Espera, espera enquanto componho teu sorriso em minha memória. Pensava Tibério, enquanto contemplava o semblante poligonal de Rachel, que não se cansava em cultivar sua paciência preguiçosa. Tinha uma aparência evidentemente poética. Aqueles olhos castanhos cor-da-tarde refletiam as inúmeras indagações, os inúmeros suspiros noturnos lançados ao absorto do espaço infinito pelos poetas anônimos sentados solitários aos bancos de praça, às escadarias das catedrais espalhadas de vila em vila, condensando um deus vivo em palavras mortas. Carregada à leveza da brisa primaveril, a planície caleidoscópica de sua voz perdia-se num sem-fim que despia o casto horizonte. Era lá, na palidez soturna do nada, na obscura forma inexistente, que se depositavam os olhares insólitos de sua ausência. Nada que um café amargo ou um wisky encantadoramente suado não pudesse enganar a memória de uma língua irracional. Sim, no silêncio das paredes silenciosas, ele enganava seu paladar tão desejoso do sabor daquelas tardes à sombra da roseira, sentados à grama em que era capaz de construir seu próprio mundo no instante de um beijo, na velocidade de dois olhares com a força de um suspiro. Aquele mundo próprio, sem deuses, igrejas, verdades ou esquecimento, um mundo em que o entardecer pudesse durar o tempo de uma vida, e a vida tivesse a beleza de um verso melancólico. Na fragilidade de um simples pensamento, uma em que não houvesse cores neutras capazes de resfriar os sentimentos, onde a noite caísse sem que fosse preciso dizer adeus.
E para isso, queria só um minuto, o minuto que Rachel era incapaz de esperar.
- No que você está pensando?
- Nada, amor, nada.
Mas o que é esse nada, Tibério? Um nada que percorre as estrelas e adormece no fio prateado da lua? Sim, era o Nada inconcebível pela palavra, o Nada indiscreto habitado por Deus, que os joelhos ignoram e que a fé limita e delibera. Anda rapaz, dize que és capaz de pensar naquela que está diante de ti, que buscas nos seus trejeitos o ponto de fuga para as linhas que dão dimensão ao silencio que te faz ausente, porque os olhos não bastam para compreender, contemplar ou admirar. Cala-te, que nem ela, nem ninguém nunca saberá o quanto o Criador concede do seu gosto no hálito de uma mulher.
Não, Rachel não é perfeita. Tem estranhos costumes. Cala-se quando deveria falar, põe-se a falar quando a surdez dos olhos se enamora com os abstratos versos do vazio, olha no momento de cegueira, cega diante da luz. Tem costumes estranhos, enfim, costumes de mulher.
- Nada? Sei, conta, vai!
- Ah, sei lá... não, não me olha assim!
- ?
- Pensava no quanto você é linda!
O que seria dos homens, não fosse a mentira? O que seria dos poetas, não fosse Pessoa?
A verdade é que ele queria que ela olhasse assim. Queria se embebedar daqueles olhos, despir-se da vergonha que todo homem sente ao parecer-se nu diante dos olhos da mulher amada. É isso que faz com que Deus tantas vezes pareça com um depósito (nem sempre gratuito) de angústias e frustrações. Não, isso não é poesia, ainda que metrificada, rimada, cadenciada, isso não é poesia. Senão, seriam poetas todos os dizimistas, senão todos os joelhos seriam dourados.
Quanto custa a sinceridade? Para o verdadeiro amante, custa uma vida cheia de letras espalhadas pela escuridão da insônia. A divindade do amor mora no verso de quem sofre por ele. Tibério sofria do mal de amor. De quanta ignorância é capaz o homem ao perder o sono pensando em alguém, um alguém com quem ele se encontraria no dia seguinte, na eterna tarde seguinte, com quem gastaria um inestimável tempo de sua vida simplesmente existindo? Tolice sonhar acordado com o futuro que não se sabe se será vivido, com a casa que talvez não compre, com os filhos que talvez não tenha. Tolice, enfim, nada. Nada, enfim, tudo isso. Tudo, porque o sonho era a completa existência de Tibério, a eternidade do que é efêmero a todo aquele que nunca teve, nem nunca terá a felicidade de sonhar acordado, mesmo que parecendo tolo a si próprio, àqueles que nunca serão ignorantes o suficiente para amar. Mas não me refiro àquele amor bíblico, formatado, bonitinho, rigoroso, nem ao metrificado pelo pensamento coletivo. Tibério carrega um sentimento incapaz de ser medido, censurado, até mesmo de ser sentido.
Rachel, contudo, a essência de um Deus infinitamente inacabado, não sabia esperar. Disse-se cansada daquela longa e prismática distância, disse-se “farta desses olhares que nunca estão comigo. Decerto você está pensando em outra, ou em coisa mais importante, você não me valoriza, Tibério, não dá um pingo de valor ao meu sentimento. Eu só queria que você me respeitasse. Ontem, mesmo, saímos juntos, mas onde você estava? Ficava me olhando distante, como se eu fosse uma idiota. Mesmo quando eu perguntava: - O que foi? Você só me respondia: -
- Nada, amor, nada.
