quarta-feira, 16 de julho de 2008
I
Quando chove, gosto de me debruçar à janela
Só para sentir o perfume de minha amada.
Gosto também de correr ao seu encontro,
Molhar-me na fria doçura do seu beijo
E sentir na boca o gosto celestial que me comove.
Gosto de correr sem desviar as gotas quando chove.
E se o assombro de um trovão estronda
Ergo com paixão a cabeça à entrega dos céus
E abraço a chuva dolente sem pudor,
Em que minha amada é multiplicadamente.
Sinto na força da chuva seus braços me apertando
Suavemente, me ensopando de seu suor exótico
Que me banha quando minha amada chove forte
Ela que nunca é garoa
Invariavelmente, minha amada é tempestade.
E é quando minha amada se desaba
Que corro imprudentemente, com a loucura dos que sonham,
Dos que bebem, dos que se gripam e sentem febre,
Daqueles que se adoecem pelo beijo da mulher amada.
Corro, corre indolentemente
Corro sem medo de ficar doente,
Despreocupado que me apanhe algum afetamento
Pois não há mal maior nem mais valente
Que a seca e trágica amargura da mulher ausente
E contra a seca não há remédio
Senão deixar-se ao gosto da chuva deliberadamente.
Quando minha amada chove, sou criança
Chego a ouvir minha mãe chamando
E ela insiste em me mandar para dentro
A rua é formada de pessoas
E quando chove, põem-se em passos
Acelerados, descontentes, insensíveis
Protegem-se em marquises e alpendres
Debaixo de negros guarda-chuvas
Recolhem-se em bares e lojas
Amontoam-se em pontos de ônibus
Protegem-se dessa água incandescente,
Que é a límpida figura da mulher amada
Sem forma, sem rosto, simplesmente alma, sem corpo,
Composta milhares de vezes em um cair continuado
Íngreme, vindo de além de muito longe.
As janelas olham o espetáculo.
E por detrás das cortinas reconheço
A vizinhança timidamente protegida
A observar o despejar-se de minha amada
O correr de minha amada pelas calhas
Vêem-na fluindo solta pelas calçadas
Vindo chovidamente ao meu encontro
E por molhar-me assim, dizem-me enlouquecido.
E quando a chuva para, permaneço.
Ando pelas poças que são rastros
Que são vestígios de minha amada
Sem nome, para alguns desgraçada.
Peço a ela que me molhe, que me invada,
Bebo-a para que viva em mim, que me beije,
Que me abrace, que me lave em suas lágrimas saudosas
E nesse querer bem chego a chorar junto com ela.
De noitinha, antes do sono,
Abro as janelas à espera de que ela me inunde
Os sonhos e deixe-me dormir enchuvecido
Nos braços tempestuosos de minha amada.
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