quarta-feira, 9 de julho de 2008

Sobre pipoca, falta d'água e outras coisas


As coisas vão mal. Talvez fosse uma resposta como essa um motivo de preocupação para qualquer um que ma ouça dizendo. E é, na verdade. Pela vida as pessoas perguntam diariamente: “Como vão as coisas?” acreditava na preocupação alheia até perceber que eu era apenas uma coisa no mundo para elas, apenas mais uma coisa. Elas, que vivem num mundo-coisa, em que todas as preocupações se resumem em coisas que vão bem ou mal, coisas vãs que tão somente vão.

Viver num mundo-coisa, ou viver a própria coisa-do-mundo, que não sou e me recuso, serve para qualquer um que se considere coisa, simples coisa em seu próprio mundo. Além dessa triste constatação, percebo que “Como vão as coisas?” é uma mera maneira de iniciar uma conversa, puxar assunto. Ninguém está preocupado com as coisas que me cercam, e pior, consideram-me isso, coisa.

Provavelmente para essas pessoas eu seja, de fato, apenas uma coisa em seu mundo. Eis a razão para que me considerem estranho. Chamam-me reservado por ter poucos amigos. O que elas não sabem é que são esses poucos amigos que não me perguntam como vão as coisas. É com eles que não preciso puxar assunto, nem lançar perguntas de bolso simplesmente porque não tinha o que dizer. Sinceramente, com esses poucos amigos, tão poucos que se desvio o olhar da escrita enquanto escrevo, observo que na mão que sustenta o papel, tenho mais dedos que amigos, mesmo o silêncio ao seu lado é prazeroso e uma conversa nunca parece uma investigação de crediário.

Se me proponho a escrever sobre pessoas - qualquer, que vivem em seus mundos-coisa, não é porque elas me afetam, nem porque me sinto como elas, muito menos por serem relevantes. Não lhes quero mal, não quero que desapareçam. O que quero é que parem de desperdiçar água. Há tão pouca no mundo, ela é tão necessária para a humanidade quanto as pessoas raras e significantes que aqui já estiveram. Gostaria, do fundo do coração, que essas coisas viventes parassem de tomar banho, lavar as calçadas e seus carros de cinco portas e dezesseis válvulas, queria que não lavassem mais as roupas nem desperdiçassem mais a água que um dia faltará para quem realmente vale a pena.

Quando me refiro às pessoas significantes, não faço menção à Shakespeare, Platão, Einstein e tantos outros que deram razão de existir a quem sequer sabia porque nasceu. Mesmo porque já conheci muitos pipoqueiros (e como gosto de pipoca) que tinham muito mais importância e significância para o mundo que doutores, professores e cientistas. Não que a ciência seja menos importante que a minha pipoca, mas de que me acrescenta, ou acrescenta para a existência terrestre conhecer sobre o modo de reprodução das joaninhas? Peço perdão se você, por acaso, dedica sua vida às joaninhas, não pretendo lhe ofender simplesmente porque você é um inútil. Desculpe-me, mas a humanidade não precisa saber sobre isso, pelo menos a parte significante e não-coisa dela. Se, no entanto, insiste em considerar a reprodução desses insetos tão inúteis quanto você, só tenho um pedido a fazer, e não é para que deixe as pesquisas sobre essas inutilidades, peço apenas que tome de tomar banho.

Seu banho não é tão necessário, se duvida, continue lendo, provarei que chega a ser perda de tempo. Se você é um inútil, ainda que não pesquise sobre joaninhas, isso é apenas uma expressão, mas se você faz qualquer coisa substituível e irrelevante, dificilmente tenha contato, ou seja importante para alguém menos irrelevante, e acredite, esse alguém só pode ser relevante para você, não para o mundo. Como dizia, se você tem esse alguém irrelevante ao seu lado, o odor da falta de banho será completamente superável, pois o mau cheiro exalado não será destrutivo, apenas um mau cheiro, tal qual uma carniça de um animal morto que você encontra pela rua e passa sem dar muita importância. Não há porque se preocupar com isso, afinal, você é para o mundo nada mais do que um animal morto apodrecendo nas calçadas do lugar qualquer em que você pensa que vive. Você já está morto, apenas continua respirando e poluindo o mundo dos que são significantes para o mundo não-coisa.

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