulheres

Charutos baratos e palavras fáceis.

Charutos trazem palavras fáceis.

Tudo é fácil com charutos baratos

Menos a parede própria

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Esquinas e Sarjetas

Segue-me para dizer por onde ando.
Perco-me diariamente entre ruas conhecidas,
Vielas sem nome e pontes sem fim.
Por vezes, deixo migalhas de pão
Para encontrar o caminho de volta,
Mas cachorros e meninos sem nome
Sempre comem meus vestígios.
E fico sem sentido, perdido na civilização,
Entre a pobreza dos que não comem
E a miséria dos homens sem rastro.


sábado, 8 de outubro de 2011

Flashback

    

Ela não tinha me visto. Não tinha como ter me visto ali, parado do outro lado da rua. Por isso, quando virou os olhos para mim, e me viu observando as marcas do tempo que passou, ficou estática. Havia tempo que não nos encontrávamos, mesmo que por acaso. A última vez foi quando numa dessas caminhadas noturnas à procura de um bar qualquer para tomar uma ou duas doses antes de caminhar de novo e dormir, a vi saindo de um lugar não muito familiar. Ela não costumava ir àquele tipo de ambiente. Como há pouco, ela não me viu parado do outro lado da rua. Entrou no carro com dois homens e uma mulher. Entendi o que se passava. Era um carro barato, de vidros escuros. Talvez tenha me visto ao partir, mas seu ânimo, seu sorriso etéreo e aquela falseada do salto ao andar por calçadas irregulares, comuns às mulheres que tentam disfarçar os efeitos da bebida, não me iludiram. Não creio que tenha me visto. Se me viu, fingiu-me desconhecido. Não posso dizer que não me importei. Voltei para casa sóbrio, deitei-me sóbrio, como há muito tempo não fazia. Perdi o sono, não sei se por causa do álcool que me faltou, ou se por causa da idéia, aquela maldita idéia fixa, aquela que matou Brás Cubas.

 

     Nunca fui dos mais ciumentos. Aprendi a ser com o tempo e com pessoas como ela. Por isso, quando a vi, fiquei parado. Pensei nos inúmeros passos cambaleantes, nos tantos sorrisos embriagados e sem sentido, nos inúmeros carros baratos de vidros escuros em que havia entrado. Esses carros, passos e sorrisos a haviam feito perder o brilho nos cabelos. É certo que os produtos químicos e os tratamentos para alisamento também tinham sua parcela de culpa. Estava de cabelos lisos. Desde aquela época tinha uma espécie de pavor do próprio aspecto, dos cabelos ondulados, das raízes negras que lhe acompanhavam no nariz, nos olhos e naquele andar compassado, pisado duro, na sua maneira de esbravejar quando eu chegava meio tonto em casa "Foi só uma cerveja depois do trabalho", não adiantava, nunca adiantou. Não há produtos, tratamentos ou pílulas contra o tempo passado na amargura. Não sou daqueles que se importa muito com isso; aceitei o tempo que passou como o gado que aceita o ferro quente no seu lombo, deixando-se marcado na pele, mostrando-se propriedade daquele que lhe dá diariamente um bocado de pasto. O tempo é meu pastor, ele me alimenta e me marca com seu ferro quente. Não me envergonho com suas marcas estampadas no meu rosto, no meu corpo, no meu coração, nem mesmo nessas palavras, pois é o tempo que me traz o verbo e o pensamento.

    

     Há mulheres que marcam a vida de um homem. Sei que, de alguma forma, marquei também a vida dela. Caso contrário, ela não teria ficado parada me olhando, me esperando atravessar a rua, talvez, como ela fez na morte do meu pai. Éramos muito ligados, ela sabia disso. Por isso foi ao seu velório. Não sei quem lhe contou, creio que uma das minhas irmãs. Mesmo depois de pararmos de nos falar, elas continuavam se falando. Falavam sobre mim, sei que falavam. Todas as vezes que nos víamos, minhas irmãs falavam sobre ela. Há entre as mulheres um tipo raro de conexão capaz de fazer o homem sofrer à distância. Sofri naquele dia. Ele foi um dos poucos amigos que tive na vida. Ela me abraçou. Fingiu um choro seco, creio que para me confortar. Permaneceu durante 35 minutos, me beijou a testa e partiu. Não esteve no enterro no dia seguinte. Aquele beijo ainda arde na lembrança, não sei se pela falsidade do choro, ou se pela saudade que me falseia. Ela não gostava do meu pai, detestava aquele jeito fanfarrão, de fala alta e um tanto bronco. Não queria que eu me desse aos vícios e aos jogos como ele. Ficava louca quando sentia no meu hálito o menor vestígio de álcool. Afastei-me de alguns amigos, mudei minhas rotinas, meus hábitos, abandonei manias e virtudes para lhe agradar. Mulheres. Nada basta. Você não liga mais para mim! Você não se importa com o que eu sinto! Você vai ver, vai ficar sozinho igual ao teu pai! Você não muda mesmo! E por aí vai, até que não vai mais, Chega! Para mim chega! Estou cansada disso tudo!

