sábado, 27 de dezembro de 2008
Transformações
Você me dá segurança, disse ela. Eu nada disse, apenas fiquei ali, sentado no seu colo como de costume. Eu me sinto tão segura quando você está aqui comigo. Repetiu como se esperasse que eu complementasse com algo que lhe desse certeza de que eu já sabia disso, e a fizesse sentir a segurança que ela diz sentir ao meu lado. Não sei ao certo o que ela queria dizer com isso, por isso não disse nada, na verdade não precisava dizer nada.
Sempre pensei que ela só dissesse esse tipo de coisa para que eu me sentisse bem e lhe desse o carinho de que ela sente falta. Não sou muito presente, confesso; mesmo quando estou por perto, estou distante. Não sei onde estou a maior parte do tempo, não tenho tempo nem lugar exato. Queira acreditar ou não, sou daqueles homens que têm o que precisa, ou quase tudo: um carro, que, para dizer a verdade, não é nada demais, mas me leva para onde eu quero a maioria das vezes; dinheiro, não muito, mas o suficiente para sobreviver sem chorar as mágoas para estranhos ou amigos que nunca podem ajudar. Sou de poucos amigos, embora saiba que eles nunca podem ajudar, na maioria das vezes porque não querem, e sempre me procurarão quando precisarem de ajuda, mas gosto deles mesmo assim, acredito que por motivos muito maiores do que eles podem imaginar; não posso dizer que algo me falta, ao menos dentre as coisas que eu possa lhe dizer; mas mesmo não me faltando as coisas que para muitos faltam, persiste-me uma ausência de algo ou alguém desconhecido, uma vontade de não sei o quê, um sonho esquecido que eu queria muito poder lembrar, acho que era coisa boa, mas não consigo. Quando ela me disse aquilo, contudo, sabia que estava no seu colo, gosto de passar um tempo ali, dando a proteção que ela diz que dou. Não sei o que ela quis dizer com isso. Não entendo por que as grandes mulheres são sempre misteriosas. Não tenho dúvidas de que ela é grande, soube isso desde o primeiro momento em que a vi, foi há muito, muito tempo. A maioria das mulheres tem uma maneira comum de ser complicada, uma mania de sofisticação que acelera o tempo de uma maneira que uma semana ao seu lado parece absorver anos de sua vida. Foi assim com todas as mulheres que conheci, exceto ela. Sua maneira de se debruçar sobre o tricô durante as novelas não é nem um pouco agradável, irritante, para ser sincero, mas é o jeito dela, sei que não vou mudar nada, não há nada que eu possa, nem que eu queira fazer para mudá-la. Isso faz parte do mistério das grandes mulheres, as outras, as sofisticadamente complicadas, são tão mutáveis quanto uma larva de borboleta. A diferença entre as mulheres sofisticadas e a larva de borboleta, no entanto, é a naturalidade com que a larva se transforma, nasceu para a transformação, isso faz parte de sua natureza e só se transforma uma vez na vida. As mulheres não, se transformam o tempo todo; para conquistar, para dançar, para acasalar, casar, modificam-se de acordo com o período do ano, aniversários, natal, datas comemorativas e ciclo menstrual.
Por isso fiquei calado quando ela me disse você me dá segurança. Não sei por que, mas meu silêncio a incomoda. De fato, todas as mulheres que conheci reclamavam do meu silêncio. Às vezes eu queria ser uma mosquinha para entrar no seu pensamento e saber em que você tanto pensa, dizia ela. Tadinha, não sabe que as moscas, por menores que sejam, não entram no pensamento, mas não faz mal. O pensamento não é apenas a fonte de toda a vida, por vezes é um refúgio. Não há esconderijo melhor que o interior de si mesmo, um refúgio um tanto arriscado, o perigo de se perder e não encontrar a saída está sempre presente. Já perdi as contas de quantas vezes fiquei preso dentro de mim, fosse procurando a vida, fosse me escondendo, tanto que não sei mais se a distância cotidiana de tudo e de todos em que vivo é por opção ou falta dela, pois nem sempre a saída que encontro me leva à superfície, pelo contrário, sem me dar conta me vejo ainda mais fundo no labirinto onde tentei me esconder do mundo e acabei por me esconder de mim mesmo. É sempre assim, foi assim que cheguei aqui. Eu quero um bebê seu, disse-me ela com uma criança ao colo. É sempre assim, quando aparece um bebezinho pela casa sempre ouço esse tipo de coisa. Você só me desanima assim, nem tenho mais esperança de um dia ter no colo um nenenzinho seu.
Por maiores que sejam as mulheres, são mulheres, o instinto é imperdoável e incessante. Seu silêncio deitada ao meu lado era terminal, meu silêncio ao escutar eu quero um bebê seu foi por demais lacerante, e ela está cansada dos meus deletérios ensimesmados. Queria que ela soubesse que não é ela, não tem nada a ver com ela, não tem nada a ver com ninguém, simplesmente não tem nada a ver. É o nada, só o nada, mas ninguém entende o nada, apenas os bebês são importantes, só eles fazem a casa sorrir. Um bebê correndo pela casa, puxando a sua calça e gritando Papai, papai, chorando à espera do seu colo porque cortou o joelho correndo atrás do cachorro, mas eu nem tenho cachorro! Não gosto de cachorros, nada contra os bichinhos, acho animaizinhos muito fofos e inteligentes, mas deixar um cão ou qualquer outro bicho em casa, limitado aos limites que eu lhe der, é mais do que crueldade, mais do que sadismo, é divino, e se tem algo com que eu em nada me pareço é Deus. Ela continua deitada, cochilou no meu braço enquanto assistíamos Guerra e Paz. Adoro Tolstoi, o filme também é muito bom, ela não sabe, mas sou louco pela Audrey Hepburn, tenho uma foto dela no meu quarto, uma foto maravilhosa, seu rosto brando, seu olhar adocicado com aroma de terra molhada quando começa a chuva faz novelos de pensamentos se desenrolarem pelas minhas fantasias mais inocentes. Você é meu bebê, ela diz. Não entendo como um bebê pode proteger alguém, mas tudo bem, não discuto, já cansei de discutir, odeio discussões.
Ela dorme, calma e roucamente dorme, emite sons estranhos, os sons do tempo que passou, daquela criança que queria ver correndo pela casa, puxando a barra da minha calça, zanzando pelas pernas de todos, assoprando velas cumulativas a cada ano que se junta ao ano passado. Um bebezinho que a fizesse acordar de noite, que lhe desse assunto para conversar com as amigas, para falar enloladinho po que mama vai fazê papá pá agadá nenê, levando meu nome adiante. O instinto fala alto, mas ainda não o ouvi, tento, mas ainda não ouço. Talvez o que ela queira é um novo bebê para lhe proteger, um bebê que não seja tão distante quanto eu, um bebê ao seu lado, não somente no seu coração. No fundo, isso é o que todas as mulheres querem, mesmo as sofisticadas: um bebê para lhes proteger. Quem sabe quando eu encontrar a saída do meu labirinto.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Homem de Palavra
O homem é a palavra
A palavra própria, propriamente
Imprópria, alheia
A que é lembrada por ter sido
A que diz quando pensa
A que pensa quando dizem
A que pensa que dizem
A que escreve
E escreve à lápis
Se disso difere
É qualquer coisa
Entre a humanidade
E a existência.
É o que não é lembrado
É o que não foi
É o que não diz,
Apenas pensa
Apenas pensa e escreve
Escreve à caneta
Você tinha razão, meu caro
É impossível ser feliz sozinho
Mas é impossível amar acompanhado
Detesto não saber usar o lápis
Bem que tento
Mas a existência me tenta.
