A imagem de Jesus Cristo em vida crucificado sinceramente me comove. Essa imagem de um homem pagando pelos pecados de toda a humanidade é verdadeiramente forte e comovente. Imaginar que, milhares de anos antes de eu nascer, um homem deu própria vida pela minha salvação me atordoa, não pelo poder aterrador da história, mas por saber que ao morrer por mim, pela remissão dos meus pecados, estava me condenando a ser pecador.
É simples entender porque sou pecador. Antes mesmo de considerar o fato de que fui concebido com o estereótipo de um pecador condenado às trevas, qual seja: negro, franzino, pobre e brasileiro, percebo que Deus não tinha realmente outro propósito que não me constituir pecador, afinal, porque mandaria seu filho para ser o instrumento da minha salvação, senão para que eu pudesse pecar, para só depois alcançar a salvação? Funciona mais ou menos como uma linha de crédito de uma instituição financeira, a qual pode ser vista como a salvação dos endividados. Confesso, já estive endividado, meu saldo bancário é sempre negativo, portanto sei muito bem o que é precisar de salvação.
Mas o que Jesus Cristo tem a ver com o meu saldo negativo? Ora, leitor, entenda o seguinte raciocínio: na criação das instituições bancárias não havia linhas de crédito ou limites de conta para correntistas. Um dia qualquer da existência, algum ser com sérios problemas financeiros, dado à mania de gastar mais do que tem – e não vejo nada errado nisso, afinal é assim que gira a roda do capitalismo, ou algum indivíduo ambicioso com pretensões de prosperar financeiramente, mas sem capital para iniciar sua investida serviu de exemplo para que certo banqueiro vislumbrasse o crédito, e fez com que essa concessão criasse no endividado uma idéia de que ele era um cliente especial. Criou-se, pois, a tentação financeira, na qual qualquer semelhança com aquela antiga história de um Adão e uma Eva, ainda livres de qualquer dívida, uma Serpente com visão empreendedora, detentora de uma maçã saborosa e um Banqueiro possuidor de todos os poderes de manipulação financeira, não é mera coincidência.
Desvendado o enigma da criação e da reprodução dela nos agora não tão complexos sistemas religioso e financeiro de manipulação – que afirmo sem complexidade dogmática alguma, afinal a constituição do homem à imagem e semelhança do seu Criador é um argumento bastante significativo para provar que a herança genética ou de caráter recebida Dele é a verdadeira responsável pela criatividade do homem na exploração dos seus semelhantes e, consequentemente, na capacidade humana em gerar sofrimento, consideremos a predestinação a ser pecador, bem como devedor, solícito por salvação. Concentremos o pensamento em uma simples questão: “Por que eu precisaria de limite de crédito se eu tivesse dinheiro?”. Notoriamente, aquele certo banqueiro visualizou que, ainda que por necessidades trabalhistas, eu era seu cliente, seria prudente me oferecer a oportunidade de um capital extra, ainda que, teoricamente, eu não precisasse pagar a mais para ter essa margem dita emergencial. Oferecendo esse serviço, fazia-se parecer que eu era um cliente especial, mais ou menos como Adão no paraíso. Lá em casa, chamávamos isso de sadismo e hipocrisia, mas confesso que a catequese, as escolas dominicais e as experiências religiosas que tive pela vida me fizeram mudar a nomenclatura para Livre-arbítrio. Certamente, ninguém é altruísta a ponto de, por simples devoção à clientela, desenvolver todo um sistema, contratar pessoas e arcar com todos os desdobramentos que o limite de crédito exige, principalmente em uma sociedade capitalista como a cotidiana, em que mais e mais o altruísmo se transforma em piada. Se houve, um dia, a criação de todo esse sistema foi, naturalmente, para que esses limites fossem utilizados e, conseqüentemente, os seus usuários ficassem vinculados ao banco como seus devedores, aos quais deveriam dedicar-se, para muitos, durante toda a vida, a fim de quitar os seus débitos.
Nesse aspecto, leitor, permita-me mais uma indagação: Porque a terra teria sido criada, e a macieira colocada no paraíso, não fosse propositalmente para que o homem e a mulher desfrutassem do gosto do seu pecado? Isso me leva a afirmar que o homem é mais semelhante ao seu Criador do que aprendemos na catequese ou em escolas dominicais, inclusive na criação do inferno para aqueles que não quitam as dívidas com o Credor, ou o senhor leitor duvida que uma instituição bancária possa transformar a sua vida em um inferno?