 

     Eu já estava cansado, o cansaço daquela vida já havia me consumido. Sua profecia acabou se concretizando: os amigos que abandonei por causa dela também me abandonaram. Provavelmente por causa de alguma esposa neurótica que via em mim uma má influência. Mulheres. Elas são assim mesmo. Ela acertou, exceto pelo tipo de jogo a que me entrego. O que para meu pai eram cartas, para mim são palavras. Um ônibus passou, mas depois de passar, ela não desapareceu, como nos filmes. Eu não estava delirando. Não tinha bebido naquele dia. Era cedo, embora nunca seja cedo demais para uma boa dose de gin. Continuamos nos olhando. Ela virou o rosto como quem procura no vazio uma razão para esquecer o presente. Eu era o presente e ela tentou me esquecer no vazio. Fiquei parado. Ela seguiu andando. Passos firmes. Sozinha. Não sorriu. Não entrou em nenhum carro barato de vidros escuros.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Vivo como escrevo,
Escrevo como quem morre.
Pouco a pouco,
Palavra após palavra,
Morro no silêncio
Em que balbucio mentalmente
Os versos que me consomem.
Morro de grão em grão
Na areia que escorre
E registro o tempo para
Que ele não sofra o passar.
Morro diariamente
Para que todos sigam
Vivendo temporariamente,
Como em um rascunho rabiscado,
Engavetado, incompleto,
À espera daquele verso tardio.
As vezes anos esperando.
Às vezes não chega
E se deixa esquecido,
Mas não morto
Pois, um dia, abre-se
A gaveta e o papel lá,
Borrado do café daquela noite,
Ou do vinho, fiel amigo,
Ou com as lágrimas.
Essas não tardam.
Então, descobre-se um pouco
Mais morto pelo que passou
Ao viver aquela vida novemente.






terça-feira, 20 de setembro de 2011

Entre Leões e Tartarugas

A vida é aquela tarde deitado na grama observando nuvens. Uma imensa tela azul em que subitamente reconhecemos um leão branco, gigantesco, abrindo ferozmente a sua boca. De repente, o leão se transforma numa pacata tartaruga, que com o soprar do vento vira hipopótamo, depois cachorro, depois serpente.

A vida é aquele exato momento em que tudo se transforma com o tempo. Ela é aquela lágrima que para virar sorriso só precisa de um pouco de vento. A vida é a lembrança daquele tempo, pois, não, se esqueça, não se pode agarrar as nuvens.

A vida é aquela tarde observando nuvens que de repente anoitece. Sim, todas as tardes anoitecem. No fundo, no fundo, sabemos que aquelas nuvens não eram serpentes, nem leões, nem tartarugas. A vida é essa coisa disforme que parece tudo que nossos sonhos deixam parecer. E se o que parece não parece bom, deixe o sonho acontecer, deixe que o vento sopre antes que anoiteça.


Porto Príncipe, 20 de setembro de 2011

sábado, 13 de agosto de 2011

Amanhecendo

 