Mas o que é esse nada, Tibério? Um nada que percorre as estrelas e adormece no fio prateado da lua? Sim, era o Nada inconcebível pela palavra, o Nada indiscreto habitado por Deus, que os joelhos ignoram e que a fé limita e delibera. Anda rapaz, dize que és capaz de pensar naquela que está diante de ti, que buscas nos seus trejeitos o ponto de fuga para as linhas que dão dimensão ao silencio que te faz ausente, porque os olhos não bastam para compreender, contemplar ou admirar. Cala-te, que nem ela, nem ninguém nunca saberá o quanto o Criador concede do seu gosto no hálito de uma mulher.
Não, Rachel não é perfeita. Tem estranhos costumes. Cala-se quando deveria falar, põe-se a falar quando a surdez dos olhos se enamora com os abstratos versos do vazio, olha no momento de cegueira, cega diante da luz. Tem costumes estranhos, enfim, costumes de mulher.
- Nada? Sei, conta, vai!
- Ah, sei lá... não, não me olha assim!
- ?
- Pensava no quanto você é linda!
O que seria dos homens, não fosse a mentira? O que seria dos poetas, não fosse Pessoa?
A verdade é que ele queria que ela olhasse assim. Queria se embebedar daqueles olhos, despir-se da vergonha que todo homem sente ao parecer-se nu diante dos olhos da mulher amada. É isso que faz com que Deus tantas vezes pareça com um depósito (nem sempre gratuito) de angústias e frustrações. Não, isso não é poesia, ainda que metrificada, rimada, cadenciada, isso não é poesia. Senão, seriam poetas todos os dizimistas, senão todos os joelhos seriam dourados.
Quanto custa a sinceridade? Para o verdadeiro amante, custa uma vida cheia de letras espalhadas pela escuridão da insônia. A divindade do amor mora no verso de quem sofre por ele. Tibério sofria do mal de amor. De quanta ignorância é capaz o homem ao perder o sono pensando em alguém, um alguém com quem ele se encontraria no dia seguinte, na eterna tarde seguinte, com quem gastaria um inestimável tempo de sua vida simplesmente existindo? Tolice sonhar acordado com o futuro que não se sabe se será vivido, com a casa que talvez não compre, com os filhos que talvez não tenha. Tolice, enfim, nada. Nada, enfim, tudo isso. Tudo, porque o sonho era a completa existência de Tibério, a eternidade do que é efêmero a todo aquele que nunca teve, nem nunca terá a felicidade de sonhar acordado, mesmo que parecendo tolo a si próprio, àqueles que nunca serão ignorantes o suficiente para amar. Mas não me refiro àquele amor bíblico, formatado, bonitinho, rigoroso, nem ao metrificado pelo pensamento coletivo. Tibério carrega um sentimento incapaz de ser medido, censurado, até mesmo de ser sentido.
Rachel, contudo, a essência de um Deus infinitamente inacabado, não sabia esperar. Disse-se cansada daquela longa e prismática distância, disse-se “farta desses olhares que nunca estão comigo. Decerto você está pensando em outra, ou em coisa mais importante, você não me valoriza, Tibério, não dá um pingo de valor ao meu sentimento. Eu só queria que você me respeitasse. Ontem, mesmo, saímos juntos, mas onde você estava? Ficava me olhando distante, como se eu fosse uma idiota. Mesmo quando eu perguntava: - O que foi? Você só me respondia: -
Nada... nada... nada. É isso que eu sou para você? Nada?” Sim, minha querida, tu és o nada que me engrandece, que me faz ter um sentido nessa estrada que leva a lugar algum, pensava. “eu quero atenção, quero sentir você do meu lado, para que ficar com alguém do meu lado que sequer fala direito comigo? Chega, Tibério, chega!”
Chega, Tibério, não... não... não, não chores. Ela voltará. Eu sei, tu sabes, ela sabe. Voltará tão logo sinta falta de tudo que existe no teu Nada, das batidas fortes do teu peito a estremecer as janelas da saudade. Voltará assim que ouvir o chamado do teu olhar buscando no horizonte aquele sorriso deixado antes do esquecimento. Sim, ele estará lá, porque lá o deixaste exatamente para encontrá-lo no momento em que nada mais houvesse que não a indestrutível corrente que te prende à saudade. Sei que teus joelhos não conversam com o chão falando de angústia, sei que as palmas das tuas mãos não fofocam a saudade e que teus olhos não se fecham, senão para iluminar o sorriso silencioso de tua melancolia.
O que ela não sabe é que mesmo sem mudar de idéia, ela voltará. Amanha estará contigo no trabalho. Pesada como lágrima contida, abreviará as tardes para arrastar-se ao teu lado noite adentro. Sua sombra possuirá todas as formas que a recordação alcançar nas formas dela e só terá um nome: Rachel.
Eu sei, tu sabes, eles sabem. É realmente uma pena que ela nunca saberá.
Um comentário:
Moreno, nunca me canso de ler este. Ele me emociona muito!
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