Não, não estou à procura de alguém, não me importo com o passar do tempo, afinal, não estou à espera. Mas se esse alguém um dia aparecer em minha vida, espero poder lhe reconhecer assim chegar, que eu o aceite do jeito que vier, com todas as suas manhas, manias e defeitos, e que nunca me pareça mais ou menos do que realmente é, a medida exata do que preciso, embora não saiba, mas que eu saiba que precisava quando aparecer. E que a idéia desse descobrimento me faça perceber o quanto valeu a pena esperar, embora não estivesse esperando.
Espero também que quando esse alguém chegar, eu já não me tenha transformado em um velho amargo e saudosista, que insiste em se lamentar pelas dores nas juntas, pelo reumatismo, labirinto, esquecimento e por todos os desamores vividos, tanto os que se foram quanto os que não vieram. Que eu não esteja cansado demais para deixar que as lembranças e os “se” que a vida legou não me permitam ver o quanto a vida é boa, e que não foram erros meus ou de ninguém, mas a própria vida que seguiu seu caminho levando algumas pessoas para longe, tão longe que só em pensar na distância eu fique ainda mais velho.
Enquanto essa pessoa não chega, espero conseguir não esperar que ela chegue, pois pode ser que não venha. Não por medo de me machucar, ainda que o médico recomende poupar o coração para a velhice, não me importo em me expor às grandes paixões, mas espero não esperar, pois a espera castiga, torna-se cada vez mais longínqua, mais amarga, mais indiscreta. Ela é capaz de arrancar o paladar e fazer com que todo o resto da vida, tudo o que não está relacionado a esse alguém que não sei se chegará, torne-se sem gosto. Esperar faz mal aos olhos, pois tudo mais que não se espera perde a cor.
Por isso, se esse alguém um dia chegar, que chegue inesperado, feito gripe que a gente até sabe a exata razão por que se pegou, mas que lembramos depois da febre já ter suado a tarde toda. Espero um alguém como a própria gripe, inoportuna e febril me tomando o tempo do trabalho, não me deixando sequer pensar direito, varrendo a noite em um clarão desencontrado e profundo. Quero lembrar-lhe a cada espirro inesperado, nos olhos fundos e avermelhados, no sabor da canja da convalescença. Esse alguém viverá em mim sem se dar conta que me arde, que assanha, que me dispersa e tranca o nariz, como por ciúme de outros aromas. Uma gripe cheia de dores de cabeça, daquelas que não têm remédio. Doerá sem analgésico para a distância, sem antitérmico na partida, sem solução, cura ou oração que resolva o maior de todos os problemas, a saudade. E sei que esse alguém, se vier, virá também com seus problemas, que não sei se saberei como resolver, mas tentarei, juro que tentarei
Por isso, se esse alguém um dia chegar, que chegue inesperado, feito gripe que a gente até sabe a exata razão por que se pegou, mas que lembramos depois da febre já ter suado a tarde toda. Espero um alguém como a própria gripe, inoportuna e febril me tomando o tempo do trabalho, não me deixando sequer pensar direito, varrendo a noite em um clarão desencontrado e profundo. Quero lembrar-lhe a cada espirro inesperado, nos olhos fundos e avermelhados, no sabor da canja da convalescença. Esse alguém viverá em mim sem se dar conta que me arde, que assanha, que me dispersa e tranca o nariz, como por ciúme de outros aromas. Uma gripe cheia de dores de cabeça, daquelas que não têm remédio. Doerá sem analgésico para a distância, sem antitérmico na partida, sem solução, cura ou oração que resolva o maior de todos os problemas, a saudade. E sei que esse alguém, se vier, virá também com seus problemas, que não sei se saberei como resolver, mas tentarei, juro que tentarei
Quero, contudo, que esse alguém que não espero seja como febre permanente, pois o pior que alguém que se quer amado pode ser é apenas febril e passageiro. Não me zango por já me terem passado as febres (tão passageiras) que tive pela vida. Para algumas, hoje percebo, nada seria melhor do que passar, ainda que tenham me custado lenços de papel e consultas ao cardiologista. Mas o que seria da vida de um médico do coração, não fossem os males de amor? Que restaria? Tudo bem que existem outras causas, não tão emotivas, para o sofrimento dos cardíacos, mas o que seria dos médicos? Afinal, o amor é o pouco de metáfora que ainda resta na medicina.
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