     De volta ao velho exercício. Escrever, escrever, escrever até chegar onde quero. Queria escrever uma história sobre ela, mas sequer sei seu nome. Ela apareceu pela primeira vez há uns três ou quatro anos. Eu estava num relacionamento com uma mulher que até hoje me custa caro. Amigos me dizem Putz, cara, pisou na bola, hein! Aquela era para casar, como se casar fosse um objetivo de vida necessário a todos os homens. Não penso nisso, o que não quer dizer que nunca me casarei, mas simplesmente não penso. Se acontecer, aconteceu, como tudo que acontece na vida. Meus próprios contos acontecem. Estou lá, a fumar um cigarro, tomar minha vodca ou meu gin, e acontece: a idéia. Depois é só deixar que ela aconteça quando se está sóbrio. Saliento a sobriedade, pois já perdi um sem número de histórias e poemas porque não conseguia lembrar o que tinha pensado. Se não me casei com essa que era para casar, foi por causa da sobriedade, e dessa que sequer sei o nome. Para dizer a verdade, lhe dei um nome, e menti para minha ex que ela era morena. Não sei por que, mas toda morena morrem de ciúmes de qualquer loira, por mais sem graça que seja. As loiras pertencem mesmo ao inconsciente humano, principalmente feminino. Se ela soubesse da minha queda pelas ruivas, nossa vida em comum teria acabado muito antes das reclamações pelos olhares dedicados à beleza alheia, embora a dela fosse a mais perfeita que já tenha visto em uma mulher. Ela nunca entendeu, nunca acreditou, talvez pelas loiras atormentando seu inconsciente de mulher morena. E foi numa dessas que a derradeira queda aconteceu, assim como todas as outras coisas que acontecem. Chris aconteceu. Loira. Linda. Desconhecida. Fomos apresentados três vezes no mesmo dia, inclusive meu chefe, então um cobrador de ônibus bonachão, ex-radialista, que nas horas vagas banca uma de espírita. Eu e a moreninha andávamos de mãos dadas, como manda o protocolo, quando ela passou. Olhei. Abriu-se o cadafalso. Esse olhar me custou caro, quase cem a garrafa, e foram muitas. Pelo menos não tinha o gasto semanal que o protocolo manda quando se está num relacionamento sério e de boas intenções. A moreninha me custava bem mais que isso por semana. É certo que me embriagava também, mas não me entendia como o vinho, a vodca e o gin me entendem.

     Chris foi um nome que lhe dei por nunca ter sabido o verdadeiro. Achei melhor que Natália, seu primeiro nome fictício. Seus nomes foram dados baseados em mulheres reais e imaginárias a ela antecedentes, loiras, por certo. Reais demais para comporem minha ficção, que se abandona ensimesmada nos braços maciços dessa fumaça morena que me preenche a solidão; uma fumaça pequena, impassível à realidade construída com pequenos pedaços de sonhos sonhados continuadamente, como numa novela televisiva, mas sem final. Suas aparições episódicas não são diárias, não seguem um programa, pegam o espectador desprevenido, por isso são tão devastadoras. Sempre estive certo de que a masturbação é o auge da experiência ficcional humana, mas os sonhos que o tempo trouxe me fazem acreditar que a verdadeira ficção está na vida diária, nas negações que nos permitimos, nas ruivas ruivas pelas quais somos obcecados.

domingo, 7 de agosto de 2011

A mentira daqueles que não usam sinos para anunciar os seus pecados



Existe uma devoção enigmática
No perdão. Uma complexidade um tanto
Rara e incondizente em quem pratica
Hierarquizando pecadores e santos

Não menos rara é a devoção dos pecadores
Que, à certeza do perdão, repetidamente
Pecam. Pecam purificados por louvores
E pregam a prece pecaminosa: mentem

Mentem ao púlpito, ao povo, a si mesmos
Mentem. E, no auge da mentira, novamente
Mentem, santificam-se, até curam enfermos

Assim, em ritos pagãos, curandeiramente
Pecam pelos pecadores que nos tornamos
Ao ouvi-los quando mentem, mentem, mentem.



quarta-feira, 20 de julho de 2011

Sobre como as madrugadas caribenhas...

Sobre como as madrugadas caribenhas podem ser nocivas quando um aroma desencadeia uma cascata de lembranças de uma época amavelmente depositada naqueles sonhos que tentamos sonhar todas as noites.


