mesmo já acordados, mas fechamos os olhos querendo sonhar o mesmo sonho novamente, o sabor adocicado se transforma num isopor com pitadas de pimenta vermelha (calabreza) jogada sobre a massa branca na tentativa de dar àquele instante um gosto um pouco mais picante. Como uma fruta verde, um isopor com pimenta, ou perguntar ao florista se há tulipas disponíveis nesse verão tropical, o amor sempre foi uma ilusão que vale a pena.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Sobre como saborear amoras verdes
mesmo já acordados, mas fechamos os olhos querendo sonhar o mesmo sonho novamente, o sabor adocicado se transforma num isopor com pitadas de pimenta vermelha (calabreza) jogada sobre a massa branca na tentativa de dar àquele instante um gosto um pouco mais picante. Como uma fruta verde, um isopor com pimenta, ou perguntar ao florista se há tulipas disponíveis nesse verão tropical, o amor sempre foi uma ilusão que vale a pena.
quinta-feira, 1 de março de 2012
Sobre como começar uma separação involuntária
Quero te buscar naquela quarta feira, depois do trabalho, em que você, cansada, não quer ir a lugar nenhum, senão para a cama. Não se preocupe em se desculpar pelo atraso, depois da terceira vez te esperando na chuva, carrego sempre uma toalha para limpar o vidro embaçado do carro. Até coloquei uma bateria nova para poder escutar música enquanto você não chega, porque não queria empurrar o carro de novo; e quando chegar, te levo imediatamente para casa, vou fazer aquele chá de erva-doce, ou de malva, ou de frutas vermelhas que você adora. Não pensarei em sexo; por mais que eu te deseje tanto quanto nos primeiros dias, não pensarei em sexo. Sei que você vai dizer alguma coisa como “Desculpa, amor, estou destruída hoje” e vou dizer qualquer coisa como “tudo bem”, que sei que te vai pesar na consciência, principalmente porque, na verdade, vou ficar na sincera vontade de dizer “Deita no meu ombro, quero te fazer cafuné até você dormir, e talvez eu nem durma antes das duas da manhã, porque adoro te fazer cafuné até o sono me derrubar subitamente”, mas vou acabar ficando no “tudo bem” e te pesar involuntariamente na consciência; não que eu queira que você acorde pensando nos sintomas de infelicidade que tua ausência me trás, mas sei que você vai acordar pensando nisso. Acordarei odiando meu silêncio daquele ontem, mas não será por mal, é que a dúvida do não dizer sempre me incomoda, então não digo. Talvez você pense que eu só vá querer agradar, o que pioraria as coisas; nem sempre a sinceridade ajuda, o problema é que nunca sei quando falar uma verdade necessária ou quando calar palavras desnecessárias. Por isso, quando chega o sábado, faço aquele peixe com manjericão que não sei se você gosta mesmo, ou se na primeira vez que fiz você disse que adorou como que reconhecendo meu esforço; mas faço pensando na possibilidade de que você goste mesmo. Aprenderia outros pratos, se soubesse, mas não sei ao certo teu prato favorito. E de tanto tentar agradar, aquele “acho que ele tem outra” chegará a tua cabeça como um pensamento cancerígeno, porque todo mundo sabe que agrado demais é desconfiável, e “faz umas duas semanas que ele não me dá um beijo de verdade”. Nunca sei quando dar aquele beijo sem interromper o teu cansaço, mesmo que isso te fizesse querer esquecer o cansaço; e tentarei dar explicações sobre coisas que não fiz, e, sem querer, te farei chorar durante o banho sem saber que eu realmente tentei fazer o chá que te agrada, e o prato de que você gosta, simplesmente na tentativa de te fazer feliz.
Ponta Roça, 1 de março de 2012.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
A Janela do Desassossego
ou
Memórias acerca de uma bruxa mestiça, esquecida de mim, que dormiu comigo em East End, Salem e outros cantos da Nova Inglaterra, mas desapareceu antes que eu acordasse.
ou
Acho que estou enlouquecendo, se é que já não é tarde para achar qualquer coisa relativa à loucura.
ou
Madrugada desgraçada
Da janela, o desassossego.