Às vezes, ter razão é detestável.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
XVI
Amo-te, minha amante desonesta
Seguro deste amor que te venero
Esqueço o esquecimento e persevero
Por ser a pouca vida que me resta
Se em vão nenhum amor é descoberto
Vivê-lo é mal preciso ao bem da vida
É dom, é dor, é sal sobre a ferida
É hóstia amarga se ausente o seu afeto
Mas bem melhor viver em vã ventura
A descobrir-se à noite descoberto
Por faltar calor, amor e aventura
Amar é dedicar-se à dura lida
De sonhar sem medo da amargura
Do sol raiar ao som da despedida
terça-feira, 21 de outubro de 2008
XVIII
Domingo é dia de ir para a chácara
Onde sou par de alguma coisa
Em um lugar mais arejado
Quero aproveitar, pois o resto é tanto resto
Que mal sei se sou alguém ou algo
Enquanto isso, uma vítima de incesto
Chora o irmão que se perdeu
Quando perdeu sua virgindade
Sou eu uma dessas pessoas
Apenas me vestindo diferente?
Apenas vivo diferente
Sou indiferente às pessoas como eu.
Não, este não é um poema de amor
Minha mãe não sabe que estou aqui
Não aconteço
Mas sei tudo que acontece
E acho isso o máximo.
Só há psicoterapia para coisas irrelevantes
Para o resto, só o mesmo método
Só o mesmo semblante desentendido
Não há problema além do meu
Além de mim, eu sou o problema desistido
Sem solução por não haver
Solução para a relevância
Eu queria que houvesse menas coisas
Mas não existe menas
Só as coisas são importantes.
Onde sou par de alguma coisa
Em um lugar mais arejado
Quero aproveitar, pois o resto é tanto resto
Que mal sei se sou alguém ou algo
Enquanto isso, uma vítima de incesto
Chora o irmão que se perdeu
Quando perdeu sua virgindade
Sou eu uma dessas pessoas
Apenas me vestindo diferente?
Apenas vivo diferente
Sou indiferente às pessoas como eu.
Não, este não é um poema de amor
Minha mãe não sabe que estou aqui
Não aconteço
Mas sei tudo que acontece
E acho isso o máximo.
Só há psicoterapia para coisas irrelevantes
Para o resto, só o mesmo método
Só o mesmo semblante desentendido
Não há problema além do meu
Além de mim, eu sou o problema desistido
Sem solução por não haver
Solução para a relevância
Eu queria que houvesse menas coisas
Mas não existe menas
Só as coisas são importantes.
XIV
Olha-me o homem por detrás do espelho
Olha-me desconhecido, num reflexo do eu
Que vive nele como lembrança à procura
De um passado. Sou estranho à imagem
Sem memória e não sei se sou figura
Ou sou palavra, se sou esse ou sou aquele
Olho sem saber se sou, como fosse ninguém
Não sei, ainda que me hesite a sombra de um pensamento
Uma resposta talvez me encontre quando questiono
Esses muitos ninguém que desconheço:
O que há por se sobrar no olhar do tempo?
Serei eu, serei retrato, serei ninguém
Sem barba, sem bigode, sem palavra?
E descubro que a dúvida me envelheceu a alma
Para que tanta pergunta, meu Deus?
É bem mais fácil aceitar o que me dizem
Diariamente me transformo de maneiras
Facilmente explicáveis pela medicina, psicologia
E outras tantas ciências que de nada servem
Senão para confortar quem não suporta a dúvida
E carece de um porquê para existir humanamente
Ainda assim, sobra a imagem, o eu e o ninguém
Para que tanta resposta, meu Deus?
Olha-me desconhecido, num reflexo do eu
Que vive nele como lembrança à procura
De um passado. Sou estranho à imagem
Sem memória e não sei se sou figura
Ou sou palavra, se sou esse ou sou aquele
Olho sem saber se sou, como fosse ninguém
Não sei, ainda que me hesite a sombra de um pensamento
Uma resposta talvez me encontre quando questiono
Esses muitos ninguém que desconheço:
O que há por se sobrar no olhar do tempo?
Serei eu, serei retrato, serei ninguém
Sem barba, sem bigode, sem palavra?
E descubro que a dúvida me envelheceu a alma
Para que tanta pergunta, meu Deus?
É bem mais fácil aceitar o que me dizem
Diariamente me transformo de maneiras
Facilmente explicáveis pela medicina, psicologia
E outras tantas ciências que de nada servem
Senão para confortar quem não suporta a dúvida
E carece de um porquê para existir humanamente
Ainda assim, sobra a imagem, o eu e o ninguém
Para que tanta resposta, meu Deus?
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
O Presente e o Passageiro
Você passa por mim, mas não os vestígios de sua passagem
É um perfume que me convida a seguir seus passos
Andar por seus caminhos, acompanhar suas andanças.
É um sorriso discreto dado em pensamento
E recebido com certa timidez também pelo meu.
Deixa no ar uma lembrança de algo não vivido,
Histórias não contadas porque você passou.
Do algum lugar de onde você veio desconheço
Mesmo a existência, mas sei que existe
Afinal, não era assombração ou figura qualquer
Criada pela imaginação dos solitários.
Você não esmaeceu, apenas passou. E assim tenho certeza
Que era real, como o sentimento instantâneo
Realizado, finito e concreto, passado quando você passou.
É um perfume que me convida a seguir seus passos
Andar por seus caminhos, acompanhar suas andanças.
É um sorriso discreto dado em pensamento
E recebido com certa timidez também pelo meu.
Deixa no ar uma lembrança de algo não vivido,
Histórias não contadas porque você passou.
Do algum lugar de onde você veio desconheço
Mesmo a existência, mas sei que existe
Afinal, não era assombração ou figura qualquer
Criada pela imaginação dos solitários.
Você não esmaeceu, apenas passou. E assim tenho certeza
Que era real, como o sentimento instantâneo
Realizado, finito e concreto, passado quando você passou.
XIII
Se vivo como escrevo
É porque escrevo a vida
Pois é ela em si seu próprio ato
Tudo mais que haja por ser dito
É decorrente desse ato primeiro.
Amor, desamor, paixão, desencanto
Coisas da vida
Alegria, distância, tristeza, regresso
Coisas da vida
Presente, passado, caos, eternidade
Coisas da vida
Canto o que vive solitário
Sem compaixão ou simpatia
Conto a gente que vive engentilhada
Sem piedade ou arrependimento
Verso o homem que trabalha duramente
E também se seu salário é caridade
Escrevo o sereno dos que guardam carros
De quem amanhece e anoitece pela rua.
A rua em seu universo sem tempo
Com suas putas viçosas – mulheres da vida
Meninos em correria – “que vai ser hoje dotô”
Os carros que passam de janelas fechadas
Os carros que param de janelas abertas
Das modernidades do mundo antigo
Às velharias do mundo moderno
Há quem me diga escritor da pobreza
A esses, repito e contraponho
São coisas da vida
E se essa vida me apresenta alguma dama
Prontamente ela já vive em meu poema
Transpira sua candura pelos versos
Em que é traduzida alva e bela
Delicada, toca piano e é poliglota
À noite, respira meu fervor suado
E ama, e odeia, ri e chora com sinceridade
Dela sinto saudade se me esquece em minha escrita
Conto também as graças dos abençoados.