Era você ali presente naquele cheiro de areia salgada que se prolongava pelos caminhos diários. Um aroma que me palpitava as pálpebras num surto frenético de sobriedade que me tragava a cada suspiro, lembrando-me de um eu inexistente, distante de mim, desconhecido de mim, irreconhecível pelo ser que um dia foi; envelhecido pelo tempo passado, pelas histórias passadas, por tudo que não se passa, pelo que passou. O mal da saudade não é corroer o ser que sente, mas fazê-lo sobreviver quando os demais sentimentos não têm sentido.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Tratamento




Não se trata de loucura
De verdades ou mentiras
Não se trata de quando
Não se trata de onde
Não se trata de doença
Ou de uma cura desnecessária
Ainda que necessária
Não se trata de cura
Não se trata de “Por que a vida tem que ser assim?”
Nem de “Por que eu?”
Não foi “Porque não tinha que ser”
De “quando for da vontade Dele”
Não se trata disso
Não se trata daquilo
Não se trata
Simplesmente não se trata.
De inúmeras coisas se trata
Trata-se do que é essencial
De pessoas essenciais
E de toda a essência
Trata-se de construir o verbo
Inventar a vida
E destruir tudo o que não há
Trata-se de haver
De viver porque é assim que tem que ser
Porque não tem hora marcada para isso
Porque se depende de tudo isso
Independentemente
Inconscientemente
Instantaneamente
Insonemente
Trata-se
Trate-se
Trate-me


Curitiba, 25 de maio de 2009

Ela fez aniversário escondida entre coisas que escrevi há muito tempo. E de repente ela me chama naquele aroma quente que me delicia o paladar imaginário, me enche os olhos de uma saudade cristalizada e as mãos de um fervor ensurdecido. Port au Prince. 30 de maio de 2011.