Não nego, já disse, não nego meus atos pecaminosos, muito menos as dívidas que acumulei. E não pense que deposito Nele ou Neles a culpa por meus pecados ou pelo saldo negativo, sei que o responsável por tudo isso fui eu, somente eu, embora tudo que eu tenha feito foi não resistir à tentação que Eles mesmo criaram para satisfazer a uma necessidade que, não fossem Eles, talvez eu não tivesse, mas não maldigo a Deus ou a qualquer Banqueiro, afinal, esse é o seu negócio. Embora o produto servido não seja de uma qualidade que eu possa dizer capaz de me fazer feliz, aceito as conseqüências de ser um cliente especial. Diferentemente diria de um vendedor de cachorro-quente que me vendesse um produto estragado. Nesse caso, a culpa seria desse ser que foi incapaz de atender satisfatoriamente às minhas expectativas de comer um sanduíche decente e sair contente. Pode até parecer uma comparação mundana, como dizem nas igrejas por aí, mas entenda que se eu procuro um vendedor de cachorro-quente é porque tenho fome, ou pelo menos o desejo de comer, que dita dessa forma é uma maneira sutil de mascarar o pecado da gula. Mas como disse, fui predestinado a ser pecador. Se procurasse um banco ou uma igreja, no entanto, no momento em que adentrasse a um recinto desses, o faria com a certeza de que dificilmente sairia contente com o produto, minhas necessidades não seriam atendidas e que mesmo assim eu pagaria um preço alto por tudo. Compreende? Não há expectativa, logo, não há espaço para decepções.
Essas comparações me levam, por vezes, a ficar um tanto quanto intrigado com a vida do comércio brasileiro. Se tem uma coisa que odeio é ser mal atendido. É inexplicável a incapacidade de vendedores, e não faço restrições a vendedores de cachorro-quente, que necessitam do dinheiro, arrecadado a base de limite de crédito, o que faz com que seja teoricamente meu. Vendedores que necessitam das minhas necessidades (ou luxúria) para sobreviver, mas insistem em me atender com desprezo, como se eu fosse insignificante. Fico impressionado com isso, pois as igrejas e instituições bancárias, agentes dos Criadores máximos das dívidas humanas, sempre me atenderam como se eu fosse o seu único cliente, e o resultado obtido sempre foi esplendoroso para seus rendimentos, pois não há vez que eu não saia mais endividado de um banco, assim como mais pecador ao sair da igreja. O comércio brasileiro deveria se espelhar nesses exemplos, pois ainda que eu tenha fome ou gula, ainda que eu precise ou meramente queira um novo par de sapatos, é uma verdadeira via sacra encontrar alguém capaz de me convencer de que seu produto é realmente único, feito para mim e que preciso dele, ou de me criar a ilusão de ser realmente especial e significativo com a mesma competência que as mencionadas instituições conseguem, mesmo que o produto oferecido não tenha aquela qualidade, nem vá, de fato, me fazer feliz.
Mas talvez eu ainda não tenha respondido o que Cristo tem a ver com tudo isso, principalmente meu saldo negativo. Seu sofrimento me comove, além disso, me inspira. De fato, me inspira. Como disse, tenho o estereótipo dos pecadores e endividados. Sou negro, franzino e, acima de tudo, brasileiro. Não vejo possibilidade de Deus ser brasileiro, como insistem em fazer o povo acreditar em época de Copa do Mundo, mas vejo grande possibilidade de que Cristo tenha sido, embora o seu retrato europeu, de pele clara e olhos azuis santificado pelo cristianismo e a história bíblica afirmem o contrário. Se não foi, no momento da criação da incansável nação brasileira, ele certamente serviu de maior fonte inspiradora. Permito-me esse comentário baseado nos fatos, na vida levada nesse país e encontro autoridade em uma forte campanha recente de alcance nacional em prol do patriotismo, que dizia: “Sou brasileiro e não desisto nunca”. Em outras palavras: não importe o quanto eu apanhe, permaneço acreditando que serei vencedor. Percebo que essa campanha foi baseada em um sentimento comum ao povo brasileiro; a persistência. Reconheço nessa nação uma perseverança inigualável, embora por razões e em direções nem sempre tão sinceras, isso é invejável. E não há como negar a influência cristã nisso tudo, afinal, que mais se precisa que o exemplo de um homem que sofreu intensamente, apanhou como ninguém, foi pregado a uma cruz e tratado como um ladrão, desprezado pela humanidade, mas estava tão convicto das razões que o impulsionavam que superou tudo isso e sobressaiu diante de tantas adversidades? Restaram-lhe chagas pelo corpo, que no Brasil são ostentadas como medalhas de guerra. Realmente, nasci em um país no qual nunca se cansar de apanhar é cultura e preservar um olhar europeu de vencedor é essencial, ainda que se saiba perdedor. O exemplo de Cristo ainda cabe quando penso em sua capacidade de perdoar a traição. Não fosse o ato corrupto de Judas, como poderíamos assistir às encenações da Paixão na Sexta-feira Santa? Não fossem tantos atos de corrupção, e o conseqüente perdão em épocas de eleição, como alguém poderia se intitular brasileiro?