Ausente de sentimento, a fé dos infelizes
E a infelicidade dos desgraçados
Reservo-me também ao brilho do ouro
Deus, Diabo, Buda, terrorismo
E tudo mais que caiba na vida
Mas, sobretudo, escrevo a beleza
A beleza das coisas da vida
Com beleza as coisas feias, as coisas podres
As coisas más, as coisas duras da vida
E tão completamente que o amargo
Fica doce quando faço com beleza
Pois ela é tudo que de belo que existe
Mesmo que a vida não seja assim tão bela
Que o fim seja certo e cause espanto
Mas o fim é coisa de quem começa
E morrer é coisa da vida.
sábado, 2 de agosto de 2008
Velho Poeta Procura
Mesmo que ela não venha, estarei aqui esperando. Esperarei enquanto as horas forem horas, e mesmo quando as horas forem dias, saberei que um dia ela vai chegar. Deixarei minha marca por todas as esquinas em que eu passar para o caso dela errar o caminho sempre saber como me encontrar. E sempre pedirei mesa para dois, pode ser que ela queira beber, pode ser que esteja com fome, pode ser que não queira nada além da minha companhia. E se no fim da noite ela não aparecer, saberei que ela esteve sozinha e se não foi ao meu encontro foi por causa da irmã que quis pintar o cabelo, ou o cachorro que precisava de um banho, ou mesmo aquele filme que ela tanto gosta passando de novo na televisão. Mas amanhã ela virá, sei que ela vira, senão depois de amanha, sei que um dia ela virá. Talvez ainda chegue atrasada. Mais cinco minutos! Não, não, dessa vez eu não perdôo. Digo mesmo sabendo que perdoarei, que não a deixarei esperando, mesmo que por ela espere a vida toda. E depois dos anos passarem, quando a idade me alcançar, anunciarei em todos os jornais:
Velho poeta de cabelos brancos e coração enrubescido procura aquela jovem senhora de outrora para viver por toda a vida. As interessadas sigam aos bares da noite, encontrarão senão sozinho um homem de olhar sereno e palavras mansas, que há de vos amar pelo que resta de todas as vossas vidas.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
O Ponto
O ônibus passou cheio de gente
Ninguém subiu, ninguém desceu
Mas era gente, gente que não subiu
Que não desceu, feito gente ninguém
Que anda por aí, disfarçada de povo.
Cidade pequena.
O jornal não circula na segunda-feira.
Minha semana tem um dia a menos.
Ninguém subiu, ninguém desceu
Mas era gente, gente que não subiu
Que não desceu, feito gente ninguém
Que anda por aí, disfarçada de povo.
Cidade pequena.
O jornal não circula na segunda-feira.
Minha semana tem um dia a menos.
Eu Não Tenho Olhos Azuis
A imagem de Jesus Cristo em vida crucificado sinceramente me comove. Essa imagem de um homem pagando pelos pecados de toda a humanidade é verdadeiramente forte e comovente. Imaginar que, milhares de anos antes de eu nascer, um homem deu própria vida pela minha salvação me atordoa, não pelo poder aterrador da história, mas por saber que ao morrer por mim, pela remissão dos meus pecados, estava me condenando a ser pecador.
É simples entender porque sou pecador. Antes mesmo de considerar o fato de que fui concebido com o estereótipo de um pecador condenado às trevas, qual seja: negro, franzino, pobre e brasileiro, percebo que Deus não tinha realmente outro propósito que não me constituir pecador, afinal, porque mandaria seu filho para ser o instrumento da minha salvação, senão para que eu pudesse pecar, para só depois alcançar a salvação? Funciona mais ou menos como uma linha de crédito de uma instituição financeira, a qual pode ser vista como a salvação dos endividados. Confesso, já estive endividado, meu saldo bancário é sempre negativo, portanto sei muito bem o que é precisar de salvação.
Mas o que Jesus Cristo tem a ver com o meu saldo negativo? Ora, leitor, entenda o seguinte raciocínio: na criação das instituições bancárias não havia linhas de crédito ou limites de conta para correntistas. Um dia qualquer da existência, algum ser com sérios problemas financeiros, dado à mania de gastar mais do que tem – e não vejo nada errado nisso, afinal é assim que gira a roda do capitalismo, ou algum indivíduo ambicioso com pretensões de prosperar financeiramente, mas sem capital para iniciar sua investida serviu de exemplo para que certo banqueiro vislumbrasse o crédito, e fez com que essa concessão criasse no endividado uma idéia de que ele era um cliente especial. Criou-se, pois, a tentação financeira, na qual qualquer semelhança com aquela antiga história de um Adão e uma Eva, ainda livres de qualquer dívida, uma Serpente com visão empreendedora, detentora de uma maçã saborosa e um Banqueiro possuidor de todos os poderes de manipulação financeira, não é mera coincidência.
Desvendado o enigma da criação e da reprodução dela nos agora não tão complexos sistemas religioso e financeiro de manipulação – que afirmo sem complexidade dogmática alguma, afinal a constituição do homem à imagem e semelhança do seu Criador é um argumento bastante significativo para provar que a herança genética ou de caráter recebida Dele é a verdadeira responsável pela criatividade do homem na exploração dos seus semelhantes e, consequentemente, na capacidade humana em gerar sofrimento, consideremos a predestinação a ser pecador, bem como devedor, solícito por salvação. Concentremos o pensamento em uma simples questão: “Por que eu precisaria de limite de crédito se eu tivesse dinheiro?”. Notoriamente, aquele certo banqueiro visualizou que, ainda que por necessidades trabalhistas, eu era seu cliente, seria prudente me oferecer a oportunidade de um capital extra, ainda que, teoricamente, eu não precisasse pagar a mais para ter essa margem dita emergencial. Oferecendo esse serviço, fazia-se parecer que eu era um cliente especial, mais ou menos como Adão no paraíso. Lá em casa, chamávamos isso de sadismo e hipocrisia, mas confesso que a catequese, as escolas dominicais e as experiências religiosas que tive pela vida me fizeram mudar a nomenclatura para Livre-arbítrio. Certamente, ninguém é altruísta a ponto de, por simples devoção à clientela, desenvolver todo um sistema, contratar pessoas e arcar com todos os desdobramentos que o limite de crédito exige, principalmente em uma sociedade capitalista como a cotidiana, em que mais e mais o altruísmo se transforma em piada. Se houve, um dia, a criação de todo esse sistema foi, naturalmente, para que esses limites fossem utilizados e, conseqüentemente, os seus usuários ficassem vinculados ao banco como seus devedores, aos quais deveriam dedicar-se, para muitos, durante toda a vida, a fim de quitar os seus débitos.
Nesse aspecto, leitor, permita-me mais uma indagação: Porque a terra teria sido criada, e a macieira colocada no paraíso, não fosse propositalmente para que o homem e a mulher desfrutassem do gosto do seu pecado? Isso me leva a afirmar que o homem é mais semelhante ao seu Criador do que aprendemos na catequese ou em escolas dominicais, inclusive na criação do inferno para aqueles que não quitam as dívidas com o Credor, ou o senhor leitor duvida que uma instituição bancária possa transformar a sua vida em um inferno?
Não nego, já disse, não nego meus atos pecaminosos, muito menos as dívidas que acumulei. E não pense que deposito Nele ou Neles a culpa por meus pecados ou pelo saldo negativo, sei que o responsável por tudo isso fui eu, somente eu, embora tudo que eu tenha feito foi não resistir à tentação que Eles mesmo criaram para satisfazer a uma necessidade que, não fossem Eles, talvez eu não tivesse, mas não maldigo a Deus ou a qualquer Banqueiro, afinal, esse é o seu negócio. Embora o produto servido não seja de uma qualidade que eu possa dizer capaz de me fazer feliz, aceito as conseqüências de ser um cliente especial. Diferentemente diria de um vendedor de cachorro-quente que me vendesse um produto estragado. Nesse caso, a culpa seria desse ser que foi incapaz de atender satisfatoriamente às minhas expectativas de comer um sanduíche decente e sair contente. Pode até parecer uma comparação mundana, como dizem nas igrejas por aí, mas entenda que se eu procuro um vendedor de cachorro-quente é porque tenho fome, ou pelo menos o desejo de comer, que dita dessa forma é uma maneira sutil de mascarar o pecado da gula. Mas como disse, fui predestinado a ser pecador. Se procurasse um banco ou uma igreja, no entanto, no momento em que adentrasse a um recinto desses, o faria com a certeza de que dificilmente sairia contente com o produto, minhas necessidades não seriam atendidas e que mesmo assim eu pagaria um preço alto por tudo. Compreende? Não há expectativa, logo, não há espaço para decepções.