sábado, 21 de maio de 2011

Vida Selvagem

Tentei, por algum tempo, levar uma vida saudável; Saudável, entenda-se aquele típico dia-a-dia inscrito em algum Manual Prático do Homem Moderno, em revistas de negócios cujas entrevistas com homens bem sucedidos sempre trazem uma fórmula para ser bom pai, bom marido, bom vizinho, bom amante e por aí vai. Tentei com Elena por dois longos anos. Caminhadas no parque aos domingos pela manhã. Milho aos pombos. Pipoca aos macacos, afinal a vida saudável era para mim, não para os outros animais. Trilhas intermináveis em florestas em que eu nunca havia estado. Acampamentos em montanhas. Verde, muito verde. Pássaros cantando o dia todo. Animais silvestres. O vento entre as árvores sussurrando palavras lúgubres de tempos passados, de tantos outros caminhantes por ali passados. Ar puro. Lugares interessantes. Paisagens interessantes. Paisagens. Paisagens. Paisagens. Não entendia direito como essas coisas funcionavam. Ainda não entendo. Andar durante horas e horas para, enfim, ver uma paisagem. Não sei se isso é senso aventureiro ou é um tipo de idéia que persiste em nossa civilização: estar em locais nunca antes desbravados, mares nunca d’antes navegados. Inocentemente descobrir novas terras, novas coisas, povos selvagens, espécimes desconhecidos, animais exóticos, como se nunca ninguém os tivesse visto, como se nunca ninguém houvesse pisado naquele lugar. Mania desse povo de se achar europeu. Pelo menos descobri porque Elena tinha pernas tão torneadas. Belas pernas. Bundinha firme como se tivesse vinte anos. Delícia. Lugares interessantes. Paisagens interessantes. O sexo na floresta era algo definitivamente quente. Apesar dos moquitos detonando minha bunda o tempo todo, das formigas nas minhas calças e cuecas e do medo de que uma cobra me picasse, era muito quente, mesmo quando chovia. Às vezes ficávamos na barraca. Quietinhos para ninguém ouvir, mas ninguém ligava. Seus amigos eram um bando de maconheiros. Conversávamos ao redor da fogueira ao final do dia, e sempre tinha um filho da puta que enrolava um baseado e passava de mão em mão. Se me oferecer essa merda faço você engolir isso aceso! Já fiz muito disso. Detesto essa gente: Maconha não faz mal. Devia ser legalizada. Sim, na puta que te pariu.
Mas não foi isso que me fez largar a Elena. Gostava dela. Belas pernas. Toda em cima. Delicada. Cuidava de mim. Segundo os manuais, os maconheiros faziam parte de Um grupo de seções necessárias para que o relacionamento saudável do casal seja mantido. Homens e mulheres são diferentes por natureza, e mesmo que você esteja em um relacionamento homossexual, seu parceiro te completa, é a outra metade, mas lembre: ele não é você! Por isso, caro leitor, entenda que ceder é necessário para a manutenção da sua vida conjugal em um patamar estável, sem dificuldades maiores que a vida a dois já é capaz de proporcionar. Não dá para aturar esse tipo conselho. Minha vida com ela estava me matando. Jornais de domingo são um saco, cheios dessas balelas escritas por viadinhos infelizes e solteironas carentes. Não fosse por pequenos detalhes como Mesmo que você esteja em um relacionamento homossexual, as seções Viva Melhor, Viver Bem, Qualité e tantas outras carregadas dessas estórias seriam cartilhas católicas para o bom comportamento matrimonial. Não éramos casados legalmente, muito menos na Igreja. Eu cedi enquanto pude, mas não aguentei as explicações sobre o que eu queria dizer nos meus poemas e como ela se sentiu ofendida com aquele conto, se viu na personagem. Você não precisa parar de fumar, apenas fume menos, eu ouvia. Você não precisa parar de falar, apenas fale menos, pensava. É mais fácil largar um vício do que fazer uma mulher falar menos. Eu podia suportar isso, afinal, alguma razão deve haver para eu não ter nascido surdo. O verdadeiro problema era a floresta. Era legal andar no mato, transar no mato, cagar no mato. Insultar maconheiros durante seu contato amplificado com a natureza. Aquilo não era para mim. A minha floresta é cinza e poluída. A minha natureza é urbana com sirenes de Polícia e ambulâncias rompendo o silêncio imaginário de madrugada Curitibana. Estampidos. Buzinas. Marido e mulher quebrando o pau no apartamento da frente. Móveis sendo quebrados. Crianças chorando. Ônibus lotado. Terminais lotados. Minha vida selvagem era uma luta contra o caos cotidiano. Uma busca pelo silêncio onde ele era mais raro, por isso precioso. Antes de mudar para a casa dela, meu acampamento era no terceiro andar de um edifício antigo no subúrbio. Eu tinha o que eu precisava. Não faltavam animais silvestres na minha floresta. Eu era um bom vizinho, só não queria ser incomodado. Respeitava os répteis no estacionamento, os porcos no supermercado e os primatas nos elevadores. Uma vez ofereci pipoca, mas Minha mãe me falou para não aceitar nada de estranhos. Eu conhecia aquela menina desde que nasceu, agora eu era estranho. Talvez sempre tenha sido. Tentei não ser, ou pelo menos não parecer estranho de acordo com os manuais.
Foram dois anos com Elena. Adorava dormir abraçado as suas pernas. Sabia que seria difícil. Treinei antes de morarmos juntos. Ia à igreja aos domingos para me sentir um pouco mais religioso; homem sério; homem de família; homem de responsabilidades. Assim estava escrito, assim deveria ser. Fomos algumas vezes juntos depois. Porra, u ma cho ra dei ra do ca ra lho. Que gente é essa que chora ao invés de rezar? Parecia mais a remorso, arrependimento, que qualquer tipo de meditação ou devoção a um ser superior. Demonstrações dominicais de egoísmo santificado. Não adiantava trocar de igreja ou de bandeira. Só mudava o cheiro. Nas igrejas dos chiques os padres e pastores dos ricos queimavam incenso para os fiéis não perceberem a própria podridão. Pelo menos nas igrejas do subúrbio os sofrimentos pelos quais choravam eram mais honestos, se é que há honestidade ao chorar pelo sofrimento quando nada se faz para resolvê-lo, senão esperar a intervenção divina. Pelo menos Elena não era dessas. Foi bom voltar para minha barraca no terceiro andar da floresta cinza, sonorizada e poluída. Às vezes sinto falta da Elena. Carinhosa. Pernas adoráveis. Paciente. Tinha o tamanho certo para meu desejo. E o que falar do café que ela fazia? Ah, que café! Sinto mesmo falta daquele café.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Pandora

E de repente acordamos com severos sintomas alcoólicos. A luz açoitando os olhos, a cabeça pesada, os pulmões constrangidos, a língua enrugada castigando o céu da boca. Mas não foi álcool, não dessa vez. Parecia real, mais real que essa sequência insonte de dia-tarde-noite, dia-tarde-noite, dia-tarde-noite, dia-tarde-noite que as pobras almas gorurosas insistem em chamar de realidade. Precisava de um trago todas as noites antes de dormir. Longe de ser um vício, ou remédio para uma mente viciada em solidão, era um analgésico para as atormentações da vida real.


