E de repente acordamos com severos sintomas alcoólicos. A luz açoitando os olhos, a cabeça pesada, os pulmões constrangidos, a língua enrugada castigando o céu da boca. Mas não foi álcool, não dessa vez. Parecia real, mais real que essa sequência insonte de dia-tarde-noite, dia-tarde-noite, dia-tarde-noite, dia-tarde-noite que as pobras almas gorurosas insistem em chamar de realidade. Precisava de um trago todas as noites antes de dormir. Longe de ser um vício, ou remédio para uma mente viciada em solidão, era um analgésico para as atormentações da vida real.
Ela não fala a minha língua. Mesmo que falasse, não entenderia. As mulheres não entendem; por vezes, se obrigam a não entender para que a vida seja mais amena. Não falo de mulheres ignorantes, a ignorância não tem gênero, embora tenha muito mais sexo que a inteligência. Pessoas inteligentes gostam tanto de sexo quanto as ignorantes, mas, para essas, o sexo é a única coisa que lhes dá prazer. Não posso negar, naquela noite tive muito sexo; se trepar fosse esporte, ela seria medalhista. Ela merecia uma medalha, de fato, ainda que não fale a minha língua. Não estávamos competindo. Eu perderia. Que fôlego! Não sou do tipo que vira para o lado e dorme depois de uma boa metida. Tive que me esforçar. Ou virava para o lado e fingia dormir, ou passava a noite inteira tentando, tentando, tentando, tentando, tentando; claro, chega uma hora que a moral já não está tão alta, ainda mais perto dos trinta. Melhor parar que fazer feio, essa é minha política. Vide-se Pelé, parou no auge. O que dizer de nosso hermano? A persistência é o dom mais desgraçadodos fracassados.. não há um só gênio que não tenha persistido, mas eles eram geniais em sua persistência. Não sou gênio, para que insistir? Tenho pouca paciência, pavil curto, e ainda tinha que trabalhar no outro dia.
Forçosamente, virei para o lado e fingi dormir. Também não insisti muito nessa empreitada. Sou preguiçoso demais para lutar contra o sono. Foi arrepiante. Parecia real. Era real. Acho que foi o efeito da conversa. Ela não fala minha língua. Contar dos fantasmas que moram no meu guarda roupa foi demais para mim; estava nu sem a superficialidade que a Língua-Mãe nos permite sem parecermos falsos ou ignorantes, cujo único prazer na vida é o sexo, e talvez um cigarro silencioso durante o pós-operatório. Pensei que ela tinha morrido depois que os outros fantasmas (maiores e mais fortes) tinham invadido meu guarda roupas; ela estava lá, com seu Alô, alongado, desafinado e distante, como se estivesse dormindo, Pois é, eu estava. Desculpa, às vezes ainda me perco no fuso-horário. Foi foda. Esse tipo de contato com o além é sempre muito foda. Minha tia costumava me levar a terreiros de Umbanda para receber passes das entidades Tabagistas; não houve uma só vez que ão ficasse assustado. Porra, minha tia era louca, sem exagero. Uma bomba relógio psicopata de 54 anos com relógio zerado. Só não explodia por causa dos psicotrópicos do terreiro e dos anti depressivos. Devo confessar, a trilha sonora era nervosa; a batucada revelava um sangue mais negro que a melanina 50% que me cobria. Anos depois, num pagode na praia, encontrei uma nega que curtia essa onda Afro, Já paguei o que tinha que pagar. Sabia que são sete anos para terminar os trabalhos? Já paguei, mas quando rola um batuque desse meu pai me chama, às vezes dá uma recaída. Não estranhe se eu falar diferente contigo, quando ele vem, dizem que viro os olhos, falo línguas, minha voz engrossa. Não sei se foi a cerveja ou a fumaça, ou se minha mente é divertidamente poluída mesmo, mas fiquei excitado. A nega era das boas, de cortar quebrante no meio da lua minguante. Meu primeiro tesão cinematográfico foi assistindo O Exorcista. Acho que foi nessa época que meu sadismo floresceu. Aquela menina amarrada na cama, mexendo feito doida, dizendo Me bate, Me Bate, Me Bate, e o padrelouco para estufar a calcinha da possuída virou minha cabeça; e por falar nisso, tava doido para ver a nega girando a cabeça como no filme, mas não rolou. Não foi nada demais. Digo, foi normal, até reclamou dos meus tapas.
Agora já me acostumei às linguas estranhas, não teria mais graça. Meu exílio no estrangeiro autenticou a estranheza humana, em especial a feminina. Papito, Papito, Dá-me tu leche! Hard, daddy, Hard! O problema é que meus fantasmas são silenciosos. Permanecem lá, parados no meu armário. Caem junto com o colete com gola de peles esquecido (ou deixado?) que imaginariamente ainda guarda seu perfume. Se desdobra no par de bilhete de cinema, esquecidos no bolso. Nossa, faz mais de um ano que não lavo essa calça! Visto meus fantasmas na camisa que ela me deu, no boné que ela detestava, no amarelo das unhas que denunciou o cigarro, Você disse que tinha parado! Por isso, aquele Alô alongado me derrubou. Os fantasmas escorregaram do guarda roupas, cabiam agora na mala de viagem; Eu abri a mala. O fuso horário fou uma desculpa para quebrar a mudez recíproca, mas a língua empalideceu antes da próxima sentença. Ficamos mudos como antes. Detesto admitir, mas seu silêncio é minha língua materna.