Essas comparações me levam, por vezes, a ficar um tanto quanto intrigado com a vida do comércio brasileiro. Se tem uma coisa que odeio é ser mal atendido. É inexplicável a incapacidade de vendedores, e não faço restrições a vendedores de cachorro-quente, que necessitam do dinheiro, arrecadado a base de limite de crédito, o que faz com que seja teoricamente meu. Vendedores que necessitam das minhas necessidades (ou luxúria) para sobreviver, mas insistem em me atender com desprezo, como se eu fosse insignificante. Fico impressionado com isso, pois as igrejas e instituições bancárias, agentes dos Criadores máximos das dívidas humanas, sempre me atenderam como se eu fosse o seu único cliente, e o resultado obtido sempre foi esplendoroso para seus rendimentos, pois não há vez que eu não saia mais endividado de um banco, assim como mais pecador ao sair da igreja. O comércio brasileiro deveria se espelhar nesses exemplos, pois ainda que eu tenha fome ou gula, ainda que eu precise ou meramente queira um novo par de sapatos, é uma verdadeira via sacra encontrar alguém capaz de me convencer de que seu produto é realmente único, feito para mim e que preciso dele, ou de me criar a ilusão de ser realmente especial e significativo com a mesma competência que as mencionadas instituições conseguem, mesmo que o produto oferecido não tenha aquela qualidade, nem vá, de fato, me fazer feliz.
Mas talvez eu ainda não tenha respondido o que Cristo tem a ver com tudo isso, principalmente meu saldo negativo. Seu sofrimento me comove, além disso, me inspira. De fato, me inspira. Como disse, tenho o estereótipo dos pecadores e endividados. Sou negro, franzino e, acima de tudo, brasileiro. Não vejo possibilidade de Deus ser brasileiro, como insistem em fazer o povo acreditar em época de Copa do Mundo, mas vejo grande possibilidade de que Cristo tenha sido, embora o seu retrato europeu, de pele clara e olhos azuis santificado pelo cristianismo e a história bíblica afirmem o contrário. Se não foi, no momento da criação da incansável nação brasileira, ele certamente serviu de maior fonte inspiradora. Permito-me esse comentário baseado nos fatos, na vida levada nesse país e encontro autoridade em uma forte campanha recente de alcance nacional em prol do patriotismo, que dizia: “Sou brasileiro e não desisto nunca”. Em outras palavras: não importe o quanto eu apanhe, permaneço acreditando que serei vencedor. Percebo que essa campanha foi baseada em um sentimento comum ao povo brasileiro; a persistência. Reconheço nessa nação uma perseverança inigualável, embora por razões e em direções nem sempre tão sinceras, isso é invejável. E não há como negar a influência cristã nisso tudo, afinal, que mais se precisa que o exemplo de um homem que sofreu intensamente, apanhou como ninguém, foi pregado a uma cruz e tratado como um ladrão, desprezado pela humanidade, mas estava tão convicto das razões que o impulsionavam que superou tudo isso e sobressaiu diante de tantas adversidades? Restaram-lhe chagas pelo corpo, que no Brasil são ostentadas como medalhas de guerra. Realmente, nasci em um país no qual nunca se cansar de apanhar é cultura e preservar um olhar europeu de vencedor é essencial, ainda que se saiba perdedor. O exemplo de Cristo ainda cabe quando penso em sua capacidade de perdoar a traição. Não fosse o ato corrupto de Judas, como poderíamos assistir às encenações da Paixão na Sexta-feira Santa? Não fossem tantos atos de corrupção, e o conseqüente perdão em épocas de eleição, como alguém poderia se intitular brasileiro?
E a influência cristã não para por aí. Conheço pessoas de vidas financeiras estáveis, ocupantes de cargos de destaque e relevância em empresas públicas e privadas que decidiram viajar para outro país atrás de conquistas monetárias. Viajaram para realizar serviços que não se dariam ao luxo de fazer em seu país por considerarem subempregos ou porque se sentiriam diminuídos desempenhando tais atividades. Eram gerentes que viraram pintores, engenheiros que, por certo, trabalhavam em obras, mas como pedreiros ou serventes. Homens e mulheres que sequer se davam ao trabalho de arrumar a própria cama passando a esfregar o chão de banheiros em casas e bares estrangeiros. Pessoas que deixaram diplomas universitários na parede de casa para varrer ruas em países do primeiro mundo, e não raras vezes em situação irregular. Não encontro motivo para tanto empenho, exceto na necessidade brasileira de apanhar, sofrer intensivamente e, muitas vezes, ser humilhado simplesmente para ter o orgulho de voltar para o Brasil e olhar os amigos com aquele olhar europeu ou norte-americano de quem venceu todas as barreiras na busca do seu ideal e que hoje pode dizer orgulhosamente: “Eu não desisto nunca”.
Engano seu, estimado leitor, se passou pela sua cabeça que me revolto por ter nascido brasileiro. Se depois do meu passamento eu for condenado ao inferno, o serei pelos diversos pecados cometidos em vida, tantos que eu não ousaria aqui enumerá-los, mas a Ira certamente não está entre eles. Não me zango por ter no Brasil a minha terra. Fosse eu do primeiro-mundo, possivelmente acreditaria menos em Deus, em bancos e em outros elementos de controle e dependência que não entraram nesse texto.
Não que eu queira subestimar a sua capacidade intelectual, mas uma coisa é preciso que fique bem clara: não sou ateu. Sou tão crente na existência de Deus quanto das instituições bancárias, afinal só são pecadores aqueles que Nele acreditam, assim como só são devedores os clientes especiais dessas instituições. Assim, acredito que ninguém é pecador por escolha própria, não se extrapola os limites bancários por mero prazer. Todos somos seres sujeitos às necessidades, de diferentes naturezas e proporções, mas todos temos necessidades. Não haveria, portanto, pecado ou saldo negativo não fosse a oportunidade dada pelo próprio grande Criador para que elas fossem satisfeitas. Ninguém pode me dizer, contudo, mal pagador. Embora não saiba se o arrependimento, a confissão ou as orações são, ao gosto Dele, maneiras suficientes para impedir que, quando da minha morte, me sejam calorosamente abertas as portas do inferno. Espero sinceramente não ser condenado. E quanto ao saldo bancário, trabalho incessantemente para saná-lo, ainda que me custe uma parcela muito maior que os dez por cento exigidos pela Igreja. Inclusive, Deus, se estiverdes lendo esse texto, me perdoe por não contribuir com as obras pastorais. Imagino que meu Credor não seja muito dado às leituras sagradas. Provavelmente o fato de eu ser dizimista não faria diferença para que ele me condenasse ao inferno financeiro.
Sei que tenho ainda muitas contas e pecados por pagar, tantas que não sei quantos infernos me esperam. Mas não esqueça, sou brasileiro, sou cristão, não posso desistir. O ideal pelo qual sofreria até a morte, contudo, não é a frenética busca pelo dinheiro, pois sei que meu saldo não tem salvação e que culpar Deus, o FMI, as instituições bancárias, ou qualquer outro mecanismo de manipulação por dependência não me fará vencedor. Sequer os culparia por qualquer um dos meus fracassos, nem os que tive nem os que terei. Não luto com muito dinheiro, e se tenho algum para lutar é, não tenha dúvida, proveniente de algum crédito especial, mas luto. Luto pela vida e luto, sobretudo, pelo amor, e se tem algo em que verdadeiramente acredito é no amor. Pode ser que eu perca, e se eu perder, tenha certeza; sou brasileiro, sou cristão, não posso desistir. Mas pode ser que eu vença, e se eu vencer não se preocupe com o meu olhar, pois além de brasileiro, pobre e franzino, sou negro, não tenho olhos azuis.
terça-feira, 22 de julho de 2008
Um Alguém na Natureza
Quero alguém que não use pinturas
Que não se faça atrás de maquiagens
Nem viva da própria máscara
Ou de máscaras alheias, que perseveram.