Ela não fala a minha língua. Mesmo que falasse, não entenderia. As mulheres não entendem; por vezes, se obrigam a não entender para que a vida seja mais amena. Não falo de mulheres ignorantes, a ignorância não tem gênero, embora tenha muito mais sexo que a inteligência. Pessoas inteligentes gostam tanto de sexo quanto as ignorantes, mas, para essas, o sexo é a única coisa que lhes dá prazer. Não posso negar, naquela noite tive muito sexo; se trepar fosse esporte, ela seria medalhista. Ela merecia uma medalha, de fato, ainda que não fale a minha língua. Não estávamos competindo. Eu perderia. Que fôlego! Não sou do tipo que vira para o lado e dorme depois de uma boa metida. Tive que me esforçar. Ou virava para o lado e fingia dormir, ou passava a noite inteira tentando, tentando, tentando, tentando, tentando; claro, chega uma hora que a moral já não está tão alta, ainda mais perto dos trinta. Melhor parar que fazer feio, essa é minha política. Vide-se Pelé, parou no auge. O que dizer de nosso hermano? A persistência é o dom mais desgraçadodos fracassados.. não há um só gênio que não tenha persistido, mas eles eram geniais em sua persistência. Não sou gênio, para que insistir? Tenho pouca paciência, pavil curto, e ainda tinha que trabalhar no outro dia.


Forçosamente, virei para o lado e fingi dormir. Também não insisti muito nessa empreitada. Sou preguiçoso demais para lutar contra o sono. Foi arrepiante. Parecia real. Era real. Acho que foi o efeito da conversa. Ela não fala minha língua. Contar dos fantasmas que moram no meu guarda roupa foi demais para mim; estava nu sem a superficialidade que a Língua-Mãe nos permite sem parecermos falsos ou ignorantes, cujo único prazer na vida é o sexo, e talvez um cigarro silencioso durante o pós-operatório. Pensei que ela tinha morrido depois que os outros fantasmas (maiores e mais fortes) tinham invadido meu guarda roupas; ela estava lá, com seu Alô, alongado, desafinado e distante, como se estivesse dormindo, Pois é, eu estava. Desculpa, às vezes ainda me perco no fuso-horário. Foi foda. Esse tipo de contato com o além é sempre muito foda. Minha tia costumava me levar a terreiros de Umbanda para receber passes das entidades Tabagistas; não houve uma só vez que ão ficasse assustado. Porra, minha tia era louca, sem exagero. Uma bomba relógio psicopata de 54 anos com relógio zerado. Só não explodia por causa dos psicotrópicos do terreiro e dos anti depressivos. Devo confessar, a trilha sonora era nervosa; a batucada revelava um sangue mais negro que a melanina 50% que me cobria. Anos depois, num pagode na praia, encontrei uma nega que curtia essa onda Afro, Já paguei o que tinha que pagar. Sabia que são sete anos para terminar os trabalhos? Já paguei, mas quando rola um batuque desse meu pai me chama, às vezes dá uma recaída. Não estranhe se eu falar diferente contigo, quando ele vem, dizem que viro os olhos, falo línguas, minha voz engrossa. Não sei se foi a cerveja ou a fumaça, ou se minha mente é divertidamente poluída mesmo, mas fiquei excitado. A nega era das boas, de cortar quebrante no meio da lua minguante. Meu primeiro tesão cinematográfico foi assistindo O Exorcista. Acho que foi nessa época que meu sadismo floresceu. Aquela menina amarrada na cama, mexendo feito doida, dizendo Me bate, Me Bate, Me Bate, e o padrelouco para estufar a calcinha da possuída virou minha cabeça; e por falar nisso, tava doido para ver a nega girando a cabeça como no filme, mas não rolou. Não foi nada demais. Digo, foi normal, até reclamou dos meus tapas.


Agora já me acostumei às linguas estranhas, não teria mais graça. Meu exílio no estrangeiro autenticou a estranheza humana, em especial a feminina. Papito, Papito, Dá-me tu leche! Hard, daddy, Hard! O problema é que meus fantasmas são silenciosos. Permanecem lá, parados no meu armário. Caem junto com o colete com gola de peles esquecido (ou deixado?) que imaginariamente ainda guarda seu perfume. Se desdobra no par de bilhete de cinema, esquecidos no bolso. Nossa, faz mais de um ano que não lavo essa calça! Visto meus fantasmas na camisa que ela me deu, no boné que ela detestava, no amarelo das unhas que denunciou o cigarro, Você disse que tinha parado! Por isso, aquele Alô alongado me derrubou. Os fantasmas escorregaram do guarda roupas, cabiam agora na mala de viagem; Eu abri a mala. O fuso horário fou uma desculpa para quebrar a mudez recíproca, mas a língua empalideceu antes da próxima sentença. Ficamos mudos como antes. Detesto admitir, mas seu silêncio é minha língua materna.













sexta-feira, 29 de abril de 2011

Da tarde aos olhos amanhecidos

Ah, pequena dos olhos entardecidos
Por que quiseste anoitecer tão cedo
Antes que eu pudesse esquecer o medo
Que tenho de morrer e ser esquecido?