E a influência cristã não para por aí. Conheço pessoas de vidas financeiras estáveis, ocupantes de cargos de destaque e relevância em empresas públicas e privadas que decidiram viajar para outro país atrás de conquistas monetárias. Viajaram para realizar serviços que não se dariam ao luxo de fazer em seu país por considerarem subempregos ou porque se sentiriam diminuídos desempenhando tais atividades. Eram gerentes que viraram pintores, engenheiros que, por certo, trabalhavam em obras, mas como pedreiros ou serventes. Homens e mulheres que sequer se davam ao trabalho de arrumar a própria cama passando a esfregar o chão de banheiros em casas e bares estrangeiros. Pessoas que deixaram diplomas universitários na parede de casa para varrer ruas em países do primeiro mundo, e não raras vezes em situação irregular. Não encontro motivo para tanto empenho, exceto na necessidade brasileira de apanhar, sofrer intensivamente e, muitas vezes, ser humilhado simplesmente para ter o orgulho de voltar para o Brasil e olhar os amigos com aquele olhar europeu ou norte-americano de quem venceu todas as barreiras na busca do seu ideal e que hoje pode dizer orgulhosamente: “Eu não desisto nunca”.
Engano seu, estimado leitor, se passou pela sua cabeça que me revolto por ter nascido brasileiro. Se depois do meu passamento eu for condenado ao inferno, o serei pelos diversos pecados cometidos em vida, tantos que eu não ousaria aqui enumerá-los, mas a Ira certamente não está entre eles. Não me zango por ter no Brasil a minha terra. Fosse eu do primeiro-mundo, possivelmente acreditaria menos em Deus, em bancos e em outros elementos de controle e dependência que não entraram nesse texto.
Não que eu queira subestimar a sua capacidade intelectual, mas uma coisa é preciso que fique bem clara: não sou ateu. Sou tão crente na existência de Deus quanto das instituições bancárias, afinal só são pecadores aqueles que Nele acreditam, assim como só são devedores os clientes especiais dessas instituições. Assim, acredito que ninguém é pecador por escolha própria, não se extrapola os limites bancários por mero prazer. Todos somos seres sujeitos às necessidades, de diferentes naturezas e proporções, mas todos temos necessidades. Não haveria, portanto, pecado ou saldo negativo não fosse a oportunidade dada pelo próprio grande Criador para que elas fossem satisfeitas. Ninguém pode me dizer, contudo, mal pagador. Embora não saiba se o arrependimento, a confissão ou as orações são, ao gosto Dele, maneiras suficientes para impedir que, quando da minha morte, me sejam calorosamente abertas as portas do inferno. Espero sinceramente não ser condenado. E quanto ao saldo bancário, trabalho incessantemente para saná-lo, ainda que me custe uma parcela muito maior que os dez por cento exigidos pela Igreja. Inclusive, Deus, se estiverdes lendo esse texto, me perdoe por não contribuir com as obras pastorais. Imagino que meu Credor não seja muito dado às leituras sagradas. Provavelmente o fato de eu ser dizimista não faria diferença para que ele me condenasse ao inferno financeiro.
Sei que tenho ainda muitas contas e pecados por pagar, tantas que não sei quantos infernos me esperam. Mas não esqueça, sou brasileiro, sou cristão, não posso desistir. O ideal pelo qual sofreria até a morte, contudo, não é a frenética busca pelo dinheiro, pois sei que meu saldo não tem salvação e que culpar Deus, o FMI, as instituições bancárias, ou qualquer outro mecanismo de manipulação por dependência não me fará vencedor. Sequer os culparia por qualquer um dos meus fracassos, nem os que tive nem os que terei. Não luto com muito dinheiro, e se tenho algum para lutar é, não tenha dúvida, proveniente de algum crédito especial, mas luto. Luto pela vida e luto, sobretudo, pelo amor, e se tem algo em que verdadeiramente acredito é no amor. Pode ser que eu perca, e se eu perder, tenha certeza; sou brasileiro, sou cristão, não posso desistir. Mas pode ser que eu vença, e se eu vencer não se preocupe com o meu olhar, pois além de brasileiro, pobre e franzino, sou negro, não tenho olhos azuis.
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