Esse alguém não precisa ser belo,
Mas que tenha a verdadeira beleza.
Quero alguém que me traga,
Não simplesmente me leve.
E que seja leve para eu poder carregá-lo
Nos braços, no peito e no pensamento.
Quero um alguém que morra de medo
Mesmo que de coisas simples, ratos, baratas
E aranhas, e que esse medo me faça forte
Tão forte que, sem zombar da fraqueza,
Eu possa sorrir.
Quero passear no parque, chupar sorvete
Abrir a porta do carro, mas dividir a conta
Sem deixar de ser cavalheiro.
E que eu possa andar de mãos dadas
Nas frestas da preocupação.
Sim, quero preocupações, mas não doenças
Além da poesia na alma
Pois não quero prazeres imediatos,
A vida é pleno orgasmo, até nas tristezas.
Ah, como as quero, tristezas, pois
Ser humano é ser comparativo.
Não, não lhe quero mergulhado em perfeição,
Embora repleto de perfeitos detalhes imperfeitos
Não quero um alguém perfeito,
Assim já me bastam seres imaginários.
Quero alguém que seja verso, nunca prosa
E que contenha a rima rítmica da saudade
Ausente e a métrica melancólica da recordação.
Quero ver o sol raiar o dia
A cigarra anunciando o fim da tarde
Sentir o cheiro do mato
O gosto sereno da noite.
Eu quero ver a rosa florir.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
I
Quando chove, gosto de me debruçar à janela
Só para sentir o perfume de minha amada.
Gosto também de correr ao seu encontro,
Molhar-me na fria doçura do seu beijo
E sentir na boca o gosto celestial que me comove.
Gosto de correr sem desviar as gotas quando chove.
E se o assombro de um trovão estronda
Ergo com paixão a cabeça à entrega dos céus
E abraço a chuva dolente sem pudor,
Em que minha amada é multiplicadamente.
Sinto na força da chuva seus braços me apertando
Suavemente, me ensopando de seu suor exótico
Que me banha quando minha amada chove forte
Ela que nunca é garoa
Invariavelmente, minha amada é tempestade.
E é quando minha amada se desaba
Que corro imprudentemente, com a loucura dos que sonham,
Dos que bebem, dos que se gripam e sentem febre,
Daqueles que se adoecem pelo beijo da mulher amada.
Corro, corre indolentemente
Corro sem medo de ficar doente,
Despreocupado que me apanhe algum afetamento
Pois não há mal maior nem mais valente
Que a seca e trágica amargura da mulher ausente
E contra a seca não há remédio
Senão deixar-se ao gosto da chuva deliberadamente.
Quando minha amada chove, sou criança
Chego a ouvir minha mãe chamando
E ela insiste em me mandar para dentro
A rua é formada de pessoas
E quando chove, põem-se em passos
Acelerados, descontentes, insensíveis
Protegem-se em marquises e alpendres
Debaixo de negros guarda-chuvas
Recolhem-se em bares e lojas
Amontoam-se em pontos de ônibus
Protegem-se dessa água incandescente,
Que é a límpida figura da mulher amada
Sem forma, sem rosto, simplesmente alma, sem corpo,
Composta milhares de vezes em um cair continuado
Íngreme, vindo de além de muito longe.
As janelas olham o espetáculo.
E por detrás das cortinas reconheço
A vizinhança timidamente protegida
A observar o despejar-se de minha amada
O correr de minha amada pelas calhas
Vêem-na fluindo solta pelas calçadas
Vindo chovidamente ao meu encontro
E por molhar-me assim, dizem-me enlouquecido.
E quando a chuva para, permaneço.
Ando pelas poças que são rastros
Que são vestígios de minha amada
Sem nome, para alguns desgraçada.
Peço a ela que me molhe, que me invada,
Bebo-a para que viva em mim, que me beije,
Que me abrace, que me lave em suas lágrimas saudosas
E nesse querer bem chego a chorar junto com ela.
De noitinha, antes do sono,
Abro as janelas à espera de que ela me inunde
Os sonhos e deixe-me dormir enchuvecido
Nos braços tempestuosos de minha amada.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
As Razões de Tibério
Espera, espera enquanto componho teu sorriso em minha memória. Pensava Tibério, enquanto contemplava o semblante poligonal de Rachel, que não se cansava em cultivar sua paciência preguiçosa. Tinha uma aparência evidentemente poética. Aqueles olhos castanhos cor-da-tarde refletiam as inúmeras indagações, os inúmeros suspiros noturnos lançados ao absorto do espaço infinito pelos poetas anônimos sentados solitários aos bancos de praça, às escadarias das catedrais espalhadas de vila em vila, condensando um deus vivo em palavras mortas. Carregada à leveza da brisa primaveril, a planície caleidoscópica de sua voz perdia-se num sem-fim que despia o casto horizonte. Era lá, na palidez soturna do nada, na obscura forma inexistente, que se depositavam os olhares insólitos de sua ausência. Nada que um café amargo ou um wisky encantadoramente suado não pudesse enganar a memória de uma língua irracional. Sim, no silêncio das paredes silenciosas, ele enganava seu paladar tão desejoso do sabor daquelas tardes à sombra da roseira, sentados à grama em que era capaz de construir seu próprio mundo no instante de um beijo, na velocidade de dois olhares com a força de um suspiro. Aquele mundo próprio, sem deuses, igrejas, verdades ou esquecimento, um mundo em que o entardecer pudesse durar o tempo de uma vida, e a vida tivesse a beleza de um verso melancólico. Na fragilidade de um simples pensamento, uma em que não houvesse cores neutras capazes de resfriar os sentimentos, onde a noite caísse sem que fosse preciso dizer adeus.
E para isso, queria só um minuto, o minuto que Rachel era incapaz de esperar.
- No que você está pensando?
- Nada, amor, nada.
Mas o que é esse nada, Tibério? Um nada que percorre as estrelas e adormece no fio prateado da lua? Sim, era o Nada inconcebível pela palavra, o Nada indiscreto habitado por Deus, que os joelhos ignoram e que a fé limita e delibera. Anda rapaz, dize que és capaz de pensar naquela que está diante de ti, que buscas nos seus trejeitos o ponto de fuga para as linhas que dão dimensão ao silencio que te faz ausente, porque os olhos não bastam para compreender, contemplar ou admirar. Cala-te, que nem ela, nem ninguém nunca saberá o quanto o Criador concede do seu gosto no hálito de uma mulher.
Não, Rachel não é perfeita. Tem estranhos costumes. Cala-se quando deveria falar, põe-se a falar quando a surdez dos olhos se enamora com os abstratos versos do vazio, olha no momento de cegueira, cega diante da luz. Tem costumes estranhos, enfim, costumes de mulher.
- Nada? Sei, conta, vai!
- Ah, sei lá... não, não me olha assim!
- ?
- Pensava no quanto você é linda!
O que seria dos homens, não fosse a mentira? O que seria dos poetas, não fosse Pessoa?
A verdade é que ele queria que ela olhasse assim. Queria se embebedar daqueles olhos, despir-se da vergonha que todo homem sente ao parecer-se nu diante dos olhos da mulher amada. É isso que faz com que Deus tantas vezes pareça com um depósito (nem sempre gratuito) de angústias e frustrações. Não, isso não é poesia, ainda que metrificada, rimada, cadenciada, isso não é poesia. Senão, seriam poetas todos os dizimistas, senão todos os joelhos seriam dourados.