És a lembrança que ensejo, degredo
Embebecido de beleza, esquecido,
Como o bom amor, anoitecido cedo
Para que pudesse ser vivido

E de pensar no esquecimento, me pego
Lamentado por tudo já esquecido;
O escuro trágico a que me nego

Se recordar é a obra a que me entrego
És a lembrança resistente, aborrecida
Pelo tempo emudecido, surdo e cego

terça-feira, 29 de março de 2011

Monotonia poliglota do não ser

Não sou
Não sou
Não sou
Não sou há muito tempo
E quando tento, me perco
Entre revistas pornográficas
E comprimidos para dormir.
Se não me encontro é porque
Não há nada além desse
Contínuo preâmbulo exaustivo
Que acontece entre a vida
E o não ser, quando todo
Suicídio me parece tedioso
E a salvação um sonho intangível.
Não sou
Não sou
Não sou
Não sou
Não tenho tentado ser.
Dia após dia, não tenho sido
E é tão fácil não ser
Que sequer me percebo
Nesse meu haver sem ser.
Folheio dicionários à procura
De uma palavra que signifique
Sem saber que não há língua
Que suporte toda a existência
Necessária para ser humano
Sem ser patético ou incoerente.
Não há língua que traduza o silêncio
Insalubre dos que tentam ser
Ao mesmo tempo em que existem.
Resta, assim, o verso calado
Que há entre duas palavras
Resta o não dito, o pensado
A resposta a ser dada, mas era tarde
Resta tudo o que não tenho sido
Nessas horas em que tento não ser.

domingo, 27 de março de 2011

Qualquer coisa - Coisa qualquer

Vejo-te na moldura vernacular que a luz reproduz na minha janela. É meu quarto quase balzaquiano dizendo teu nome à luz que te chama entre as persianas. Teu sexo me chama num uivo de vento; Ainda que não saiba o que estás fazendo, talvez dormindo, talvez fazendo qualquer coisa que queria eu estar fazendo contigo a esta hora, mesmo que qualquer coisa fosse dormir, mesmo que qualquer coisa fosse estar, estar pensando no eu que se reproduz nas tuas mãos vazias, dedilhando uma mensagem ao telefone, mesmo que qualquer coisa fosse qualquer coisa a se pensar passadamente, mesmo que qualquer coisa fosse qualquer coisa, que não esquecimento.

sábado, 26 de março de 2011




Antigamente, o portão era trave
A pinha, a bola do meu sucesso
A vassoura facilmente se transformava
No cavalo ágil que me levava
Por entre muitas aventuras
De uma hora para outra, o bandido
Virava xerife, e um grave ferimento
Sempre sarava ao final da brincadeira,
Pois as armas não passavam de pedaços
De pau, que eram espadas e revólveres
Conforme o sabor da imaginação
Hoje, a trave é só uma passagem
A bola é sinal de sujeira
O cavalo limpa a casa
O bandido é bandido
E o xerife vive nos filmes de bang-bang
Os amigos já não se levantam
Se forem atingidos, pois as armas
Não são mais imaginárias

segunda-feira, 7 de março de 2011

Hérnia Social

Que há por ser vivido que já não tenha sido
Entre aspas, parêntesis ou travessão?
Diálogos de ontem, amores de anteontem
Repetições de um passado original

Que resta por dizer que já não tenha sido
Em sussurro, gemido, grito ou palavrão?
Mas só a foto é o fato que eles ouvem
Sorrindo ao fundo da coluna social.

Não se fala de amor ou algo parecido
Mas todos se parecem: risos sem ação
Comida já vencida que ainda comem.

À sombra do brilho de vida marginal
Amanhã serão como pão amanhecido

Ao lixo, pois não dizem, não vivem, não são.