É noite, e a neblina embranquece
O horizonte, por onde vagam idéias vagas
Dolorosamente demoradas.
A brisa noturna arrasta a bruma,
Assim como a idéia de ti
Sopra de mim todas as palavras.
Então, o silêncio; o trêmulo silêncio
Ateu de outra vida, em que as lágrimas
Secavam ao vento, e a monotonia
Era uma amiga triste e esquecida,
Praticante de uma bruxaria católica
Uma secreta bruxaria católica
Melancólica e aflita, desconhecida
Do meu cotidiano fantástico, mas presente,
Sempre alheia ao nada mais
Porque é o que é, vive o que é
Não importando o que se possa ser
Ou ter senão o que se tem e o que se é.
E assim, não digo. Permaneço inaudível
A mim mesmo e a qualquer um que não me ouça
Não existo em barulhos, nem em gemidos
Nem em sussurros, como um verso desistido,
Incompleto pela dor gerada ao ser escrito
Ou pela preguiça da dor de escrevê-lo.
E deixo-me no presente imóvel
Dos gêmeos Esquecimento e Lembrança.
E, calado, permaneço deixando-me
Soprar as palavras o vento noturno,
Saliente e promíscuo e insalubre,
E, de quando em quando, incessante
E impaciente e melindroso e mau,
Com a maldade de todo ser melindroso
E impaciente e, por isso, insalubre.
A névoa antecedeu a chuva
(que cai, como sempre)
Trazendo consigo o lamento da noite
Diante dessa coexistência impossível.
Há, contudo, um poste,
(sempre há um poste)
E sobre ele, uma lâmpada.
Certa alegria chega a ser sentida
Em meio a minha existência inaudível.
Essa luz revela testemunhas decadentemente
Temporárias do silêncio que se resulta
Em palco para minha multidão de gotículas.
Ponta Grossa, 22 de fevereiro de 2012

Diagnóstico do Feitiço após a leitura de um poema russo
Ando cansado dessa ressaca verbal
Que me apetece dia após noite
Nessa rotina estática que te faz
Gíria no meu verso metrificado.
Sempre me dei bem com Vladimir,
Mas entre a vodca e o tédio,
Prefiro morrer desse amor intedioso
Que me insatisfaz aprisionado
Num deleite inconstante
Desse ser que me paralisa
Num acontecimento presente
Desse ser apaixonado que me trai
Ritmicamente, me esquece nitidamente,
Mas que, existidamente, me completa
Em sua plenitude de existência.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Diálogos de um Esquizofrênico sobre as Vicissitudes Cotidianas
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Ao Modo Alheio
Há uma sombra que não é minha
Na parede que não é minha.
Apesar da sombra, tudo é colorido.
O mundo é sempre colorido
Quando se vive a sombra.
Quando a sombra alheia
Se desenha na parede alheia.
O mundo colorido me é alheio,
Não que me faltem olhos
Não que me faltem cores
Não que me faltem paredes
Sobra-me o alheio
Sobra-me a sombra
Sobra-me tudo mais que não é:
A vida alheia na parede alheia,
A projeção de uma sombra
Que não vive por ser alheia,
Falta-me quando
Falta-me minha
Sobro-me alheio.
O clima na vizinhança é tenso.
Hospitais e albergues fechados.
Adoecer é caro,
Envelhecer é caro,
Morrer é caro.
A comida é cara,
Contudo, a vodca é barata.
Não alimenta, mas me faz
Imaginar paredes
Projetar minha própria sombra
Na parede própria
Sem tantos alheios.
A fumaça investigou meus instintos
E me encontrou devasso entre mulheres
Charutos baratos e palavras fáceis.
Charutos trazem palavras fáceis.
Tudo é fácil com charutos baratos
Menos a parede própria
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Esquinas e Sarjetas
Perco-me diariamente entre ruas conhecidas,
Vielas sem nome e pontes sem fim.
Por vezes, deixo migalhas de pão
Para encontrar o caminho de volta,
Mas cachorros e meninos sem nome
Sempre comem meus vestígios.
E fico sem sentido, perdido na civilização,
Entre a pobreza dos que não comem
E a miséria dos homens sem rastro.