Quanto custa a sinceridade? Para o verdadeiro amante, custa uma vida cheia de letras espalhadas pela escuridão da insônia. A divindade do amor mora no verso de quem sofre por ele. Tibério sofria do mal de amor. De quanta ignorância é capaz o homem ao perder o sono pensando em alguém, um alguém com quem ele se encontraria no dia seguinte, na eterna tarde seguinte, com quem gastaria um inestimável tempo de sua vida simplesmente existindo? Tolice sonhar acordado com o futuro que não se sabe se será vivido, com a casa que talvez não compre, com os filhos que talvez não tenha. Tolice, enfim, nada. Nada, enfim, tudo isso. Tudo, porque o sonho era a completa existência de Tibério, a eternidade do que é efêmero a todo aquele que nunca teve, nem nunca terá a felicidade de sonhar acordado, mesmo que parecendo tolo a si próprio, àqueles que nunca serão ignorantes o suficiente para amar. Mas não me refiro àquele amor bíblico, formatado, bonitinho, rigoroso, nem ao metrificado pelo pensamento coletivo. Tibério carrega um sentimento incapaz de ser medido, censurado, até mesmo de ser sentido.
Rachel, contudo, a essência de um Deus infinitamente inacabado, não sabia esperar. Disse-se cansada daquela longa e prismática distância, disse-se “farta desses olhares que nunca estão comigo. Decerto você está pensando em outra, ou em coisa mais importante, você não me valoriza, Tibério, não dá um pingo de valor ao meu sentimento. Eu só queria que você me respeitasse. Ontem, mesmo, saímos juntos, mas onde você estava? Ficava me olhando distante, como se eu fosse uma idiota. Mesmo quando eu perguntava: - O que foi? Você só me respondia: -
- Nada, amor, nada.
Mas o que é esse nada, Tibério? Um nada que percorre as estrelas e adormece no fio prateado da lua? Sim, era o Nada inconcebível pela palavra, o Nada indiscreto habitado por Deus, que os joelhos ignoram e que a fé limita e delibera. Anda rapaz, dize que és capaz de pensar naquela que está diante de ti, que buscas nos seus trejeitos o ponto de fuga para as linhas que dão dimensão ao silencio que te faz ausente, porque os olhos não bastam para compreender, contemplar ou admirar. Cala-te, que nem ela, nem ninguém nunca saberá o quanto o Criador concede do seu gosto no hálito de uma mulher.
Não, Rachel não é perfeita. Tem estranhos costumes. Cala-se quando deveria falar, põe-se a falar quando a surdez dos olhos se enamora com os abstratos versos do vazio, olha no momento de cegueira, cega diante da luz. Tem costumes estranhos, enfim, costumes de mulher.
- Nada? Sei, conta, vai!
- Ah, sei lá... não, não me olha assim!
- ?
- Pensava no quanto você é linda!
O que seria dos homens, não fosse a mentira? O que seria dos poetas, não fosse Pessoa?
A verdade é que ele queria que ela olhasse assim. Queria se embebedar daqueles olhos, despir-se da vergonha que todo homem sente ao parecer-se nu diante dos olhos da mulher amada. É isso que faz com que Deus tantas vezes pareça com um depósito (nem sempre gratuito) de angústias e frustrações. Não, isso não é poesia, ainda que metrificada, rimada, cadenciada, isso não é poesia. Senão, seriam poetas todos os dizimistas, senão todos os joelhos seriam dourados.
Quanto custa a sinceridade? Para o verdadeiro amante, custa uma vida cheia de letras espalhadas pela escuridão da insônia. A divindade do amor mora no verso de quem sofre por ele. Tibério sofria do mal de amor. De quanta ignorância é capaz o homem ao perder o sono pensando em alguém, um alguém com quem ele se encontraria no dia seguinte, na eterna tarde seguinte, com quem gastaria um inestimável tempo de sua vida simplesmente existindo? Tolice sonhar acordado com o futuro que não se sabe se será vivido, com a casa que talvez não compre, com os filhos que talvez não tenha. Tolice, enfim, nada. Nada, enfim, tudo isso. Tudo, porque o sonho era a completa existência de Tibério, a eternidade do que é efêmero a todo aquele que nunca teve, nem nunca terá a felicidade de sonhar acordado, mesmo que parecendo tolo a si próprio, àqueles que nunca serão ignorantes o suficiente para amar. Mas não me refiro àquele amor bíblico, formatado, bonitinho, rigoroso, nem ao metrificado pelo pensamento coletivo. Tibério carrega um sentimento incapaz de ser medido, censurado, até mesmo de ser sentido.
Rachel, contudo, a essência de um Deus infinitamente inacabado, não sabia esperar. Disse-se cansada daquela longa e prismática distância, disse-se “farta desses olhares que nunca estão comigo. Decerto você está pensando em outra, ou em coisa mais importante, você não me valoriza, Tibério, não dá um pingo de valor ao meu sentimento. Eu só queria que você me respeitasse. Ontem, mesmo, saímos juntos, mas onde você estava? Ficava me olhando distante, como se eu fosse uma idiota. Mesmo quando eu perguntava: - O que foi? Você só me respondia: -
Nada... nada... nada. É isso que eu sou para você? Nada?” Sim, minha querida, tu és o nada que me engrandece, que me faz ter um sentido nessa estrada que leva a lugar algum, pensava. “eu quero atenção, quero sentir você do meu lado, para que ficar com alguém do meu lado que sequer fala direito comigo? Chega, Tibério, chega!”
Chega, Tibério, não... não... não, não chores. Ela voltará. Eu sei, tu sabes, ela sabe. Voltará tão logo sinta falta de tudo que existe no teu Nada, das batidas fortes do teu peito a estremecer as janelas da saudade. Voltará assim que ouvir o chamado do teu olhar buscando no horizonte aquele sorriso deixado antes do esquecimento. Sim, ele estará lá, porque lá o deixaste exatamente para encontrá-lo no momento em que nada mais houvesse que não a indestrutível corrente que te prende à saudade. Sei que teus joelhos não conversam com o chão falando de angústia, sei que as palmas das tuas mãos não fofocam a saudade e que teus olhos não se fecham, senão para iluminar o sorriso silencioso de tua melancolia.
O que ela não sabe é que mesmo sem mudar de idéia, ela voltará. Amanha estará contigo no trabalho. Pesada como lágrima contida, abreviará as tardes para arrastar-se ao teu lado noite adentro. Sua sombra possuirá todas as formas que a recordação alcançar nas formas dela e só terá um nome: Rachel.
Eu sei, tu sabes, eles sabem. É realmente uma pena que ela nunca saberá.
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Sobre pipoca, falta d'água e outras coisas
As coisas vão mal. Talvez fosse uma resposta como essa um motivo de preocupação para qualquer um que ma ouça dizendo. E é, na verdade. Pela vida as pessoas perguntam diariamente: “Como vão as coisas?” acreditava na preocupação alheia até perceber que eu era apenas uma coisa no mundo para elas, apenas mais uma coisa. Elas, que vivem num mundo-coisa, em que todas as preocupações se resumem em coisas que vão bem ou mal, coisas vãs que tão somente vão.
Viver num mundo-coisa, ou viver a própria coisa-do-mundo, que não sou e me recuso, serve para qualquer um que se considere coisa, simples coisa em seu próprio mundo. Além dessa triste constatação, percebo que “Como vão as coisas?” é uma mera maneira de iniciar uma conversa, puxar assunto. Ninguém está preocupado com as coisas que me cercam, e pior, consideram-me isso, coisa.
Provavelmente para essas pessoas eu seja, de fato, apenas uma coisa em seu mundo. Eis a razão para que me considerem estranho. Chamam-me reservado por ter poucos amigos. O que elas não sabem é que são esses poucos amigos que não me perguntam como vão as coisas. É com eles que não preciso puxar assunto, nem lançar perguntas de bolso simplesmente porque não tinha o que dizer. Sinceramente, com esses poucos amigos, tão poucos que se desvio o olhar da escrita enquanto escrevo, observo que na mão que sustenta o papel, tenho mais dedos que amigos, mesmo o silêncio ao seu lado é prazeroso e uma conversa nunca parece uma investigação de crediário.
Se me proponho a escrever sobre pessoas - qualquer, que vivem em seus mundos-coisa, não é porque elas me afetam, nem porque me sinto como elas, muito menos por serem relevantes. Não lhes quero mal, não quero que desapareçam. O que quero é que parem de desperdiçar água. Há tão pouca no mundo, ela é tão necessária para a humanidade quanto as pessoas raras e significantes que aqui já estiveram. Gostaria, do fundo do coração, que essas coisas viventes parassem de tomar banho, lavar as calçadas e seus carros de cinco portas e dezesseis válvulas, queria que não lavassem mais as roupas nem desperdiçassem mais a água que um dia faltará para quem realmente vale a pena.
Quando me refiro às pessoas significantes, não faço menção à Shakespeare, Platão, Einstein e tantos outros que deram razão de existir a quem sequer sabia porque nasceu. Mesmo porque já conheci muitos pipoqueiros (e como gosto de pipoca) que tinham muito mais importância e significância para o mundo que doutores, professores e cientistas. Não que a ciência seja menos importante que a minha pipoca, mas de que me acrescenta, ou acrescenta para a existência terrestre conhecer sobre o modo de reprodução das joaninhas? Peço perdão se você, por acaso, dedica sua vida às joaninhas, não pretendo lhe ofender simplesmente porque você é um inútil. Desculpe-me, mas a humanidade não precisa saber sobre isso, pelo menos a parte significante e não-coisa dela. Se, no entanto, insiste em considerar a reprodução desses insetos tão inúteis quanto você, só tenho um pedido a fazer, e não é para que deixe as pesquisas sobre essas inutilidades, peço apenas que tome de tomar banho.
Seu banho não é tão necessário, se duvida, continue lendo, provarei que chega a ser perda de tempo. Se você é um inútil, ainda que não pesquise sobre joaninhas, isso é apenas uma expressão, mas se você faz qualquer coisa substituível e irrelevante, dificilmente tenha contato, ou seja importante para alguém menos irrelevante, e acredite, esse alguém só pode ser relevante para você, não para o mundo. Como dizia, se você tem esse alguém irrelevante ao seu lado, o odor da falta de banho será completamente superável, pois o mau cheiro exalado não será destrutivo, apenas um mau cheiro, tal qual uma carniça de um animal morto que você encontra pela rua e passa sem dar muita importância. Não há porque se preocupar com isso, afinal, você é para o mundo nada mais do que um animal morto apodrecendo nas calçadas do lugar qualquer em que você pensa que vive. Você já está morto, apenas continua respirando e poluindo o mundo dos que são significantes para o mundo não-coisa.
Viver num mundo-coisa, ou viver a própria coisa-do-mundo, que não sou e me recuso, serve para qualquer um que se considere coisa, simples coisa em seu próprio mundo. Além dessa triste constatação, percebo que “Como vão as coisas?” é uma mera maneira de iniciar uma conversa, puxar assunto. Ninguém está preocupado com as coisas que me cercam, e pior, consideram-me isso, coisa.
Provavelmente para essas pessoas eu seja, de fato, apenas uma coisa em seu mundo. Eis a razão para que me considerem estranho. Chamam-me reservado por ter poucos amigos. O que elas não sabem é que são esses poucos amigos que não me perguntam como vão as coisas. É com eles que não preciso puxar assunto, nem lançar perguntas de bolso simplesmente porque não tinha o que dizer. Sinceramente, com esses poucos amigos, tão poucos que se desvio o olhar da escrita enquanto escrevo, observo que na mão que sustenta o papel, tenho mais dedos que amigos, mesmo o silêncio ao seu lado é prazeroso e uma conversa nunca parece uma investigação de crediário.
Se me proponho a escrever sobre pessoas - qualquer, que vivem em seus mundos-coisa, não é porque elas me afetam, nem porque me sinto como elas, muito menos por serem relevantes. Não lhes quero mal, não quero que desapareçam. O que quero é que parem de desperdiçar água. Há tão pouca no mundo, ela é tão necessária para a humanidade quanto as pessoas raras e significantes que aqui já estiveram. Gostaria, do fundo do coração, que essas coisas viventes parassem de tomar banho, lavar as calçadas e seus carros de cinco portas e dezesseis válvulas, queria que não lavassem mais as roupas nem desperdiçassem mais a água que um dia faltará para quem realmente vale a pena.
Quando me refiro às pessoas significantes, não faço menção à Shakespeare, Platão, Einstein e tantos outros que deram razão de existir a quem sequer sabia porque nasceu. Mesmo porque já conheci muitos pipoqueiros (e como gosto de pipoca) que tinham muito mais importância e significância para o mundo que doutores, professores e cientistas. Não que a ciência seja menos importante que a minha pipoca, mas de que me acrescenta, ou acrescenta para a existência terrestre conhecer sobre o modo de reprodução das joaninhas? Peço perdão se você, por acaso, dedica sua vida às joaninhas, não pretendo lhe ofender simplesmente porque você é um inútil. Desculpe-me, mas a humanidade não precisa saber sobre isso, pelo menos a parte significante e não-coisa dela. Se, no entanto, insiste em considerar a reprodução desses insetos tão inúteis quanto você, só tenho um pedido a fazer, e não é para que deixe as pesquisas sobre essas inutilidades, peço apenas que tome de tomar banho.
Seu banho não é tão necessário, se duvida, continue lendo, provarei que chega a ser perda de tempo. Se você é um inútil, ainda que não pesquise sobre joaninhas, isso é apenas uma expressão, mas se você faz qualquer coisa substituível e irrelevante, dificilmente tenha contato, ou seja importante para alguém menos irrelevante, e acredite, esse alguém só pode ser relevante para você, não para o mundo. Como dizia, se você tem esse alguém irrelevante ao seu lado, o odor da falta de banho será completamente superável, pois o mau cheiro exalado não será destrutivo, apenas um mau cheiro, tal qual uma carniça de um animal morto que você encontra pela rua e passa sem dar muita importância. Não há porque se preocupar com isso, afinal, você é para o mundo nada mais do que um animal morto apodrecendo nas calçadas do lugar qualquer em que você pensa que vive. Você já está morto, apenas continua respirando e poluindo o mundo dos que são significantes para o mundo não-coisa.
Amar como deve o homem
Amo como deve amar o homem que ama:
Impetuoso a si e em cegueira escravizada
E mesmo sem se dar àquela que lhe é amada
É obstinado e fiel a sua dama
E se resiste ao sentimento, é perdoada
Essa mulher que nas insônias se inflama
Pois não há rancor no peito do homem que ama
Uma mulher que ainda não sabe ser amada
E por não se saber ser, o amante persiste
Por mais que de descrença esteja povoado
Pois melhor falsa alegria a certeza triste
Assim, quem sabe amar se sabe alimentado
E apesar do sofrimento, não desiste
Pois quem não sofre não merece ser amado.
Relicário
E assim sigo me apaixonando
Ora por belas pernas, ora por outras
Pernas, não tão belas, mas que me fazem
Fugir dos beijos teus vividos
No passado, mas que ainda me aprisionam.
E nas horas em que me faço querer
Outras mulheres, acabo por te ter
Em outros rostos, te ouvindo em outras vozes,
Te chamando em outros nomes.
Mas se o grito que me cala outra
Vez me for ouvido, torno a querer-te
Solitário entre outros versos, nas mesmas
Lembranças. Entre noites vividas
No passado, entre beijos passados
Que me despertam nas noites insones.
E assim sigo me apaixonando
Para esquecer o que acordei lembrando
Depois da noite irreal em que em meus
Braços vi o sol te amanhecendo,
No esmaecer do teu sorriso que a luz
Transformou em ilusão e a memória
Castigando a solidão como em doença.
E agora outros rostos, quaisquer de qualquer hora
E outras palavras eternizadas na descrença
De um ouvido qualquer e imagens tentadoras.
E a sobriedade, enfim, ora... ora...
É tanta gente, são tantas gentes e amar não consigo
É tanta gente amando, tanta gente sorrindo
E cantando e esquecendo, tanta gente, gente, gente!
E poucas pessoas assim, simplesmente vivendo
Como vida inteligente.
E para lembrar o quanto sigo te amando
Saio de casa todo dia dizendo:
Hoje vou me apaixonar!
Ora por belas pernas, ora por outras
Pernas, não tão belas, mas que me fazem
Fugir dos beijos teus vividos
No passado, mas que ainda me aprisionam.
E nas horas em que me faço querer
Outras mulheres, acabo por te ter
Em outros rostos, te ouvindo em outras vozes,
Te chamando em outros nomes.
Mas se o grito que me cala outra
Vez me for ouvido, torno a querer-te
Solitário entre outros versos, nas mesmas
Lembranças. Entre noites vividas
No passado, entre beijos passados
Que me despertam nas noites insones.
E assim sigo me apaixonando
Para esquecer o que acordei lembrando
Depois da noite irreal em que em meus
Braços vi o sol te amanhecendo,
No esmaecer do teu sorriso que a luz
Transformou em ilusão e a memória
Castigando a solidão como em doença.
E agora outros rostos, quaisquer de qualquer hora
E outras palavras eternizadas na descrença
De um ouvido qualquer e imagens tentadoras.
E a sobriedade, enfim, ora... ora...
É tanta gente, são tantas gentes e amar não consigo
É tanta gente amando, tanta gente sorrindo
E cantando e esquecendo, tanta gente, gente, gente!
E poucas pessoas assim, simplesmente vivendo
Como vida inteligente.
E para lembrar o quanto sigo te amando
Saio de casa todo dia dizendo:
Hoje vou me apaixonar!
Pluviosidade
Minha amada tem cheiro de chuva.
Cai dolente, perfumando a saudade.
Severamente, é a dor na tempestade
Que chove, chove, chove sem parar.
Se ao calor de uma triste despedida
A ausência a ser vivida me enfraquece,
Minha amada é lágrima caída
Com gosto imortal de felicidade.
Minha amada é chuva chovida
Com um vento gelado que aquece
A esperança: eu sei, ela voltará!
Minha amada tem cheiro de chuva
Inconsciente, é indiscreta saudade
Dos muitos eu que sem ela não há.
Cai dolente, perfumando a saudade.
Severamente, é a dor na tempestade
Que chove, chove, chove sem parar.
Se ao calor de uma triste despedida
A ausência a ser vivida me enfraquece,
Minha amada é lágrima caída
Com gosto imortal de felicidade.
Minha amada é chuva chovida
Com um vento gelado que aquece
A esperança: eu sei, ela voltará!
Minha amada tem cheiro de chuva
Inconsciente, é indiscreta saudade
Dos muitos eu que sem ela não há.
Da espera e outros males do coração
Não, não estou à procura de alguém, não me importo com o passar do tempo, afinal, não estou à espera. Mas se esse alguém um dia aparecer em minha vida, espero poder lhe reconhecer assim chegar, que eu o aceite do jeito que vier, com todas as suas manhas, manias e defeitos, e que nunca me pareça mais ou menos do que realmente é, a medida exata do que preciso, embora não saiba, mas que eu saiba que precisava quando aparecer. E que a idéia desse descobrimento me faça perceber o quanto valeu a pena esperar, embora não estivesse esperando.
Espero também que quando esse alguém chegar, eu já não me tenha transformado em um velho amargo e saudosista, que insiste em se lamentar pelas dores nas juntas, pelo reumatismo, labirinto, esquecimento e por todos os desamores vividos, tanto os que se foram quanto os que não vieram. Que eu não esteja cansado demais para deixar que as lembranças e os “se” que a vida legou não me permitam ver o quanto a vida é boa, e que não foram erros meus ou de ninguém, mas a própria vida que seguiu seu caminho levando algumas pessoas para longe, tão longe que só em pensar na distância eu fique ainda mais velho.
Enquanto essa pessoa não chega, espero conseguir não esperar que ela chegue, pois pode ser que não venha. Não por medo de me machucar, ainda que o médico recomende poupar o coração para a velhice, não me importo em me expor às grandes paixões, mas espero não esperar, pois a espera castiga, torna-se cada vez mais longínqua, mais amarga, mais indiscreta. Ela é capaz de arrancar o paladar e fazer com que todo o resto da vida, tudo o que não está relacionado a esse alguém que não sei se chegará, torne-se sem gosto. Esperar faz mal aos olhos, pois tudo mais que não se espera perde a cor.
Por isso, se esse alguém um dia chegar, que chegue inesperado, feito gripe que a gente até sabe a exata razão por que se pegou, mas que lembramos depois da febre já ter suado a tarde toda. Espero um alguém como a própria gripe, inoportuna e febril me tomando o tempo do trabalho, não me deixando sequer pensar direito, varrendo a noite em um clarão desencontrado e profundo. Quero lembrar-lhe a cada espirro inesperado, nos olhos fundos e avermelhados, no sabor da canja da convalescença. Esse alguém viverá em mim sem se dar conta que me arde, que assanha, que me dispersa e tranca o nariz, como por ciúme de outros aromas. Uma gripe cheia de dores de cabeça, daquelas que não têm remédio. Doerá sem analgésico para a distância, sem antitérmico na partida, sem solução, cura ou oração que resolva o maior de todos os problemas, a saudade. E sei que esse alguém, se vier, virá também com seus problemas, que não sei se saberei como resolver, mas tentarei, juro que tentarei
Por isso, se esse alguém um dia chegar, que chegue inesperado, feito gripe que a gente até sabe a exata razão por que se pegou, mas que lembramos depois da febre já ter suado a tarde toda. Espero um alguém como a própria gripe, inoportuna e febril me tomando o tempo do trabalho, não me deixando sequer pensar direito, varrendo a noite em um clarão desencontrado e profundo. Quero lembrar-lhe a cada espirro inesperado, nos olhos fundos e avermelhados, no sabor da canja da convalescença. Esse alguém viverá em mim sem se dar conta que me arde, que assanha, que me dispersa e tranca o nariz, como por ciúme de outros aromas. Uma gripe cheia de dores de cabeça, daquelas que não têm remédio. Doerá sem analgésico para a distância, sem antitérmico na partida, sem solução, cura ou oração que resolva o maior de todos os problemas, a saudade. E sei que esse alguém, se vier, virá também com seus problemas, que não sei se saberei como resolver, mas tentarei, juro que tentarei
Quero, contudo, que esse alguém que não espero seja como febre permanente, pois o pior que alguém que se quer amado pode ser é apenas febril e passageiro. Não me zango por já me terem passado as febres (tão passageiras) que tive pela vida. Para algumas, hoje percebo, nada seria melhor do que passar, ainda que tenham me custado lenços de papel e consultas ao cardiologista. Mas o que seria da vida de um médico do coração, não fossem os males de amor? Que restaria? Tudo bem que existem outras causas, não tão emotivas, para o sofrimento dos cardíacos, mas o que seria dos médicos? Afinal, o amor é o pouco de metáfora que ainda resta na medicina.
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